Um dos criadores do Tropicalismo, Tom Zé lembra a infância e
a juventude na Bahia, tema de um livro de memórias, e fala da
depressão e do ostracismo em que viveu por 17 anos
Enquanto Caetano Veloso exibe autoridade, entranhada em sua
dissertação sobre a herança do Tropicalismo,
Verdade
Tropical (1997), – Tom Zé, também tropicalista, deixa
escorrer a humildade e a ponta de insegurança que lhe travou
de tocar violão para sua primeira namorada, eterno trauma.
Convidado a escrever suas próprias linhas sobre o mesmo tema,
Tom Zé preferiu dar a
Tropicalista lenta luta (PubliFolha,
288 pgs) o tom de um livro de memórias. Lírico, nostálgico.
Com a serenidade de seus 67 anos, Tom Zé
lança ainda um novo disco, Imprensa cantada, bem como seu
primeiro DVD, Jogos de armar, mas aproveita também
para tentar corrigir o que julga serem distorções sobre seu
legado. Exalta os colegas tropicalistas, na verdade pouco
mencionados em seu livro, mas não esquece dos ressentimentos:
"É uma verdadeira utopia ter nascido
no tempo em que Caetano e Gil salvaram o país de entrar no
buraco da ditadura, quando a música era a esperança. Mas no
livro de Caetano – se você botar aí só essa parte eu fico
seu inimigo [avisa] – eu sou organizador de festa, tomador
de cachaça e não sei falar português", diz, em
entrevista por telefone.
Tropicalista lenta luta traz, além
do texto inédito sobre o movimento, artigos publicados por
Tom Zé em jornais e revistas, discografia, uma longa
entrevista (feita pelo músico e estudioso Luiz Tatit e por
Arthur Nestrovski, editor do livro) e as letras de todas as
suas músicas. Segundo o cantor, uma delas, Tô, de seu
disco mais famoso, Estudando o samba, traz os versos de
onde o apresentador Chacrinha teria tirado seu lendário bordão,
"Vim para confundir, não vim para explicar",
realmente semelhante a Tô: "Tô te explicando pra
te confundir/ Tô de confundindo pra te esclarecer".
"Quando lancei esse disco, em 1976, o
[crítico de música] Tárik de Souza destacou esses versos na
revista Veja. Quinze dias depois vieram me dizer que o
Chacrinha estava usando a frase. Fiz aquela coisa que o
cretino faz quando não quer lutar pelo que é seu, estava tão
fraco que continuei tratando da construção de meus
instrumentos experimentais e não dei bola".
O momento de fraqueza a que Tom Zé se
refere compreende o período entre 1973 e 1990, quando
mergulhou no ostracismo, lançando discos que não eram
tocados ou ouvidos. Contou apenas com o apoio de sua mulher,
Neusa, há 32 anos ao seu lado.
"Estive para morrer. Fiquei
desesperado. A sensação era de que tinha fracassado. Na hora
de dividir o espólio do Tropicalismo fui enterrado vivo, de
repente tudo que tinha feito desapareceu. Foi Neusa quem me
salvou, quando não tinha energia nem para levantar um pé do
chão, me levando para a macrobiótica".
Ouça faixas do novo CD de Tom Zé, através
do Windows Media Player:
- Companheiro
bush
- São
São Paulo
- Requerimento
à censura
Veja o trailer do primeiro DVD do cantor,
em 100k
ou 200k.