Esses últimos três dias no
Brasil não pertencem a este século. Com a vitória do Lula
e a entrada de Paulo Coelho na Academia Brasileira de
Letras, este país passa a ser a prova mais evidente de que
a revolução é possível e que o modernismo faz mais uma
de suas iluminadas manifestações. Não bastassem esses
dois eventos emocionantes, me deparo - no mesmo hotel - com
Tom Zé. Não, não é tão simples. Vou tentar explicar.
Tom Zé faz
parte da minha vida inteira. Meu fascínio por ele é
doentio. A simplicidade e total sofisticação de sua música
sempre me lembraram aquelas figuras que aparecem (e
desaparecem) nos quadros de Bosch ou de Bruegel e cujo
impacto é algo misterioso, que nenhum Michel Foucault
conseguiria explicar. Tom Zé vê e não vê o ''objeto
musical'', assim como Arthur Bispo do Rosário não
reconhecia o planeta Terra como sendo uma esfera. Seus sons
parecem sugados dos instrumentos musicais por uma espécie
de buraco, um furo, um rasgo criado de propósito para
denunciar o defeito daquilo que costumamos achar belo. E,
como se fosse uma encenação teatral, sua filosofia e sua
virtuose musical transformam esse conceito de beleza em algo
sublime. Mas é estranho que ele parece não querer que o
vejamos. Tom Zé aparece pelos canos de escape ou por
rachaduras, como as rachaduras de Duchamp.
Sua voz
parece ser uma porta dos fundos de um palacete barroco e sua
genialidade reside justamente no fato de ele ser um
intelectual intuitivo, alguém que pratica (com controle
absoluto) a legenda e a sublegenda das coisas, dos objetos,
da vida, da poesia e sua arte é a soma de todos os nossos
desejos.
David Byrne
entendeu isso e fez Tom Zé explodir no primeiro mundo. Mais
uma vez ele aparecia e mais uma vez ele me emocionava,
quando eu colocava sua música no volume mais alto do meu CD
player.
Bem, mas
isso já faz algum tempo. O fato é que, ao dar entrada no
hotel há uma semana, o André, da recepção, me disse (em
tom de sussurro) que, naquele exato momento do meu check in,
o Tom Zé estava ''lá embaixo'' fazendo um show.
''Como
assim, André? O Tom Zé está tocando no teatro do
hotel?'', perguntei, aflito. ''Está, mas esse é o último
show e já está terminando.'' André deve ter visto na
minha cara a expressão de um diabo frustrado. ''Como assim,
André? Eu perdi o Tom Zé mais uma vez na minha vida?''
Subi pro quarto, sentei na cama e comecei a redigir uma
carta pra esse ser misterioso cuja genialidade transparente
me persegue a vida inteira e que se torna sempre invisível
quando quero vê-lo.
Empurrei a
minha carta por debaixo da porta de seu quarto, mas jamais
esperei ter uma resposta. Horas depois, recebo um recado de
volta e, finalmente, depois de algumas décadas de espera,
nos encontramos. E desde esse momento, não nos desgrudamos.
Ele bate na minha porta e eu na dele várias vezes por dia.
Tomamos café da manhã e, agora, encontrá-lo parece ser a
coisa mais normal do mundo. É como se nunca tivesse sido
diferente.
É estranho
tudo isso. Entre o discurso do Lula e o do Paulo Coelho,
parece que me encontro numa espécie de delírio maravilhoso
e, bem no meio, está a figura nordestina minguada e
flaminga de Tom Zé.
Como assim?
Eu também não entendo, mas em questão de três dias já
trocamos todas as espécies de intimidades, ele, eu e Neusa,
sua mulher. Viramos uma pequena família. Entrevistei-o pra
TV Uol, e ele compartilha da minha vida mais íntima. Fui
pro quarto dele mostrar a gravata que eu havia comprado pra
ir na ABL me comover (como poucas vezes na vida).
Contando
assim parece trivial, mas aqui dentro do meu coração isso
significa uma pequena revolução. Faz parte deste novo
Brasil, cujas luzes se acenderam e começam a revelar mistérios
dessa identidade cultural tropical maravilhosa e orgulhosa
de seu poder.
Há alguns
meses, acho que tudo isso não teria sido possível. Eu
nunca teria tido a coragem de tocar na mão de Tom Zé
pessoalmente. Era um dos meus poucos ídolos que nunca tive
coragem de perseguir.
No avião,
vindo pro Brasil há uma semana, vi na telinha um programa
sobre o Grupo Corpo e, de repente, aparece o Tom Zé sendo
entrevistado. Fiquei enlouquecido procurando o fone de
ouvido. Mas no momento em que consegui achar aquele
pluguinho na braçadeira da poltrona, Tom Zé já havia
desaparecido da tela. Caramba! Que sina!
Mas todo
esse acaso tem um fim, um propósito. Tom Zé se apresenta
no teatro da Uerj amanhã e no sábado. Dessa vez não haverá
força nesse planeta que me faça perder o show. Vou me
precaver e ir no mesmo carro que ele. Não, dessa vez ele não
vai desaparecer. Dessa vez e nunca mais. E na Uerj, depois
de ter me tornado íntimo do homem, vou vê-lo ao vivo pela
primeira vez. Pra mim, como pra muitos de vocês, esse show
vai ser algo extraordinário. Não podemos perdê-lo. Não
podemos perder o Tom Zé.