| Creio
não ser lesa-patriotismo misturar Thomas Mann ao Nordeste. Seja porque o escritor, apesar
de alemão, tem, por parte de sua mãe, Dona Júlia, seu ramo de origem brasileira, seja
porque a associação de idéias se alimenta do imprevisível. O fato é que a ligação me ocorreu através de seu personagen Hans
Castorp, do romance A Montanha Mágica. Este, depois de algum tempo vivendo em
Davos-Platz, estação climática para tuberculosos, apaixona-se por uma nobre russa,
Clawdia Chauchat, também em tratamento. Hans Castorp, depois de muito hesitar, rompe as
formalidades do sanatório, conseguindo aproximar-se da mesa dos russos, na febril
curiosidade de pelo menos ouvir a voz da amada.
É aí que acontece o sertão.
Ouvindo a língua russa, que, comparada ao
alemão, é pobre de consoantes, Hans Castorp admira-se de que um falar daqueles,
sem ossos, segundo sua expressão, possa manter-sede pé.
Então eu fiz a pergunta-espelho: como é que
o nordestino se mantém de pé, naquela penúria, naquela miséria, naquela
subalimentação de 400 anos ? Conclui: devem ser os ritmos, os ritmos musicais
nordestinos.
Os três principais alimentos Nordeste são
designados: farinha de mandioca, carne seca e ritmo.Mas é o ritmo que nos mantém de pé,
verticais, que faz o papel dos ossos.
Quando ficamos insulados e pobres, no sertão
do Brasil, defrontamos um paradoxo: amávamos a herança cultural de nossos avós
portugueses-civilizados pelos árabes na Idade Média, ao contrário do restante da
Europa, educado pelos bárbaros cristãos, godos, visigodos, bretões...
Assim, amando a cultura moçárabe daqueles
avós, mas analfabetizados pela penúria, nosso artifício vital foi falar cultura,
conversar cultura, dançar cultura. Passamos a plantar leituras de concepções
metafísicas em acontecimentos do cotidiano; a fazer pentimento, sobrepondo à paisagen da
caatinga chaves visuais do conhecimento esotérico; a montar eixos de filosofia na sintaxe
de uma língua têxtil, de um falar que compõe cosmogonias (ver isso também nos Gerais
de Guimarães Rosa).
Ah-pois, meu senhor, essa ossatura que nos
mantém de pé, a espinha dorsal que nos sustenta a verticalidade e nos confere uma
postura semelhante à de outros humanos, enfim, as consoantes de nossa língua, ou melhor,
de nossa vida, é o ritmo. Os ritmos musicais do Nordeste.
Ele é o núcleo mais concentrado: a cápsula
da mais densa potenciação cultural do nordestino. Era para nós como uma face do
Sagrado. No Nordeste, o ritmo é Deus desidratado.
E foi Thomas Mann, esse fluminense alemão,que
me pôs no rastro da ossatura rítmica nordestina, que é a obra de Jackson do Pandeiro.
José Miguel Wisnik compôs, comigo, um edifício sobre tais alicerces e trouxemos esses
ritmos ao Paralelo.
No Nordeste o ritmo é Deus desidratado.  |