Trecho do livro 'Tropicalista Lenta Luta'


Entre a infância e o palco de hoje vim aos solavancos, levado pelo tempo e depois pelo espaço. Erros e tropeços. Trop trop que em reiterados e repetidos flashbacks tornaram-se lições. Polições.

Com sinceridade: foi uma sucessão de contrapassos e contratempos. Elos incompletos, indecisões, inanição, pânico.

Demorou muito para que eu divisasse, naquele conjunto, os traços de uma fisionomia bondosa.Certo dia, um golpe de vista mais geral mostrou que quando todas as dificuldades se agregavam, justamente então, emergia uma aliada. Ela me tomou pelas mãos e me levou a um terreno firme. Ela, com cujo apoio me converterei num profissional: a deficiência. (...)

Sei que vocês, minha torcida, estão perguntando: "Deficiência? Como? E que diabo foi aquela história de não conseguir cantar? Como 'não conseguiu'?

Simples: a namorada ali sentada. Eu, ao lado, com o violão. A tarde toda. E a voz emperrava, não saía.

Fazia mais uma tentativa, dava o acorde, pegava o tom, pensava e me concentrava na letra que ia começar e... a voz não saía. Blá blá blá, teorizava a timidez, blá blá blá recomeçava a esquentar – tomando vapor, tomando gás –, aquecendo o espírito que canta no homem, o páthos romântico, que era o conforme da moda, anunciava a canção pelo nome, puxava o ar e me certificava de que atingiria bem a primeira nota, abria a boca e... nada.

A namorada, calada. Sem saber o que dizer. Devia ser uma saia justa para ela também, vai ver que dizia baixinho, consigo mesma: "Se eu soubesse, não tinha pedido. Coitado, que aflição". Devia sentir-se mal. Pouco à vontade. Querendo estar longe dali. Silêncio. Não disse uma palavra...


[28/OUT/2003]