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Em uma performance completamente
rara e memorável, em Nova York, Tom Zé, um brasileiro de 62 anos, pequeno, telúrico,
gritava certas canções, como um engajado numa conspiração de botequim. Outras vezes
sussurava-as como uma vovó carinhosa ou aplicava duros golpes no canto suave do [estilo
do] samba romântico dos anos 30. |
Não se mostrava um bailarino gracioso: agachava-se, em
movimentos de marionete acionada pelos cotovelos. E, para obter efeitos rítmicos,
gargarejava água ao microfone.Para a platéia, que fora estimulada a imaginar o que
haveria gerado um homem daqueles; as coisas clarearam um pouco as coisas quando, ao
começar o show no Irving Plaza, na quarta-feira à noite, [Mr. Zé] cantou seu próprio
nascimento.
A canção, "Nave Maria", conta em detalhes como ele emergiu da barriga da mãe;
era como se [a música] fizesse parte de um diário de navegação, tendo como epílogo um
aviso de perigo: Gritei quando vi: já estava respirando, cantou ele.
Desde que começou a compor com os outros membros do movimento tropicalista brasileiro,
há 35 anos, Mr. Zé nunca foi popular nem famoso em seu país. Neste, a condição de
oprimido ou de alternativo não chama muita atenção; gerações e classes
[socio]econômicas não entram em conflito por causa de música. Mas nos Estados Unidos,
depois de um lento trabalho elaborado ao longo dos anos 90 pelo selo de David Byrne, o
Luaka Bop, ele foi compreendido: não é difícil colocar Mr. Zé em nosso museu de
gênios "não cooptados", numa vitrine vizinha à do Captain Beefheart e de Sun
Ra.
Mr. Zé é engraçado, e compõe canções com arte, não é um mero músico popular. Mas
seus ritmos são genuínos e seu senso formal de composição é soberbo; é um equívoco
considerá-lo simplesmente um maluco superficial. Ainda que tal suposição possa ter
ocorrido por aqui. Uma atração a mais é que Mr. Zé excursiona pelo país acompanhado
pela Tortoise, a popular banda de rock underground.
Essa conexão ocorreu principalmente porque os componentes da Tortoise têm interesse por
todo o tipo de música, não porque seus lentos instrumentais tenham muito que ver com a
estética de Mr. Zé. Ao aparecerem juntos no palco, a Tortoise foi na trilha de Mr. Zé,
sem reciprocidade; à exceção de alguns novos arranjos para inclusão de vibrafone e
teclados, a banda ateve-se à sonoridade dos discos de Mr. Zé.
As canções de Mr. Zé são construídas com breves linhas rítmicas de violão ou
cavaquinho, e resultam num funk suave, enraizado no forró do Nordeste brasileiro e no
samba. Algumas são peças novas, que exigem uma divertida coordenação da banda, com
pequeninas contribuições de uma nota, tocada por cada um dos músicos, uma após outra.
Suas letras lançam mão de experiências com fonemas, bem-achados acidentes de linguagem,
lições de história moderna e de filosofia. Uma delas faz propaganda do disco e
inspira-se nas técnicas autopromocionais de Thomas Edison.
Mas Mr. Zé não é um falador; é um comunicador ardoroso. Em certo momento, estimula a
multidão a cantar uma melodia irreconhecível. Depois, revela tratar-se de uma inversão
harmônica do famoso refrão melódico dos Beatles para Hey, Jude. "Quero fazer uma
parceria com vocês", sorri ele. "Proponho que plagiemos uma canção muito
conhecida."
Mr. Zé tem um maravilhoso senso visual, que se acentua na segunda metade do show: numa
canção; usa um paletó "costurado" com tiras de velcro que vai rasgando aos
poucos, enquanto a música se torna mais agitada. Perto do final, ele e o executante do
cavaquinho, Jarbas Mariz, vestem roupas e capacetes de plástico, martelando a cabeça um
do outro, ritmadamente, tic-toc. Por fim, acionam dois esmeris - aquela máquina que dá o
acabamento na confecção de chaves - e os usam para tocar agogôs, numa espécie de ritmo
carnavalesco de serralheria, enquanto voam fagulhas na escuridão.
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