| A apresentação das musicas antes das eliminatórias, o péssimo som do Teatro
Paramount, a irritante orquestra da TV Record, a proibição da imprensa nos bastidores,
tudo isso faz, até agora, um Festival desinteressante. O nível das músicas? Regular. Só há dez de boa qualidade, que
devem ser finalistas sem dar muito trabalho ao juri especial.
Memórias, de Maria Saré, de Edu
Lôbo e Gianfrancesco Guarnieri. É uma música estranha, com um ótimo arranjo de Edu: o
fagote e as flautas dão o clima de mistério que a letra sugere. O refrão lembra um
pouco de todas as músicas sérias de nosso folclore. Esta é, sem dúvida, uma das
melhores composições de Edu, um músico de qualidades extraordinárias.
2001, de Rita Lee e Tom Zé.
A exemplo de Alex, que projeta quase todos os instrumentos usados pelos Beatles, Cláudio
Batista, irmão de Sérgio e Arnaldo - os dois rapazes dos Mutantes-, construiu um
Theremin. Adaptou um pedal á guitarra de Sérgio que permite a reprodução do
"uá-uá" - um som conseguido pela primeira vez por Bubber Miley, pistonista da
orquestra de Duke Ellington, pondo a palma da mão contra a surdina de seu pisten e
tirando a sucessivamente - tudo para obter os efeitos eletrônicos de 2001. Só essa
montagem prejudica a apresentação da música: quase não se ouvem os bons versos de Tom
Zé; a ligação entre o novo (os efeitos eletrônicos) e o velho (a parte cantada á moda
caipira), é imperfeita. Assim mesmo, 2001 agrada pela originalidade.
Sentinela, de Milton Nascimento e
Fernando Brandt. É uma musica que tem muito de um negro spirituals (canticos religiosos
dos negros norte-americanos), a partir da tentativa bem sucedida de Fernando Brandt ao
explorar um tema difícil: um velório. A melodia de Milton é absolutamente preciosa.
Divino Maravilhoso, de Gilberto Gil e
Caetano Veloso. O texto é o mais importante nessa música, não podia ser de outra forma.
Só uma melodia simples valorizaria a sua informação, a sua advertência, a sua
atualidade. A interpretação de Gal Costa é excelente. Ela é, realmente, a cantora mais
importante do momento.
Don Quixote, de Arnaldo Dias Batista
e Rita Lee. No ritmo dos versos de Rita e no bom humor do arranjo do maestro Rogério
Duprat, está a força dessa música. A crítica é muito bem colocada. Don Quixote,
agora, não precisaria mais lutar com armadura e espada para vencer monstros imaginários.
Por que? Ora, a televisão está ai mesmo.
Dia de Graça, de Sérgio Ricardo. Ele tentou
e conseguiu: fez uma música fácil, alegre, inteligente e satírica. E, dessa vez, é
acompanhado por um bom conjunto: o Modern Tropical Quintet.
Descampado Verde, de Maranhão. Sem repetir os
seus frevos cansativos, Maranhão concorre com uma música que monstra muito versos
talentosos. É superior a tudo o que ele fez até agora.
São São Paulo, Meu Amor. A letra é
perfeita. Uma homenagem de bom gosto a uma cidade difícil de ser cantada. A sobriedade de
melodia é compensada pelo lirismo do refrão.
Eonita, de Hilton Acyoli e Geraldo Vandré.
Apesar de tudo, e embora chegue atrasada para festivais - há dois anos seria aceita sem
restrições - é uma música interessante, uma toada simples, até certo ponto ingênua e
talvez, por isso, agrade.
Boletim, de Marconi Campos e Hilton Acyoli. A
experiência que eles fizeram funcionou: é um samba a sete tempos que entusiasma. Se a
letra de Hilton fosse um pouquinho melhor, essa dupla teria, nesse Festival, o seu maior
sucesso.
Algumas dessas músicas podem ser escolhidas
também pelo júri popular: Bonita, Dia da Graça e São São Paulo, Meu Amor, por
exemplo. Mas as mais fortes candidatas aos premios, segundo esse mesmo júri, vão ser,
provavelmente.
A família, de Ari Toledo e Chico
Anísio. Uma música sem maiores consequências que caiu no gosto popular por causa de
Jair Rodrigues.
A Madrasta, de Beto Ruschel e Renato
Teixeira. Mais uma vez o cantor é responsável pelo êxito de uma música, Roberto
Carlos, apesar de letra mediocre de Renato Teixeira, pode levar essa música aos primeiros
lugares.
Pequenina, de César Roldão Vieira.
É muito infantil, muito mesmo. O público mais jovem vai cantá-la, com toda a certeza.
Casa de Bamba, de José Martinho
Ferreira. Um samba autêntico, um bom compositor, mas a música estaria melhor se fosse
apresentada na Bienal do Samba. Enfim, quem não gosta de uma boa batida de samba, com
tamborim, cuica e outras coisas?
Bem-Vinda de Chico Buarque de
Holanda. É de Chico Buarque, que tem um público respeitável, principalmente feminino.
Rosa da Gente poderia ser uma boa
música, os versos de Nélson Mota são bem feitos. Mas parece que sempre falta alguma
coisa a acrescentar no trabalho de Dori, desde que ele fez Cantador. O que é bom mesmo: a
voz de Beth Carvalho, uma excelente cantora.
Sei Lá, Mangueira, De Paulinho da
Viola. Outro samba que já deve ter conquistado o publico, valorizado pelo ritmo de Elza
Soares.
Todas as Ruas do Mundo, de Fernado
César e Elizabeth Sanchez. Um detalhe importante nessa música: a voz de Ana Lúcia.
Hoje serão apresentadas as seguintes músicas
na 1.a eliminatória do Festival da Record: A Grande Ausente, de Francis Hime e
Paulo César Pinheiro, com Taiguara; A Madrasta, de Belo Ruschel e Renato
Teixeira, com Roberto Carlos; Bonita, de Milton Acyoli e Geraldo Vandré, com o
Trio Marayá e Geraldo Vandré; Cajueiro Velho, de Luiz Roberto Oliveira e Milton
Eric; Nepomuceno, com Eduardo Conde; Descampado Verde, de Maranhão, com o MPB 4
e Maranhão; Dia da Graça, de Sérgio Ricardo, com o autor e o Modern Tropical
Quintet; Domingo de Manhã, de Maurício Einhorn, Arnaldo Costa e Mário Telles,
com Wilson Miranda; Eu Tenho que Andar Mais Lento, de Mário Rocha e Fernando
Lôbo, com Márcia ; Festa é Festa, de Carlos de Souza e Ronaldo Tapajós, com
Rô e Carlinhos; Berlimuro, de Adilson Godoy com o autor e ClaudeteSoares; Rosa da
Gente de Dori Caymmi e Nelson Motta, Beth Carvalho; 2001 de Rita Lee Jones e
Tom Zé, com Os Mutantes.  |