MOSTRAM A MODERNA MPB NO HEINEKEN TOM ZÉ E OTTO JUNTOS

 

PATRÍCIA VILLALBA

NA HQ DO ZAP!NUMA AVENTURA PELO SERTÃO DO NORDESTE
Tom Zé e Otto, duas gerações que fazem, cada um a seu modo, a moderna MPB, tocam juntos amanhã na Tom Brasil, dentro do Heineken Concerts. A propósito do encontro artístico, o Zap! reuniu os dois para um bate-papo totalmente despretensioso, sem pauta, amarras e direção, na casa de Tom Zé, em Perdizes. Um perigo deixar dois falastrões tão soltinhos. Mas só descobrimos isso depois. Eles conversaram - muito - sobre namoros, professoras, Irará (a cidade de Tom Zé, na Bahia), Belo Jardim (em Pernambuco, a terra de Otto) e um pouco sobre música (que quase passa ilesa pela história). Até a conversa ir parar em enchentes, língua portuguesa, fome e teses sobre a importância dos trens, com espaço para panfletagens políticas, porém suprapartidárias. O resultado das mais de três horas de conversa é a história em quadrinhos que está nas duas próximas páginas, um roteiro livre - e um tanto fantasioso - do que rolou enquanto eles estiveram conversando.
Para fazer o desenho, chamamos dois jovens desenhistas, Fábio Moon e Gabriel Bá, que imprimiram na nossa história o mesmo charme que costumam dar às suas, entre elas o mimoso fanzine 10 Pãezinhos, que circulou em São Paulo no ano passado.
Como o leitor irá desconfiar, Tom Zé nunca encontrou Otto perdido no meio da caatinga nordestina, como aparece na HQ. Nem chegou a dar carona para o ex-mundo livre s/a na velha Brasília que o levava para os shows pelo interior do Estado, nos anos 80, época em que Tom Zé caiu no "ostracismo", foi esquecido pela mídia e, conseqüentemente, por boa parte do público. Naqueles tempos, o parceiro e caronista não era Otto (que nem tinha idade para isso), mas o compositor baiano Vicente Barreto (parceiro de Alceu Valença em músicas famosas co mo Tropicana).
OTTO É ASSIM ... tem um esquema curioso de trabalho. Costuma deixar que suas músicas martelem bastante na cabeça, muito antes dele adentrar algum estúdio para gravá-las. Rolou assim com as faixas de seu primeiro disco, Samba pra Burro, que ficaram dois anos no forno antes de os amigos do compositor o convencerem a transformá-las no disco independente e depois vendido para ser lançado pela Trama.
O mesmo volta a acontecer com as músicas do próximo disco, que deverá se chamar Condom Black. Para comprovar, bastar sentar-se dois minutos ao lado dele, para sair cantarolando uma de suas novas músicas. A que estamos mostrando - não com exclusividade, já que ele a levou praticamente a domínio público, mas numa quase-primeira-mão - é a própria Condom Black, que virou parte da HQ.
Nove meses em São Paulo, nove meses observando a cidade e curtinho o choque que levou ao chegar aqui. Mais ou menos o mesmo do qual Tom Zé foi vítima nos anos 60, só que menos traumático (ele foi atropelado logo nos primeiros dias). Mais ou menos a impressão que todo nordestino tem quando vem tentar a vida em São Paulo, mas talvez com mais poesia, por estarmos falando de (bons) músicos.
O novo CD - Otto já adianta, pouquíssimo tempo depois de Samba pra Burro ter chegado às lojas - refletirá toda a bagunça de culturas, que ele, um louro de olhos azuis, nascido no meio do sertão tem observado nessa cidade. "Vou falar de raças e, para isso, nada como estar aqui", garante.
Pouca coisa - quase nada, para dizer a verdade - foi falada sobre a noite de amanhã, no Heineken. Os dois juraram que até então, há duas semanas, não haviam combinado nenhum número para o show, nem recebido qualquer instrução da direção do festival. Mas Otto não escondia a felicidade que está sentindo por ter a oportunidade de dividir o palco com um de seus mestres.
E Tom Zé - 62 anos, cara de garoto - também deixa claro seu contentamento quando lembramos que esta será a noite mais jovem (ou pop?) do festival. "Há 60 anos que eu estou me misturado com os jovens", diz, com um sorriso maroto na cara. "Tenho uma turnê marcada com o Tortoise e planos de shows com o Stereolab", conta. "Isso sem falar nas apresentações que eu faço, todo começo de ano, nas faculdades paulistas."
Entre as outras qualidades que vê em Tom Zé, Otto aponta a empatia com o público jovem uma das mais admiráveis. "É o que eu quero para mim, também", confessa. "Fico muito feliz quando vejo uma criancinha cantando O Celular de Naná, porque tenho a impressão de que o que eu falo hoje poderá ser aproveitado no futuro."
Tom Zé, acostumado com os pimpolhos, dá a receita: "Para termos um público tão jovem, temos sempre de ter muito cuidado com as letras das músicas e, principalmente, estarmos atentos à ética interior que pulsa dentro de nós, músicos."

 


O Estado de S. Paulo - Todos os direitos reservados