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Disco reflete engajamento do compositor


Tom Zé inventou uma transfórmula única que tem deixado perplexo o mundo da música internacional. Isso ocorreu com The Hips of Tradition, de 1993, e repete-se agora. Importantes publicações, como Rolling Stone, The New York Times, Billboard, Entertainment Weekly, Time Out e Raygun, dedicaram elogios superlativos a Com Defeito de Fabricação.

Até o público brasileiro mais esclarecido acostumou-se a essa prática estúpida do mercado nacional, conformando-se com a conclusão de que o que é bom faz mais sucesso no exterior. Tom Zé não se gaba desse tipo de reação. Mas resta dúvida sobre o motivo pelo qual continua à margem da mídia no próprio país, com tantos elementos sonoros, verbais e cênicos para demolir as platéias mais duras.

Certamente até a mauricéia desmiolada se entusiasmaria com faixas como o eletroxaxado Defeito 14: Xiquexique, de Tom e José Miguel Wisnik, produtor desta e de outra parceria, Defeito 4: Emerê. Outra que impacta pelo arrojo verbal é o samba Defeito 3: Politicar, que diz: “Meta sua grandeza/ No banco da esquina/ Vá tomar no verbo/ Seu filho da letra.” “Faça suas orações uma vez por dia/ Depois mande a consciência junto com os lençóis para a lavanderia”, diz Defeito 1: Gene.

“Uma ONU pra manter a paz/ E a turma lá, que turma,/ Fabrica armas mortais”, acusa Defeito 8: ONU: Vendem-se Armas. “O rico hoje, coitado/ É preso, todo cercado/ Arrodeado de grades/ Porteiro, guarda e alarme”, reporta Defeito 11: Tangolomango. Defeito 10: Cedotardar parece clássico de Noel Rosa, talvez o que Tom Zé intui que seja eco dos trovadores provençais.

Tom Zé inventou um protótipo de arranjo e apostou nele. A idéia surgiu de uma brincadeira com frases repetidas de seu violão, produzindo som percussivo e interagindo com batidas de bateria. Procedeu da mesma maneira com o cavaquinho, instrumento pelo qual nutre paixão desde que ouviu pelas mãos de Waldir Azevedo e Jacob do Bandolim.

Esse protótipo varia com inclusão de ruídos, que ele coleciona em fitas e reprocessa como um “sampler artesanal” e intervenções eletrônicas. Essas combinações estão a serviço de temas rítmicos, sem linha melódica, e as letras em sintonia com estes enquanto burilam idéias sem soar pedantes. Sua música é elaborada, mas não mecânica.

Os plágios intencionais vêm, na maioria, de fontes distantes do senso comum de mercadoria: Santo Agostinho, Alfred Nobel, Tchaikovsky, Rimsky Korsakov, Falubert, música pós-barroca e renascentista italiana, Jorge Luís Borges. Mas tem também Caetano Veloso, Gilberto Gil, Martinho da Vila e pagode, Oswaldinho e sanfoneiros do Nordeste, baiões da roça, poesia concreta, música caipira.

Esse material de categorias aparentemente incompatíveis é reciclado com estilo de soluções inclassificáveis. E ajusta-se na preservação do bem-pensar, algo tão em extinção quanto o próprio engajamento do compositor. É de uma sinceridade que comove. Seu disco cresce em importância por ser essencial contra excessos do mercado da MPB. Reflete a honestidade quase quixotesca do antititã que prefere o conforto dos livros ao do último modelo de carro.

L.L.G.

Jornal da Tarde