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Tom Zé e Otto reinam na noite mais variada do Heineken
O baiano e o pernambucano fizeram os shows mais marcantes no encerramento do festival no Tom Brasil, que reuniu brasileiros de diversas tendências e pouco populares


A etapa do Heineken Concerts no Tom Brasil terminou ontem de madrugada com o projeto eletrônico M4J dividindo o palco com a Banda de Pífanos de Caruaru numa versão tecnoforró de Isso Aqui tá Bom Demais, de Dominguinhos. A conjunção dos extremos rústico e tecnológico sintetizou a “noite da Trama”, que reuniu contratados dessa gravadora e deu uma boa panorâmica do pop brasileiro atual.

“O futuro tem ódio do pai, mas vai atrás do avô”, profetizou o mestre-de-cerimônias Tom Zé, na abertura, ao anunciar as atrações. Ele próprio uma síntese do que viria a seguir, chegou confundindo para esclarecer. Foi o melhor representante de uma reunião de ETs que a televisão e o rádio brasileiros continuam ignorando.

No exercício da inteligência, a peculiaridade musical de Tom Zé reverbera no jogo cênico de gestos espasmódicos, olhos esbugalhados, oralidade sincopada, trajes anticonvencionais, como um parangolé, camisa de meio colarinho e um blaser com lapela nas costas, que acaba retalhado numa espécie de strip-tease superficial e tenso. Um misto de videoclipe e cartoon vivo.

Invenção e humor

Tom Zé vive para inventar, o que faz a diferença entre ele e seus embolorados contemporâneos tropicalistas. Sua figura e a atuação estroboscópica são indissociáveis da burilação de idéias nas letras e achados sonoros igualmente provocativos. Do disco Todos os Olhos, de 1973, ele foi buscar Augusta, Angélica e Consolação, uma relação de humor entre as ruas de São Paulo: “Augusta, entre você e a Angélica eu encontrei a Consolação”.

De seu excelente novo álbum, Com Defeito de Fabricação (que a Trama acaba de lançar no Brasil), escolheu Curiosidade (“quem é que está botando dinamite na cabeça do século?”), Politicar (“vá tomar no verbo seu filho da letra”), e Juventude Javali (“se na juventude já vem tudo javali, o afoito desse coito é coisa que já la vi”), intrigando a platéia de maioria recém-saída da adolescência. “Animal”, alguém definiu na lata.

Modernidade retrô

Entre as melhores performances da noite, a de Otto chegou perto da de Tom Zé. Vai daí que se descobre a relação que a música do pernambucano atômico tem com a do baiano intergaláctico, o qual, não por acaso, reverenciou. Com uma banda formada por baterista, DJ, percussionista e tecladista, Otto aprimorou cinco das mais vigorosas composições de seu disco de estréia, Samba pra Burro.

Low (o melhor resultado) remeteu ao enunciado de Tom Zé – modernidade com solução num velho teclado Hammond (ou similiar). Bob ficou mais cool, TV a Cabo ganhou reforço de guitarra, Ciranda de Maluco, mais peso no baixo e Café Preto, citação de Tim Maia em Gostava Tanto de Você.

Poucos entenderam o que Otto quis dizer com: “Ou esse país muda agora, ou vai mudar daqui a 60 anos, comigo”, mas a maioria deixou evidente que foi ao Tom Brasil para vê-lo. Ao mesmo tempo mostrou-se predisposta a prestar atenção nos demais convidados.

Para surpresa de quem detecta uma tendência à segmentação na geração das últimas décadas, os veteranos da Banda de Pífanos de Caruaru foram recebidos com euforia e acompanhados em coro em temas como o clássico de Luiz Gonzaga Asa Branca e Juazeiro e Petrolina.

Baixada a poeira do forró, o Duofel teria dificuldade de manter a concentração, mas não teve. Fernando Melo e Luiz Bueno extraíram, como de hábito, de dois violões uma infinidade de efeitos, expandindo suas cordas para regiões pouco usuais. Homenagearam Tom Zé (numa versão de Tropicália, de Caetano Veloso, e na estética da quebradeira vocal em Surfando no Trem), Egberto Gismonti e o grupo mineiro Uakti.

Com uma banda de sete integrantes, a parte do percussionista Marcos Suzano foi meio decepcionante. Embora cheio de suingue, ele só se destacou na última das três músicas. Das demais, uma oscilou entre o pastiche caribenho e o jazz-funk impregnado de metais, a outra ficou no bom mix de drum’n’bass, samba-funk e outras fusões de resultado inclassificável.

Funk sem brilho

Cláudio Zoli igualmente reuniu bons instrumentistas e arranjos entediantes. Nulo em empatia, ficou entre músicas do disco novo, Férias, e de anos anteriores: À Francesa, Sem Limite e Noite do Prazer, esta de seus tempos de Brylho. Hoje parece irremediavelmente perdido nos clichês do funk.

Com menos da metade do público que ficou até o show de Otto, o M4J encheu o ambiente com sua parafernália eletrônica. A competência do DJ Mau Mau e seus três parceiros e a boa qualidade técnica não eliminaram um certo enfado pela previsibilidade de seus beats programados depois do segundo set. Não estávamos diante de um Fatboy Slim ou de um Justin Robertson.

O M4J parece não ter diferencial de tantos outros projetos de tecno. Mas é bom. Curiosamente, a fusão do tecno com a quadrilha de Caruaru evidenciou que a repetição não é característica de um só gênero.

Lauro Lisboa Garcia





Jornal da Tarde