| Na estréia do show de lançamento de seu
disco the hips of tradition, na noite de quinta-feira, num Jazzmania à meia
bomba, Tom Zé pagou o preço dos 24 anos de jejum carioca. Caetano Veloso, numa mesa
central com o filho Moreno, ao lado de integrantes do grupo Mulheres Q Dizem Sim, e o
compositor Jatobá formavam a diminuta falange da classe na platéia. "Estava com
saudade da sua teatralidade", celebrou Caetano no camarim, após o espetáculo, num
longo abraço com o ex-parceiro de movimento tropicalista. Tom Zé lembrou a carta que
escreveu para o cineasta de Cinema Falado, o mesmo Caetano. "Foi a palavra
que organizou o caos", citou. Durante uma hora exata, em 16 números (alguns curtos
como vinhetas, que ele apelida de "música de bolso"), o maldito redescoberto
por David Byrne pilota uma vanguarda sem a farda da forma, num rascunho estrutural quase
punk. O ex-ator da montagem do Rock horror show rebola as mãos como Carmem
Miranda em Lua girassol, canta flexionando o corpo na comédia Sofro de
juventude ("essa coisa maldita/ que quando está quase pronta/ desmorona e se
frita") e dubla a espiral eletrônica no épico bis, Fliperama. Hoje e
amanhã, no mesmo bat-local, Tom Zé atesta que o experimental não precisa ser
chato.
Calça de linho branca folgada, camisa social
de listras sobre uma camiseta com uma pintura de Van Gogh, o astro principal tem atitude,
mas dispensa pose. Ironiza a imagem de show inteligente e conta que, na apresentação do
Summer stage no Central Park, de Nova Iorque, duas semanas atrás, ele foi confundido com
Raul Seixas pela platéia gritona de predominância brasileira. ´´Me pediram para cantar
Ouro de tolo e outros ouros, fulmina. Coloca o CD The hips of tradition na
estante - imaginem uma moça linda exibindo o produto com um enorme
decote, debocha - antes de cantar a antifaixa de trabalho Jingle do disco.
Compre este disco / é uma pesquisa paciente, caricatura a letra.
Acompanhado por uma banda integrada pelo
guitarrista Éder Sandoli, o baixista Gilberto Assis, o tecladista Ronaldo de Carvalho,
Jarbas Mariz (bandolim) e Lauro Lelis (bateria), Tom Zé trafega entre o lirismo de Sem a
letra A (da trilha de uma peça infantil do artista plástico Elifas Andreato) e a
microtonalidade walter smelakianade Toque, onde os sons bóiam em fragmentos de um
discurso instrumental. Sua decupagem revolucionária do samba (Hein?!, Doí) agrega o
heavy enredo em Ogodô, ano 2000. O megahit de Carmem Miranda Pra você gostar de mim
(Taí), composta por Joubert de Carvalho em 1930, divide-se entre o baião e a marcha de
carnaval. Utilizando cortinas de uníssonosou retinindo o triângulo metálico do baião
atemporal, Tom Zé mostra que continua em movimento, 26 anos após a virada de mesa
tropicalista.
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