Ghetto Fabulous
Julian Dibbell
Village Voice 

04/10 Setembro, 2002

Available for weddings and bar mitzvahs
(Foto: Eric Johnson)
Tom Zé
Jogos de Armar
Trama import
  
Na versão televisiva do filme sobre a vida de Tom Zé, o gênio louco brasileiro, vanguardista pop, excêntrico (estrelado por John Leguizamo no papel de Tom Zé e a ser produzido assim que o inferno congelar ou que o WalMart inclua em seu estoque o excelente Jogos de Armar, importado,  lançamento do ano 2 000,  não importa quais sejam os interesses anteriores), a primeira cena se passa em 1 990 e mostra nosso herói no ocaso de sua carreira: seis anos sem gravar, duas décadas sem uma música de sucesso, lenda há muito esquecida na lendária cena musical de seu país e pensando seriamente em abandonar as luzes brilhantes de São Paulo para voltar à sua rústica cidade natal e trabalhar no posto de gasolina de seu primo.

Flash back: 1968. Depois de uma montagem rápida agrupando uma marcha estudantil,  generais assinando decretos e cabeludos na deles, vemos Tom Zé (abreviação de Antonio José Santana Martins), posando para o grupo mostrado na capa do histórico lp Tropicália. Está rodeado pelos co-autores: os colegas compositores Caetano Veloso (Jeff Goldblum) e Gilberto Gil (Chris Rock), a banda de rock Os Mutantes (Sonic Youth) e outras estrelas menores do nascente movimento tropicalista (o elenco de Friends), todos com um ligeiro sorriso forçado, como se tivessem acabado de devorar a paisagem da cultura de massa da época e de vomitar uma mistura pop-cubista de rock, samba, bossa-nova, jingles e música concreta. Um rematado golpe cultural, a Tropicália precipita a música brasileira na pós-modernidade e, de quebra, lança a carreira de Caetano Veloso e Gilberto Gil, percursos extensos, salpicados de hits; ao longo dos anos eles atuaram no sentido de transformar a selvagem onivoracidade do Tropicalismo numa predominância pop de maior abrangência. Não teve a mesma sorte o portador da bandeira radical do movimento, cuja descida à obscuridade compreende 20 anos e cerca de meia dúzia de discos brilhantes, que venderam muito pouco – pequenas mutações aguçadas da forma da canção popular brasileira,  concisas, doces e tocáveis em rádio, exceto pela impeditiva dissonância, ruídos de serra, jogos de palavras dadaístas, e outras angulosas, desconcertantes e inusitadas idéias, imbricadas em toda a parte.

Mas exatamente quando Tom Zé se preparava para trabalhar como frentista, David Byrne (Christopher Walken), o Talking-Head-convertido-em-descobridor-de-talentos, foi para o Brasil num safári de caça-ao-disco e tropeçou num desses lps. Apaixonado, Byrne compilou The best of Tom Zé para seu selo Luaka Bop e entregou Tom aos braços amorosos do pessoal antenado, formador de opinião, dos Estados Unidos. No final da década, a Rolling Stone escolheu o Best of como um dos 10 discos essenciais da world-music dos anos 90, enquanto Tom Zé fazia turnês  pelo planeta acompanhado pelos reverentes roqueiros neo-art do Tortoise (interpretados pela Dave Matthews Band), e o relançado Tropicália se convertia em objeto de audição obrigatória nos guetos boêmios , de Williamsburg a Silverlake. Eis que o Brasil se dá conta dessa agitação toda, e quando o filme termina, vemos Tom Zé no Rock in Rio, interpretando trechos de Jogos de Armar --  caminhando, de maneira engenhosa,  sobre a estreita via localizada entre a excentricidade e a arte, o que lhe é peculiar --, para uma platéia de milhares de pessoas.

Rolam os créditos, corte para o comercial, e não importa que na vida real a maioria dos milhares estivesse ali para ver a atração principal, a Queens of the Stone Age. Ou que na vida real ninguém vença a adversidade de maneira tão organizada. Tom Zé teve uma oportunidade de recomeçar, é claro, mas não teria acontecido da mesma forma (ou provavelmente não ) se um certo segmento da música norte-americana não tivesse, na ocasião, entrado numa providencial crise de identidade. Quando  The Best of Tom Zé chegou às lojas de discos ainda era necessário pronunciar audivelmente e com clareza a expressão “post-rock”, mas o conceito já era objeto de discussão. A opinião nas ruas do gueto boêmio era que depois de trinta anos de hegemonia pop-cultural, o rock e sua ideologia de apoio cambaleavam, à beira da exaustão. A questão, agora, era imaginar o que viria a seguir, o que, para uma geração que passara a vida toda sob o arco acolhedor de um único gênero predominante, não era pouca coisa. Foi bem conveniente, então, encontrar uma cultura compatível com o rock, justamente no hemisfério sul,  que havia muito e de súbito havia se aparelhado com uma solução aparentemente simples: com o gênero pós-gênero que foi o Tropicalismo. E que prêmio, descobrir que seu praticante mais hardcore estava disponível para casamentos e bar mitzvahs.

