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Persistindo as burrices, os
Tons Zés deverão ser consultados
VITOR PAIVA
Escrevo aqui uma coluna sem motivo nenhum. O
tema não está na boca do povo e não necessariamente está sendo
notícia. Escrever sobre Tom Zé é um prazer, e faço-o agora somente
por isso. Artista como ele jamais estará fora de contexto.
Estive entrevistando-o para o jornal carioca O Tempo, que eu ajudo a
editar, e nos últimos dias tenho respirado Tom Zé. Espírito da
Tropicália em carne, não existe cidadão no mundo que possa ouvir o
disco Todos os Olhos, ou Estudando o Samba, e não ficar boquiaberto com
o refinamento em geral e principalmente com o quanto esses discos são
atuais e modernos. Ambos com quase 30 anos, poderiam ser lançados em
2003 que, mesmo assim, seriam a grande novidade. Assistindo ao show
Persistindo os Médicos, os Sintomas Deverão ser Consultados, tive
certeza: Tom Zé, aos 66 anos e mais de 30 de carreira, é o novo ar na
música e no pensamento brasileiro.
Ouvindo as histórias de sua saída de 17 anos de ostracismo, quando
David Byrne levou Tom Zé novamente ao sucesso, nos Estados Unidos e no
resto do mundo, confesso que tive uma ponta de inveja de Byrne. Mas não
por sua participação nesse momento histórico, mas sim por ele ter
sido por alguns minutos um estrangeiro ouvindo Tom Zé pela primeira
vez.
Porém, qualquer um ouvindo pela primeira vez um disco do Tom Zé é
como um americano perdido na Amazônia ou um índio ouvindo jazz. Sempre
te surpreende pra melhor.
Seu sucesso hoje é uma espécie dificílima de atingir. Ele não tem o
alcance mainstream quase unânime de tantos por aí mas em troca defende
como ninguém uma idéia sua, um sonho, uma estética genial que não
precisa ser diluída nem aceita por todos, e por isso resiste, perfeita.
Enquanto tantos alcançam milhões, ele é como um milhão alcançando
um a um,
Ouça Tom Zé, leia Tom Zé, fale com ele quando tiver a oportunidade,
trate de saber tudo o que puder sobre esse artista fascinante que o
Brasil possui e que possui o Brasil. E eu, ouvindo seus discos
gargalhando e chorando ao mesmo tempo, definitivamente só tenho a
agradecer.
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