| O mais
alto edifício do principal Boulevard de São Paulo, a Avenida Paulista, pertence ao
Itaú, um grande banco brasileiro, que se permite oferecer um belo centro cultural na sua
recepção. No palco está um pequeno nordestino. Armado de radio portátil, relógio de
pulso e óculos de sol, ele conta de seu destino, como rebento de uma família de roceiros
do sertão, que, como muitos milhões antes dele, dão às costas à região mais pobre do
Brasil, pra buscar sua sorte na cidade grande. Acompanhado da maldição dos que ficam,
que não o perdoarão se ele não trouxer, ao menos, um relógio, um rádio portátil e um
óculos de sol, como símbolo de sucesso, quando, algum dia, voltar para casa. O
heterogênico grupo de espectadores espreita a apresentação do sertanejo com grande
divertimento. Eles sabem que o âmago da questão é trabalhado com refinada ironia, o
qual o artista "allround" Tom Zé escolheu para o tema
"Viagens". O lugar de
nascimento de Tom Zé, Irará, é uma pequena cidade no tórrido sertão, cerca de 200 km
de Salvador. Aqui tudo começou: "Eu tinha 17 anos, quando eu vi alguém tocando um
violão. Depois disso eu só sonhava em tocar violão. Eu queria fazer alguma coisa para
prender a atenção das pessoas por uns 3 ou 4 minutos. Então eu comecei a fazer
brincadeiras. Depois vieram as primeiras gravações. No meu terceiro disco eu brinquei
forte demais; aí a mídia me deixou de lado e eu fiquei 17 anos esquecido. Isso foi em
73. Em 1990, num domingo de manhã, a minha esposa leu num jornal que David Byrne viria a
São Paulo pra me encontrar. Ela gritou: "Ah. Ele é um homem importante. "Eu
tinha decidido abandonar a música e voltar pra Irará, onde eu iria trabalhar num posto
de gasolina."
Este comentário tem mais que um núcleo
verdadeiro, despreza porém, modestamente, que o jovem compositor Tom Zé, no começo dos
anos 70, pertenceu aos protagonistas do Tropicalismo, que revolucionou a arte brasileira
e, de maneira relevante, deu forma à identidade do Brasil moderno, fora das sombras da
ditadura militar. Que os seus companheiros Gilberto Gil e Caetano Veloso sejam
reverenciados, desde então, como semi-deuses, Tom Zé porém, talvez o mais
"stlibildendste" (trendsetter) dos tropicalistas, caia num esquecimento, sem
piedade, é incompreensível e motivou o seu redescobridor David Byrne a uma crítica
severa: "Que povo é esse que não reconhece um músico desse gabarito e não o
venera como herói?". Entenda-se, com isto, não somente o talento de Tom Zé como
compositor e cantor, mas especialmente seu extraordinário potencial inovador, cujas
experiências de efeitos musicais já no começo dos anos 70, só encontrariam entrada no
mercado da música Pop, muitos anos depois: ele "deconstruía", colava, reusava
sons do dia-a-dia e construía geradores de ruídos, mecânicos e eletrônicos que
infelizmente sucumbiam à ignorância da História ou do clima tropical. No solo
nova-iorquino de David Byrne, Luaka Bop aparece com "Com Defeito de
Fabricação" agora o terceiro álbum internacional de Tom Zé. Um discoque,
comparado ao seu "Best of" de 1990, é menos espetaculoso. No entanto, quanto
mais se ouve, mais forte se destaca o charme intelectual-brincalhão deste músico de 62
anos, que irradia com uma clareza fantástica e calorosa quase todas as 14 músicas e que
constituem o "Gênio Tom Zé". Com isto, tanto faz se ele canta ou se prepara,
com um palitinho, a base do ambiente, como acontece em "Xiquexique", o final do
CD. Este título começa com um barulhinho esmeril, modulado com a boca, antes que um
simples acordeon, um triângulo e um pandeiro se ajuntem. A formação tradicional de
forró está completa e da recitação sepulcral de Arnaldo Antunes, que, por sua vez, é
recombinado a uma aparente mistura clássica de cordas e vozes femininas. Uma mescla de
estilos quase sobrenatural, que, como muitos trabalhos de Tom Zé, parece nascer em algum
lugar além de todos os gêneros e épocas. Seu campo de atuação, entre o folclore
nordestino e experimentos alemães avantgardistas, os quais ele aprendeu a estimar desde
os tempos de seus estudos universitários em Salvador, é ainda, como antes, sua mais
forte fonte de inspiração. Segundo o texto que o acompanha, "Com Defeito de
Fabricação" dizrespeito a uma tese, na qual as superpopulações das periferias no
terceiro Mundo gerariam andróides, que não saberiam mais ler, mas que, em função
disso, poderiam trabalhar melhor. Sob o ponto de vista dos "patrocs do primeiro
Mundo", eles tendem à perigosos defeitos de fabricação, podendo criar, pensar,
dançar e sonhar. Tom Zé pode, além disto, uns tantos mais.
A propósito, logo após o lançamento do CD nos
Estados Unidos, começaram alguns projetos de remixagem, por parte de jovens músicos.
Quem sabe se o nosso homem ainda vira "cult". |