| Paula
Lavigne ficou impressionada. Palavras do marido Caetano Veloso. depois do
show, no camarim. Cacá Diegues, o
cineasta, disse estar em estado de êxtase, Daniela Mercury não parava de tecer elogios
afirmando que a história estava se escrevendo de novo. Capinam, o letrista, transbordava
de entusiasmo. E os meros mortais não sabiam exatamente o que achar. Sabiam apenas que
Tom Zé, a atração de anteontem no Teatro Vila Velha, era diferente, divertido, criativo
e conseguia prender a atenção como nunca tinham visto. Sabiam ainda que se tantas
"estrelas" estavam na platéia - e se a crítica internacional anda toda
derretida para o lado do músico baiano -, as palmas e a sensação de ter gostado do show
deveriam ser elevadas à vigésima potência.
Assistir Tom Zé, em especial no Vila Velha,
é esquecer a concepção tradicional de música e a temporalidade. O ex-tropicalista pode
perfeitamente ficar sem o ex. Parece ainda um daqueles atuantes da contracultura de 68,
cuspindo no palco, lambendo o violão, parando músicas no meio para contar
histórias em discurso (bem) coloquial. Ao mesmo tempo, cabe perfeitamente a Tom Zé
prefixo pós, se lembrarmos das infindáveis discussões sobre o conceito de
pós-modernidade. Tom Zé tem um toque minimalista e algo de multimídia: ele não faz
música apenas cantando e tocando seu violão está longe de ser primoroso, mas também
contando casos, fazendo piada, articulando gestos e caras estranhas. Parece compor com
todo o corpo. "Ele é um ator, dos melhores do mundo", falou Caetano Veloso.
Caetano viu a apresentação de Tom Zé no
Jazzmania, no Rio, em 93, uma das poucas que Tom fez no Brasil depois da sua redescoberta
pelo americano David Byrne. "Mas aquele show não tinha o lado emocional do de
hoje", disse. "O Vila Velha, Tom Zé, o público, tudo me lembrou muita
coisa". De fato, Caetano, na primeira fila, cantava baixinho músicas inteiras, como 2001,
composição de Tom Zé e Rita Lee, a escolhida para o segundo bis. No primeiro bis,
pedido com vontade pelo público, as escolhidas foram Augusta, Angélica e
Consolação, um samba delicioso, e São Paulo meu amor, recheada de
histórias, casos e explicações.
O show teve abertura do grupo Contraria da
Bazófia, que surpreendeu principalmente pelas composições e arrancou aplausos puxados
por Caetano - era incrível, todo mundo observava o ídolo para fazer igual. O grupo
arrancou também elogios de Cacá Diegues, presente no evento: "Gostei muito, são
bastante originais". A originalidade talvez esteja no tratamento das letras, que
abusam de típicas referências da Bahia com um misto de orgulho e ironia. Pelo pelô,
Baiana zen e Rapzófia foram mostras fortes dessa idéia. Que é pra turista
ver chamou a atenção. Diga-se de passagem que turista era o que não faltava na
platéia.
A Confraria ainda estava no palco quando
entrou Tom Zé, com jeito de quem estava em um ensaio descontraído. Juntos, fizeram fliperama,
onde o cantor promove um festival de onomatopéias. Na sequência, já sozinho, cantando
uma música com letra quase todo composta por números, mostrou a que veio: conquistar o
público com suas pilhérias, como ele define. A definição mais exata, desculpem o
termo, talvez seja "sacanagens". Tom Zé é um sacana genial: contou sem corar a
face que passou a infância esvaziando o instestino sobre o Reino Unido. "No fundo do
vaso lá de casa tinha escrito "made in England", disse. "Foi o que me
inspirou para compor Parque industrial". E cantou a música cujo refrão é
a "made in Brasil", a vingança.
"Tom Zé tem uma coisa louca, uma
criatividade surpreeendente, diferente de tudo o que se faz". opinou Capinam, amigo
dos velhos tempos tropicais. Os que não conheciam Tom Zé concordaram. Nunca até então
tinham visto o que Tom Zé, ex-repórter do Jornal da Bahia na mocidade, chama de
jornalismo cantado. Do gênero, cantou incêndio no Teatro Castro Alves e Maria do
Colégio da Bahia, com as devidas explicações do porquê de cada frase.
Chamando ao palco Tuzé de Abreu,
participação especial na flauta e no saxofone, Tom Zé mostrou que ainda é ligado aos
fatos. "A Brgite Bardot está ficando mais recente. "A Brigite Bardot está se
desmanchando e dos nossos sonhos quero pedir divórcio". Divorciar-se do público,
porém, foi um tanto difícil devido às palmas incontroláveis. Ficou a questão,
suscitada por David Byrne ao descobrir Tom Zé: Que país é esse que tem um músico desse
e ninguém nunca ouviu falar? "Bem, eu conheço, há muito tempo, safou-se Caetano
Veloso. "Dessa parte do país eu não faço parte".
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