A imprensa cantada de Tom Zé
O compositor volta em dose tripla: CD de inéditas, o primeiro DVD da carreira e autobiografia, que será lançada amanhã.
Adriana del Ré - O Estado de São Paulo - Caderno 2 - 10/11/2003
|
Tom Zé participou de muitas das manifestações pela paz mundial, daí a faixa Urgente pela Paz. Diz o trecho: “Os poderosos querem guerrear/ Mas pra lá do Paquistão, do Quixadá/ E em além das águas do Jordão.” A esses governantes poderosos, o compositor se faz mais direto na sátira Companheiro Bush, canção de circunstância, escrita antes da invasão do Iraque. “Lula tinha chamado o presidente de Companheiro Bush. Eu o plagiei, porque acho que Lula não vai querer me processar, ele não vai querer ser compositor.” A censura de ontem e hoje, o compositor aborda em Sem Saia, Sem Cera, Censura e Requerimento à Censura, na qual ele se reporta a Vossa Senhoria pedindo a ela “Que se digne mandar/ Censurar as letras musicais anexas.”
Segundo
Tom Zé, suas composições não foram
tão perseguidas e censuradas quanto as de Chico Buarque, Caetano Veloso
e Gilberto Gil. “É lógico que tive quatro, cinco músicas que fiquei com dó
de serem censuradas . Numa delas, em vez de cantar ‘arroto de coca-cola’,
tive de cantar ‘sopro de coca-cola. ’” Num show que apresentou logo depois
da extinção da censura, ele se lembra de ter proferido a seguinte frase:
“Socorro, a censura acabou.” Ele explica: “Quis dizer que muita gente não
trabalhava, que se fazia perseguido pela censura, faturava por ser perseguido e,
naquele momento, queria ver o que ia sair da gaveta. E realmente não saiu
nada.” Diz ter sentido novamente o peso da censura em seu disco anterior, Jogos
de Armar, desta vez não por um órgão censor, mas pela classe média. O
novo disco compila homenagens outras, como ao Rock in Rio (Desenrock-se),
à terra da garoa, que esse baiano de Irará adotou (nova versão de São São
Paulo), a João Gilberto (Vaia de Bêbado não Vale), à Fórmula 1 (Interlagos
F1) e outras.
Pacotão
O CD Imprensa
Cantada faz parte de um pacotão Tom Zé, que inclui ainda um livro
autobiográfico, Tropicalista Lenta Luta, editado por Arthur Nestrovski,
que será lançado amanhã, na Livraria Cultura, e o DVD Jogos de Armar,
o primeiro da carreira, com registro de um show gravado em 2000 no Direc-TV
Music Hall, além de cenas de bastidores e
uma entrevista na qual o compositor descreve sua trajetória na música.
Essa trajetória também é descrita de forma detalhada por ele, em primeira
pessoa, no livro-divã Tropicalista Lenta Luta. Não se trata de mais um
registro sobre o tropicalismo, do qual Tom Zé é considerado um dos “cabeças”,
porque o próprio
compositor acredita que o assunto já esteja bem resenhado em outras
obras. Obviamente, ele não deixa de visitar a questão. “Quando eu comecei a
tentar fazer música, vi que não era capaz de fazer música coisa nenhuma e não
sei por qual obsessão continuei a tentar fazer não mais música, mas, sim, uma
coisa que não tinha nome naquele tempo”, observa.
“Depois, o tropicalismo me botou embaixo do telhado dele, ali eu
cabia.”
No
livro, Tom relata momentos cruciais da sua vida, que, de certa forma, o
impulsionaram para a música ou para a não música, para ser cantor ou
descantor. Há situações de até completo fracasso, que normalmente
desmotivariam o ser humano menos perseverante. Como quando sua namorada o
convidou para cantar na casa dela, isso em meados dos anos 50. Ele
passou a tarde inteira sem conseguir cantar absolutamente nada. A partir
daí, saiu em busca do próprio estilo, usando os amigos de Irará como termômetros.
Descobriu que a fusão de partes de cantigas folclóricas (o que ele
chama de sua soja transgênica) tinha repercussão local. Em 1960, a idéia
de participar do programa de TV Escada para o Sucesso induziu aquele
jovem a pensar numa canção com temas gerais, aquém das cantigas regionais.
Pegou manchetes de jornais baianos e compôs Rampa para o Fracasso (talvez
seu primeiro experimento com a tal imprensa cantada). Foi um sucesso. Tropicalista
Lenta Luta fala ainda de David Byrne, ditadura e traz fotos, escritos,
entrevista e registros históricos.
SEM
SAIA, SEM CERA, CENSURA
É
rima, a rima ditada por lei, por decreto É a múmia que mama no feto
É a luz que se filtra nas grutas
O insosso temperando as frutas
A parceria da pedra com a vidraça
Do elefante com a graça, com a taça
Com a bolinha de sabão
A censura, ela gosta da arte
A censura, ela ama a arte
Mas é como a fera penteando a bela
A censura, ela morre de amor pela arte
Acarinhando
a fada
A censura, ela adora a fragrância da arte
Mas é o machado
Entre as flores do prado
TRECHO
Minhas
Idéias Gozando com o Palco dos Outros
Pelo
telefone:
Torquato
Neto:
Tom, estou pedindo pra roubar uma palavra sua...
Tom
Zé:
Que brincadeira é essa, Torquato?
TN:
É, tô pensando em usar “domingá” ou “domingou” numa canção que
estou fazendo.
TZ:
Torquato, não me diga isso... Se eu fosse reclamar de coisas minhas, até mais
consideráveis... Olha, estou cansado de ver minhas idéias
gozando com o palco dos outros.
TN:
É por isso que estou ligando. Mas vamos ao caso: você escreveu essas palavras
na Moreninha, não é?
TZ:
Peraí, estou repassando a letra da Moreninha na cabeça... não acho as
palavras! “Tempo tempou/Dia diou/Verão desinvernou...” Não, não tem
“domingá” nem “domingou”
TN:
De onde é então? Já vi você cantando isso...!
TN:
E como fica o caso, você me dá permissão?
TZ:
Dominguetudo que você quiser, Torquato. Muito obrigado.
(do
livro ‘Tropicalista Lenta Luta’)