| Há dois anos, um dos bons compositores da música brasileira estava
quase se separando de um velho companheiro de batalhas - seu chevette 82 - quando chegaram
os primeiros rumores de que o pop star David Byrne estava interessado em lançar nos
Estados Unidos uma coletânea das canções do baiano Tom Zé. Mesmo com o dinheiro
minguado, ele resolveu adiar a venda do automóvel e batizou-o de "Espera
Byrne". Depois que o disco saiu, em dezembro do ano passado, a carreira de Tom ganhou
um impulso internacional e o Chevette foi contemplado com um novo motor. Brazil Classics 4 - The Best of Tom Zé
está sendo lançado agora no Brasil pela Warner. Exilado da indústria fonográfica
brasileira há quase uma década, Tom Zé pode se tornar mais um artista a retornar ao
sucesso no próprio país através do reconhecimento internacional. O crítico do New
York Times, Julian Dibbeli, tratou de prevenir os desavisados: "Nunca as
platéias americanas foram presenteadas com uma amostragem tão eletrizante da
inteligência vigorosa que costuma se esconder sob as bonitas superfícies do pop
brasileiro".
"Quando li a crítica do New York
Times, me vi diante de uma pergunta assustadora. Como todas as canções do disco
foram gravadas de 1973 a 1979, eu me questionei: Meu Deus, será que eu sou uma daquelas
pessoas que não são compreendidas em sua época?" - diz Tom Zé, sem nenhum
ressentimento. Apesar de ausente dos estúdios de gravação por falta de contrato, o
compositor recusa o título de injustiçado. "Dentro das estruturas ainda
consumíveis, os meninos (Caetano e Gil) conseguiram colocar muita novidade. Eu precisei
fugir mais um pouco, devido a uma natureza radical pela qual não me recrimino".
O disco reúne canções dos seus três LPs
mais radicais: Todos os Olhos (1973), Estudando o Samba
(1976) e Nave Maria (1979). Segundo ele, foi exatamente com Todos
os Olhos que começou a radicalização das suas decisões musicais, que já
estavam embutidas no movimento tropicalista, do qual foi um dos fundadores.
Embora sem nenhum fio de arrependimento
tardio, Tom considera a hipótese de ter cometido um erro de estratégia neste momento de
ruptura. Diz que talvez pudesse ter aliado suas intenções experimentais a canções mais
digestivas para o consumo imediato, como fizeram os outros tropicalistas.
Mesmo enfrentando dificuldades cada vez
maiores, ele não arredou pé. Seguiu experimentando novos métods de composição e
desconstruindo sambas. Passou a pesquisar novos timbres e chegou a bolar uma inusitada
mini-orquestra com motores de eletrodomésticos, depois que descobriu a "maravilhosa
sonoridade" de uma enceradeira emperrada. Para Tom Zé, eram possibilidades de
expandir os limites da música popular. "Baixei meu nível de vida para fazer aquilo
que naquele tempo todos chamavam de lucoura", lembra. Quando descobriu no livro de
John Cage, De Segunda a Um Ano, uma frase de Buckminster Fuller -
"não estamos no tempo da posse, estamos no tempo do uso" -, resolveu ampliar
ainda mais suas pesquisas. Com um gravador digital, passou a "chupar"
instrumentos de discos de música clássica, em frequências diferentes. Das sinfonias de
Beethovem, copiava violinos a 10 mil hertz. Das Paixões de Bach, coros a
12 mil hertz. Depois cortava e colava manualmente as fitas, de modo que os instrumentos
soassem ininterruptamente, e acoplava a um teclado. Quando acionadas, as teclas permitiam
surpreendentes interferências na estrutura musical das canções. Batizou o experimento
de "Orquestra de Hertz".
O compositor baiano compara o fascínio pelo
timbre de "instrumentos" incomuns à arte de domar animais. "Você olha
para um floresta e não sabe que animais poderão servir ao homem. Através de um processo
de experimentação, vai se aproximando do domável. Estas minhas pesquisas não são tão
loucas se você pensar que há longos séculos o homem estava estirando fedorentos couros
de alces e garrotes para chegarmos aos tímpanos afinados e elegantes".
Sem recursos para prosseguir com a
"Orquestra de Hertz", Tom Zé espera que o lançamento da antologia de David
Byrne lhe proporcione novas propostas de trabalho. Ele tem um contrato assinado com a
luaka Bop (gravadora de Byrne) por seis anos e uma apresentação marcada no festival Next
Wave, em Nova York, ainda este ano. Ao que tudo indica, com o puxão de orelhas que o
pop-star norteamericano deu na sonolenta indústria fonográfica e autor dos versos
"só descanço na tempestade/só adormeço no furacão" - vai finalmente se
livrar da pecha de "o baiano que não deu certo". A determinação deste
nordestino magricela de 54 anos, de olhos inquietos, pode se transformar numa esperança
de renovação, nestes tempos de cubos de açucar e ursinhos amestrados. |