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Tom Zé faz arrastão cultural com humor e idéias
Em seu disco ‘Com Defeito de Fabricação’, que sai no Brasil sete meses depois de editado na Europa e EUA, o compositor lança um manifesto estético do plágio em que ironiza os ‘andróides’ nascidos no Terceiro Mundo

Com Defeito de Fabricação, de Tom Zé, finalmente é lançado no Brasil, pela Trama, sete meses depois de sair na Europa e Estados Unidos. Consagrado pelo público jovem de dois festivais recentes – o Heineken Concerts há três semanas e o Abril pro Rock, semana retrasada –, por seu impressionante magnetismo no palco, o compositor baiano, de 62 anos, ressurge como um fenômeno em potencial para a virada do milênio. “David Byrne disse que eu vou ser um grande vendedor de discos no ano 2000. Tomara”, diz ele, rindo.

O baiano de Irará que começou a carreira nos anos 60 satirizando o então famoso programa de tevê Escada para o Sucesso, com sua Rampa para o Fracasso, foi de certa maneira vitimado pela própria ironia, perambulando desde a fase pós-tropicalista até ser descoberto por Byrne no início da década, e agora a reverte a seu favor. Nem bem o novo álbum tinha saído e vários artistas da geração anos 90 se propuseram a remixar algumas de suas faixas. Duas delas aparecem como bônus na edição nacional.

O resultado do trabalho de Amon Tobin, Sean Lennon, The High Llamas, Sasha Frere-Jones e John McEntire, do grupo Tortoise, com o qual Tom vai excursionar pelos Estados Unidos em maio, estão no EP Postmodern Platos, que não tem previsão de lançamento no Brasil.

Andróide irônico

A ironia habitual de Tom Zé aprimora-se no tema do disco, todo composto de plágios assumidos e letras que formam uma “reportagem sobre o trabalho dos andróides do Terceiro Mundo, que somos, e nossa relação com o Primeiro Mundo”.

Curiosamente, por esse disco ele recebeu no mês passado o Grande Prêmio da Crítica da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), o primeiro do gênero em sua carreira. Além da qualidade do trabalho, a escolha teve peso de protesto pelo fato de o melhor disco de música brasileira do ano passado não ter sido lançado até então no Brasil.

O prêmio ter sido dado pela negação do Brasil em relação a ele corrobora uma brincadeira que faz com a imprensa. “Conheço uns quatro jornalistas que me viram no palco. Depois desse prêmio, tenho uma nova campanha que é ser ouvido pela imprensa.” Seus esforços irônicos remetem à lembrança de que ele foi fazer música porque fracassou como repórter, pura verdade.

Idéias, no entanto, não lhe faltam. No manifesto Estética do Plágio, estampado no encarte do CD, Tom Zé decreta o fim do compositor, mas o disco é um grande exercício de inteligência. “Há algumas ramificações artísticas que estão em grande crise há décadas. A canção popular tem um problema de linguagem, que é estar sempre repetindo os avós. E essa repetição é permitida pela própria crítica, sem uma cobrança maior do que já houve.”

Combinações esgotadas

As combinações da escala de sete notas há muito estão esgotadas. Mas o hábito do plágio parece mais antigo. Tom Zé lembra que a palavra autor vem de autoridade. Nas poderosas Amsterdã e Veneza do século 18 (“se não me engano”), o bom minueto era o que era feito mais parecido com o padrão estabelecido, que tinha autoridade. “O autor melhor era aquele que melhor imitava a forma tradicional. Isso é claro que é diferente da antropofagia do tropicalismo.”

Quando o tropicalismo exercia essa prática, no entanto, ele estava na escola estudando música erudita. “Nunca conheci o rock internacional, nem Oswald de Andrade direito. Ouvi falar de antropofagia durante muito tempo, mas agora olhando para mim mesmo digo que isso nunca esteve em mim.”

E que música ele faz então? “Tenho feito uma música só a vida toda. Faço todo dia uma tentativa de fazer essa música. Tinha 10 anos quando descia a ladeira de Irará, que ia para a fonte de água, e ouvia o canto das lavadeiras e dos carregadores, gritado, fanhoso: ‘Arriba a saia peixão, todo mundo arribou você não.’ É essa música que tento repetir. Como erro, tenho de fazer de novo.”

Diferenciar o plágio assumido como o de seu disco do embuste do plágio mercadológico está no cerne da questão. “Estou justamente propondo uma discussão sobre isso, de um plágio muito mais problemático, que é aquele que inane nossa capacidade de pensar. Quero denunciar que se a gente ficar usando esse plágio mercadológico, o cérebro vai começar a diminuir.”

Tom Zé diz que não faz música para a elite (“os refrões que faço consigo fazer o pessoal da Europa e da favela cantar”) e não se surpreende com a euforia do público jovem em seus shows. “Pois é, sempre foi assim. No meu ostracismo foram eles que me sustentaram. Canto em três festas de calouros por ano. E agora dei para cantar em festa de escolas secundárias, como a Domus e a Kuarup. Vou cantar por qualquer cachê porque faço questão de transmitir minhas idéias para essas pessoas, que fazem parte da minha obra no mundo. Faz parte da minha ética que a juventude tenha alguma coisa interessante para ouvir.”

País sem crise

Seu disco é engajado como suas idéias em geral. Agindo assim, ele sente um certo isolamento dentro da música brasileira hoje. “E não só por ser político, mas por ser inventivo.”

Ele discorda, no entanto, que a crise do País deveria ser refletida com mais intensidade nas artes. Simplesmente porque ele não vê o Brasil com os mesmos olhos do poder. “É mentira que o Brasil está pobre, que o dólar está em alta, o dólar é moeda é falsa. É mentira que o Nordeste é seco, a menos de 50 metros debaixo da terra há lençóis freáticos imensos. Se você acordar às 7h da manhã e ligar a televisão esse Brasil não existe. O Brasil das 7h da manhã é o daquele povo inventando um jeito criativo de solucionar os problemas, é o Brasil dos globos rurais. Às 11h acordam os que trabalham com dinheiro, são os financistas. Aí desperta o Brasil falido, que serve a eles, que dá lucro a eles.”

Lauro Lisboa Garcia




Jornal da Tarde