Por isso Tom Zé finalmente obteve sua bem-merecida fama: alcançou-a como filho do post-rock, mascote e modelo para jovens artistas como a Tortoise e outros refugiados do poder extinto do gênero. O que não equivalia, exatamente, a alcançar o reconhecimento a que fazia jus o seu inato gênio pop-vanguardista, bizarro e louco, mas também não era um mau negócio, e aqueles entre os artistas jovens, seus fãs, que ainda não haviam compreendido que ele conseguira arrancar o melhor resultado disso entenderiam a mensagem agora ou nunca. Porque, se há uma lição a ser retirada da obra de Tom Zé, é a lição que Jogos de Armar  oferece mesmo num rápido primeiro olhar: pop, semipop ou antipop, quanto mais longe se tente ir para evitar o gênero, tanto mais provável é voltar-se-lhe diretamente à porta, golpeando-a com uma intensidade que poderia fazer crer ao mundo tratar-se de um esforço determinado a ingressar de novo nele.

Em Jogos de Armar, que significa “quebra-cabeça” e agora está disponível em qualquer loja perto de você, o esforço parece quase uma loucura. Os acessórios de gênero distribuem-se por toda a parte, como frutas do turbante de Carmen Miranda. Releituras do repertório tradicional, de ultratradicionais clássicos da sanfona como Asa Branca e Pisa na Fulô – cada um deles, devidamente submetidos  ao requisito do teste do estresse desconstrucionista, embora não lhes falte graça – prestam um claro tributo ao gêneros nordestinos [brasileiros] ostensivamente definidos, nos textos do disco, como baixão e xote, embora seja necessário aprofundar o Português para entender. Todas as outras faixas também recebem uma classificação;  algumas são inseridas em categorias brasileiras tradicionais, urbanas e rurais, como samba, desafio, outras etiquetadas como híbridos improvisados, como samba-rap e maracapoeira (o maracatu, estilo de rua de Recife, um componente essencial do mangue beat, tornado famoso pelo falecido Chico Science, mesclado a ritmos de capoeira). Quatro ou cinco canções são variações do chamegá, um estilo que Tom Zé parece ter inventado especialmente para este disco, definindo-o como “gênero com o violão fazendo o acento na oitava nota depois do downbeat da bateria” e chegando ao ponto de encarregar um casal de coreógrafos pós-modernos de criar uma dança para o ritmo, concluída por improváveis mas salutares movimentos ilustrativos como “tapa na bunda (incline-se e dê palmadas no traseiro de seu par)” e “cabra-cega (suspendam camisas/blusas, garotos e meninas, até cobrir o rosto, mas não o peito)”.

E, sim, claro, Tom Zé está brincando com a própria idéia de gênero, aqui. Mas não é só isso que ele está fazendo. Este, em certo sentido, é o disco mais compulsivamente idiossincrático que ele já fez. Ele  conseguiu mais dinheiro do que nunca para divertir-se com os estranhos instrumentos feitos em casa que vem inventando desde os anos 70 – o buzinório, um órgão feito de buzinas de automóvel, que entremeia uma buzina lastimosa ao longo da maracapoeira pró-Hendrix e antiimperialista “Jimi Renda-se/Moeda Falsa”; o enceroscópio, feito de enceradeiras, que  empresta seu zumbido de dentes matraqueantes à cadência, de resto tranqüila,  de “Desafio”; o hertZé, um sampler que Tom Zé declara ter inventado, de maneira independente, em 1 978, que aqui vertiginosamente retalha, corta em cubos, e serra ludicamente um momento de gargalhada, entrando e saindo do furioso undergroove de “O PIB da PIB (Prostituir)”, grito de dor provocado pela desenfreada indústria da prostituição infantil. Além disso, ele  inclui um cd adicional que contém, em estado bruto e não mixadas,  as faixas que compõem as canções do disco-mãe; a intenção declarada é que brotem mil versões remixadas em casa, mas dá a impressão de que Tom Zé o incluiu no último minuto,  como se o disco não estivesse suficientemente estranho para não ser confundido com o último cd de Celine Dion.

Da mesma forma, nós já ouvimos este disco antes. Ponha Jogos de Armar ao lado de quase qualquer outro cd de Tom Zé (exceto talvez Fabrication Defect, superByrnezado) e você se verá num aperto para saber onde começa um e termina outro. Há certas marcas registradas e que reaparecem com uma persistência de tique: o riffing automático do cavaquinho, a ameaçadora e vaga figura da guitarra pulsando sob ele, o coro feminino chamando e respondendo à envergonhada mas obstinadamente  melodiosa voz de Tom Zé. O efeito não é  repetitivo, porém, nem parece provir de exaustão criativa. Pelo contrário, é como se a inspiração do homem fosse inteiramente derivada do obsessivo projeto de definir um gênero totalmente seu, cujas convenções fossem em parte emprestadas do hegemônico e predominante gênero do samba, porém totalmente convertidas nos limites de um gênero que ele não pode compartilhar com ninguém. Post-rockers, tomem nota: Este é um trabalho solitário. Não é o caso de alguém ser obrigado a fazê-lo. Mas se você acha que têm coragem para seguir os passos de Tom Zé, vai fundo. Nós precisamos de mais música inusitada como a dele e ele pode gostar de ter alguém que lhe faça companhia.