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formação musical de Tom Zé vem de uma mistura de trova nordestina com Seminários de
Música da Bahia, na época em que estes eram uma ponta de vanguarda do ensino musical.
Entre os sons de Irará e as aulas de Koellreutter, sua ficção vocal é francamente
sertão e bossa-nova, sua composição musical vai do tosco ao experimental, e as letras
são às vezes derramadas em trocadilhos sentimentais. Mas o resultado é sempre inquieto,
interessante e muito dele: entre a sátira de costumes e o lirismo galáctico, inventando
polifonias de ruídos e planos sonoros, Tom Zé vai driblando o lugar incômodo e
estático de primo pobre da Tropicália.
Há alguns anos Tom Zé vinha fazendo um trabalho musical genial, que infelizmente não
foi documentado. Ele cosntruiu um "órgão de eletrodomésticos" (um teclado
elétrico que acionava enceradeiras, liquidificadores, geladeiras, batedeiras e
centrifugadoras, ao mesmo tempo que fragmentos da Missa Lubz e de sinfonias orquestrais).
Tom Zé compôs para esse conjunto como uma espécie de Satie do sertão: humor dadaísta,
canção popular, majestosa música concreta ao som de agogôs tocados por furadeiras. As
gravadoras não digeriram essa massa musical extremamente atraente. Literalmente: o
diretor comercial de uma delas sentiu-se mal e devolveu o almoço, depois de ouvir a fita.
Esgotados os recursos para manter de pé essa parafernália cara Tom Zé teve que
desmontar a aparelhagem. Foi uma pena, porque seria a melhor continuação para quem fez o
pouco ouvido e excepcional disco que é o "Estudando o samba", de 1976,
comentado na época por Gilberto Vasconcellos, que o contrapôs à banalidade triunfalista
dos sambões de sucesso. "Estudando o samba" é uma leitura quase minimalista
das células rítmicas, entoativas e timbrísticas dos vários tipos de samba, feitas com
a maior inspiração e pique lírico-irônico.
"Nave Maria", oito anos depois de
"Estudando o samba", é um disco que se ouve melhor quando se conhece o
anterior. Porque não é tão concentrado e tão nítido, embora retome muita coisa da
pesquisa sonora do outro. Todo um trabalho sobre a percussão, feito no contraste entre o
peso do baixo e a leveza de harmonias atritadas no cavaquinho, contém uma alusão às
instigantes sonoridades do "Estudando o samba", citado diretamente na
faixa-título.  |