A imprensa cantada de Tom Zé

O compositor volta em dose tripla: CD de inéditas, o primeiro DVD da carreira e autobiografia, que será lançada amanhã.

Adriana del Ré - O Estado de São Paulo - Caderno 2 - 10/11/2003

No fim da década de 50, Tom Zé, então rapazote franzino e na inquietude de seus 20 e poucos anos, era estagiário do Jornal da Bahia, em Salvador. Uma de suas incumbências era a de cobrir a Secretaria de Obras Públicas. Todo dia, lá ia ele visitar o secretário. “Eu era o repórter mais esculhambado por ele”, diz. Submetido a um chá de cadeira diário, só à tarde era atendido. “Saía de lá humilhado. Eu era muito acanhado”.Passadas outras desventuras e prestes a se tornar  repórter contratado e ganhar salário, Tom Zé desistiu da carreira. Largou o jornal para seguir um grupo de amigos músicos que tinham show marcado na Europa (ele acabou não embarcando, mas isso já é outra história). “Sou um repórter fracassado, que decidiu fazer música”, brinca ele, hoje com 67 anos. O músico abandonou o jornalismo, mas continuou a ser um cronista atento do cotidiano e a fazer do noticiário subsídio para suas músicas. Em seu novo CD, Imprensa Cantada, essa faceta é reforçada por um repertório praticamente de inéditas (já que muitas das canções foram feitas no período de ostracismo do músico), desenvolvido a partir de temáticas que fazem ou fizeram notícia. “Eu não tinha habilidade para escrever música contemplativa e fundei como base fazer coisas da ocasião, como fazem o jornal, a TV e o rádio”, ele comenta. “Este ano foi muito probo de acontecimentos que mereceram músicas, como mobilizações pela paz e guerra do Iraque. Por isso, saiu o disco”.

Tom Zé participou de muitas das manifestações pela paz mundial, daí a faixa Urgente pela Paz. Diz o trecho: “Os poderosos querem guerrear/ Mas pra lá do Paquistão, do Quixadá/ E  em além das águas do Jordão.” A esses governantes  poderosos, o compositor se faz mais direto na sátira Companheiro Bush, canção de circunstância, escrita antes da invasão do Iraque.  “Lula tinha chamado o  presidente de Companheiro Bush. Eu o plagiei, porque acho que Lula não vai querer me processar, ele não vai querer ser compositor.” A censura de ontem e hoje, o compositor aborda em Sem Saia, Sem Cera, Censura e Requerimento à Censura, na qual ele se reporta a Vossa Senhoria pedindo a ela “Que se digne mandar/ Censurar as letras musicais anexas.”

Segundo Tom Zé, suas composições não foram  tão perseguidas e censuradas quanto as de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil. “É lógico que tive quatro, cinco músicas que fiquei com dó de serem censuradas . Numa delas, em vez de cantar ‘arroto de coca-cola’, tive de cantar ‘sopro de coca-cola. ’” Num show que apresentou logo depois da extinção da censura, ele se lembra de ter proferido a seguinte frase: “Socorro, a censura acabou.” Ele explica: “Quis dizer que muita gente não trabalhava, que se fazia perseguido pela censura, faturava por ser perseguido e, naquele momento, queria ver o que ia sair da gaveta. E realmente não saiu nada.” Diz ter sentido novamente o peso da censura em seu disco anterior, Jogos de Armar, desta vez não por um órgão censor, mas pela classe média. O novo disco compila homenagens outras, como ao Rock in Rio (Desenrock-se), à terra da garoa, que esse baiano de Irará adotou (nova versão de São São Paulo), a João Gilberto (Vaia de Bêbado não Vale), à Fórmula 1 (Interlagos F1) e outras.

