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Zé recebe tratamento de ídolo em Nova York O compositor apresentou-se na noite de anteontem, no Irving Plaza, com o
grupo Tortoise, de Chicago, cantando em português para uma platéia formada por
universitários e críticos de veículos importantes
GUTO BARRA
- Planet Pop
- NOVA YORK - Tom Zé acaba de transformar-se no maior agitador cultural brasileiro que
passou por Nova York nos últimos anos. O cantor foi consagrado pelo público de mais de
mil pessoas que lotou o Irving Plaza, na noite de anteontem, quando se apresentou
acompanhado pelo grupo Tortoise, de Chicago. O brasileiro atraiu centenas de estudantes
universários americanos e críticos de publicações como New York Times, Rolling Stone,
Interview e Village Voice, entre outros, para o show que faz parte da turnê Zé2K, que
vai passar por seis cidades do país.
- Recebido como ídolo cult, Tom Zé não podia estar mais à vontade. Estou muito
emocionado com tudo o que está acontecendo, já que no Brasil eu fui enterrado vivo em
1940 e depois, de novo, em 1970, disse ele, antes do show. O músico, que havia se
apresentado em Boston na noite anterior, passou o dia dando entrevistas para veículos
internacionais. À tarde, ensaiou com a banda, formada por Doug McCombs, John Herndon,
Jeff Parker, John McEntire e Dan Fliegel. Ele disse estar muito satisfeito com a boa
relação profissional com o músico David Byrne.
- Foi Byrne, ex-integrante do grupo Talking Heads, com seu selo fonográfico, o Luaka Bop,
o responsável pelo lançamento dos discos de Tom Zé nos Estados Unidos. Tenho com
ele uma relação igual a que meu avô tinha com seus empregados na fazenda lá na Bahia:
valia o fio do bigode, não existiam contratos, disse Tom Zé.
- Byrne disse também estar satisfeito com a repercussão que o novo disco de Tom Zé, Com
Defeito de Fabricação, vem tendo nos Estados Unidos. Nos últimos tempos percebi
que não existe uma hierarquia na música, como eu aprendi quando era mais novo,
disse. Hoje fico feliz de ver que a música mais criativa do mundo não está sendo
feita necessariamente onde a mídia está. Quando Byrne subiu ao palco para anunciar
a chegada do músico brasileiro, logo depois do show de outro brasileiro, Vinícius
Cantuária, que mora nos Estados Unidos, o público estava ansioso. Meu nome é
David e hoje vocês vão ver a verdadeira Ameaça Fantasma, disse, fazendo trocadilho com
o título do filme de George Lucas que estreou na mesma noite no país. Tom Zé começou a
apresentação com a música Nave Maria, que prendeu a atenção da platéia. Em seguida
veio Curiosidade, que abre o disco Com Defeito de Fabricação, e que vem tendo boa
execução em emissoras de rádio universitárias, como a WUFM. Também entraram no
repertório Menina Amanhã de Manhã, Juventude Javali, Andróide Candango e Feira de
Santana.
- A integração de Tom Zé com os músicos do Tortoise chamou atenção. O grupo, que tem
um bom público formado por fãs de jazz e de rock alternativo do circuito universitário,
ofereceu-se para acompanhar o brasileiro, de quem seus integrantes são admiradores. Com
apenas duas semanas de ensaios, eles prepararam o repertório da turnê, conseguindo uma
sonoridade consistente e ao mesmo tempo fiel ao trabalho do compositor brasileiro. O
destaque fica para o groove do baterista, Dan Fliegel, que já morou dois meses no Brasil
e fala um pouco de português.
- Mas o mais impressionante, na apresentação de Tom Zé em Nova York, é ver o quanto
ele desconcerta o público que não domina ou desconhece o português. Tom Zé comunica-se
com sua expressão corporal. Apesar de estar estudando inglês (Não saio da escola,
lá em São Paulo, diz), ele tem um carregado sotaque e cria os melhores jogos de
palavras e metáforas inspiradas em português. Arrancou risadas ao falar que no Brasil
ele é um escravo. Mas ressalvou: Aqui eu sou o rei. Tom Zé fez
propaganda do disco, em forma de um inacreditável jingle, pôs toda a platéia para
cantar o refrão instrumental de Hey Jude, dos Beatles, de trás para a frente, e terminou
o show com um estonteante solo de esmeril, produzindo uma chuva de faíscas no palco.
- A consagração de Tom Zé em Nova York vai além do sucesso desfrutado por nomes como
Caetano Veloso, Gal Costa ou Marisa Monte. O músico vem atraindo uma curiosidade similar
à de Lee Scratch Perry, mais um caso em que a personalidade do artista
transcende a barreira da língua ou do ritmo. A julgar pela histeria causada pela
distribuição de fitas promocionais, na saída so show, os próximos da fila serão, com
certeza, os Mutantes, de quem o selo Luaka Bop lança um disco, em junho. Usando o
trocadilho de Byrne, a verdadeira força está com o psicodelismo brasileiro.
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