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Disco
reflete engajamento do compositor Até o público brasileiro mais esclarecido acostumou-se a essa prática estúpida do mercado nacional, conformando-se com a conclusão de que o que é bom faz mais sucesso no exterior. Tom Zé não se gaba desse tipo de reação. Mas resta dúvida sobre o motivo pelo qual continua à margem da mídia no próprio país, com tantos elementos sonoros, verbais e cênicos para demolir as platéias mais duras. Certamente até a mauricéia desmiolada se entusiasmaria com faixas como o eletroxaxado Defeito 14: Xiquexique, de Tom e José Miguel Wisnik, produtor desta e de outra parceria, Defeito 4: Emerê. Outra que impacta pelo arrojo verbal é o samba Defeito 3: Politicar, que diz: Meta sua grandeza/ No banco da esquina/ Vá tomar no verbo/ Seu filho da letra. Faça suas orações uma vez por dia/ Depois mande a consciência junto com os lençóis para a lavanderia, diz Defeito 1: Gene. Uma ONU pra manter a paz/ E a turma lá, que turma,/ Fabrica armas mortais, acusa Defeito 8: ONU: Vendem-se Armas. O rico hoje, coitado/ É preso, todo cercado/ Arrodeado de grades/ Porteiro, guarda e alarme, reporta Defeito 11: Tangolomango. Defeito 10: Cedotardar parece clássico de Noel Rosa, talvez o que Tom Zé intui que seja eco dos trovadores provençais. Tom Zé inventou um protótipo de arranjo e apostou nele. A idéia surgiu de uma brincadeira com frases repetidas de seu violão, produzindo som percussivo e interagindo com batidas de bateria. Procedeu da mesma maneira com o cavaquinho, instrumento pelo qual nutre paixão desde que ouviu pelas mãos de Waldir Azevedo e Jacob do Bandolim. Esse protótipo varia com inclusão de ruídos, que ele coleciona em fitas e reprocessa como um sampler artesanal e intervenções eletrônicas. Essas combinações estão a serviço de temas rítmicos, sem linha melódica, e as letras em sintonia com estes enquanto burilam idéias sem soar pedantes. Sua música é elaborada, mas não mecânica. Os plágios intencionais vêm, na maioria, de fontes distantes do senso comum de mercadoria: Santo Agostinho, Alfred Nobel, Tchaikovsky, Rimsky Korsakov, Falubert, música pós-barroca e renascentista italiana, Jorge Luís Borges. Mas tem também Caetano Veloso, Gilberto Gil, Martinho da Vila e pagode, Oswaldinho e sanfoneiros do Nordeste, baiões da roça, poesia concreta, música caipira. Esse material de categorias aparentemente incompatíveis é reciclado com estilo de soluções inclassificáveis. E ajusta-se na preservação do bem-pensar, algo tão em extinção quanto o próprio engajamento do compositor. É de uma sinceridade que comove. Seu disco cresce em importância por ser essencial contra excessos do mercado da MPB. Reflete a honestidade quase quixotesca do antititã que prefere o conforto dos livros ao do último modelo de carro. L.L.G. |
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Jornal da Tarde |