Pacotão  O CD Imprensa Cantada faz parte de um pacotão Tom Zé, que inclui ainda um livro autobiográfico, Tropicalista Lenta Luta, editado por Arthur Nestrovski, que será lançado amanhã, na Livraria Cultura, e o DVD Jogos de Armar, o primeiro da carreira, com registro de um show gravado em 2000 no Direc-TV  Music Hall, além de cenas de bastidores e  uma entrevista na qual o compositor descreve sua trajetória na música. Essa trajetória também é descrita de forma detalhada por ele, em primeira pessoa, no livro-divã Tropicalista Lenta Luta. Não se trata de mais um registro sobre o tropicalismo, do qual Tom Zé é considerado um dos “cabeças”, porque o próprio  compositor acredita que o assunto já esteja bem resenhado em outras obras. Obviamente, ele não deixa de visitar a questão. “Quando eu comecei a tentar fazer música, vi que não era capaz de fazer música coisa nenhuma e não sei por qual obsessão continuei a tentar fazer não mais música, mas, sim, uma coisa que não tinha nome naquele tempo”, observa.  “Depois, o tropicalismo me botou embaixo do telhado dele, ali eu cabia.”

No livro, Tom relata momentos cruciais da sua vida, que, de certa forma, o impulsionaram para a música ou para a não música, para ser cantor ou descantor.  Há situações de até completo fracasso, que normalmente desmotivariam o ser humano menos perseverante. Como quando sua namorada o convidou para cantar na casa dela, isso em meados dos anos 50. Ele  passou a tarde inteira sem conseguir cantar absolutamente nada. A partir daí, saiu em busca do próprio estilo, usando os amigos de Irará como termômetros.  Descobriu que a fusão de partes de cantigas folclóricas (o que ele chama de sua soja transgênica) tinha repercussão local.  Em 1960, a idéia de participar do programa de TV Escada para o Sucesso induziu aquele jovem a pensar numa canção com temas gerais, aquém das cantigas regionais. Pegou manchetes de jornais baianos e compôs Rampa para o Fracasso (talvez seu primeiro experimento com a tal imprensa cantada). Foi um sucesso. Tropicalista Lenta Luta fala ainda de David Byrne, ditadura e traz fotos, escritos, entrevista e registros históricos.


SEM SAIA, SEM CERA, CENSURA

É rima, a rima ditada por lei, por decreto É a múmia que mama no feto
É a luz que se filtra nas grutas
O insosso temperando as frutas
O medo, o medo tem que censurar para criar
A parceria da pedra com a vidraça
Do elefante com a graça, com a taça
A parceria da bala de canhão, canhão, canhão
Com a bolinha de sabão
A censura, ela gosta da arte
Mas é a Medusa retocando a musa
A censura, ela ama a arte
Mas é como a fera penteando a bela
A censura, ela morre de amor pela arte
Mas é a enxada
Acarinhando a fada
A censura, ela adora a fragrância da arte
Mas é o machado
Entre as flores do prado


TRECHO

Minhas Idéias Gozando com o Palco dos Outros

Pelo telefone:

Torquato Neto: Tom, estou pedindo pra roubar uma palavra sua...
Tom Zé: Que brincadeira é essa, Torquato?
TN: É, tô pensando em usar “domingá” ou “domingou” numa canção que estou fazendo.
TZ: Torquato, não me diga isso... Se eu fosse reclamar de coisas minhas, até mais consideráveis... Olha, estou cansado de ver minhas idéias
 gozando com o palco dos outros.
TN: É por isso que estou ligando. Mas vamos ao caso: você escreveu essas palavras na Moreninha, não é?
TZ: Peraí, estou repassando a letra da Moreninha na cabeça... não acho as palavras! “Tempo tempou/Dia diou/Verão desinvernou...” Não, não tem “domingá” nem “domingou”
TN: De onde é então? Já vi você cantando isso...!
TZ: Domingá, domingou... Já sei, é de outra música, Dique do Tororó: “Ê ê, Tororó, ê, domingou/O dique está nascendo, ê, no domingá.”
TN: E como fica o caso, você me dá permissão?
TZ: Dominguetudo que você quiser, Torquato. Muito obrigado.

(do livro ‘Tropicalista Lenta Luta’)