A arte aberta (e alerta) de Tom Zé

 

TÁRIK DE SOUZA

Sempre assimétrico em relação ao mercadão, Tom Zé arremessa ao mesmo tempo um CD e um DVD, ambos pela gravadora Trama, mas de repertórios e climas divergentes. Imprensa cantada, o CD, faz uma compilação de temas colados à urgência da mídia, alguns já lançados em single, como Vaia de bêbado não vale, a propósito do episódio da vaia que recebeu João Gilberto num show em São Paulo, e outro, Companheiro Bush, abordando a invasão do Iraque. No DVD o foco é o show do disco anterior, Jogos de armar, com intromissão dos instromzementos, aparelhos eletrodomésticos e máquinas industriais que ele adaptou para utilização musical.

Além do espetáculo, onde não faltam momentos de insólita beleza como o do palco às escuras iluminado apenas por fagulhas, há cenas do artista e seu grupo na estrada, o making of da complexa montagem do show, e depoimentos confessionais do enfocado. Tom Zé fala da cultura muzárabe que aprendeu no balcão da loja do pai com o povo, algo que reencontraria no livro Os sertões, de Euclides da Cunha, e na obra de Guimarães Rosa. "São livros que me tornaram analfabeto. Eu sou doutor em música, mas tenho cara de professor?", questiona.

"Como não era capaz de escrever uma melodia linda, comecei a fazer pequenos segredinhos, dar pequenas chaves para que o público decodifique do outro lado", explicou ele seu método anticlichê. Uma postura que torna musicável qualquer assunto. Como no CD, a faixa Requerimento à censura, documento verdadeiro, datado de 1975, incluindo o indefectível "pede deferimento". Ou em 1,2, identificação, um relatório de documentos (RG, CIC, ISS, INPS, carteira da Ordem dos Músicos), tarefas prosaicas ("idas ao banheiro para atividades diversas, 36") e sentimentos ("impulsos de medo, 1.106", "sintomas neuróticos, 36").

Também a repetitiva Fórmula 1 ganha vitalidade estética no batidão estimulante de Interlagos F1 ("logo na curva do 's'/ o pneu canta e se aquece/ e como esse 's' é do Sena/ a pista fica pequena"). Além de uma exaltação ao movimento desencadeado por João Gilberto ("no dia em que a bossa nova pariu o Brasil/ teve que fazer direito") na contestadora Vaia de bêbado não vale, parceria com Vicente Barreto (também em versão instrumental), Tom Zé injeta um viés antiimperialista nas bem-humoradas Desenrock-se (no inventado estilo xote-xamegá) e Companheiro Bush. Mas endossa a american song no brilhante Você é o mel, transcriação de Augusto de Campos para You’re the top, de Cole Porter.

Num arranjo de Ruriá Duprat, que não nega a ascendência tropicalista, Tom Zé revisita sua São São Paulo, vitoriosa no festival da Record em 1968, inserindo falas, comentários e trechos das retirantes Asa branca e No dia em que eu vim me embora.

O disco abre numa releitura à capela e com sentido político do samba-canção Dona divergência ("Oh Deus que tens poderes sobre a terra/ deves dar fim a essa guerra/ e aos desgostos que ela traz"), de Lupicínio Rodrigues. A censura volta a ser anti-musa em Sem saia, sem cera, censura, com tratamento eletrônico e participação vocal de Jair Oliveira. A música está entre as inéditas e foi escrita a propósito de reações moralistas contra as faixas O PIB da PIB (prostituir) e Chamegá, do anterior Jogos de armar.

As duas reaparecem no DVD devidamente teatralizadas. Enfarpelado numa capa de plástico, Tom Zé enfia o dedo no nariz e empunha uma boneca para atacar a prostituição infantil na primeira. Na segunda, xinga o sequencer, aparelho eletrônico que teria uniformizado em 4X4 a batida do pop nativo. Emenda numa embolada com intervenções do compositor Jarbas Mariz, integrante da banda, e cita até o calango Dezessete e setecentos, sucesso de Luiz Gonzaga, de 1947.

Também provocador é o coco A chegada de Raul Seixas e Lampião no FMI, contraponto para a antiga Jimi Renda-se ("rock me rock me/ me rock rock me"), de 1970. O DVD é aberto por uma matreira Passagem de som, onde o rascunho invade o tema, comportamento típico da arte aberta (e alerta) deste Zé fora do tom.


[28/OUT/2003]