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SÃO PAULO, Brasil Tom Zé havia se mudado há pouco para o novo apartamento, e se
desculpava com o visitante pela desordem. O quarto que usa como estúdio de gravação
doméstico era um amontoado de cordas, violões, microfones e velho equipamento de
gravação. Nos corredores, caixas esperavam ser abertas; as paredes, nuas. Mas os livros
já estavam nas prateleiras, em fileiras arrumadas: ficção, história e filosofia, de
autores brasileiros e portugueses, ao lado de Faulkner, e de histórias policiais de Nero
Wolfe, escritas por Rex Stout. "Claro que os livros foram desembalados
primeiro", disse Neusa, esposa e eventual intérprete de Mr. Zé. |
Mesmo no Brasil, onde os principais compositores
habitualmente citam conceitos de antropologia e reverenciam poetas vanguardistas, Mr. Zé,
62 afigura-se um homem apaixonado por idéias. A conversa ziguezagueava de sua infância
em Irará, uma cidade pobre do sertão da Bahia, no nordeste do Brasil, à sua formação
em composição erudita contemporânea na Escola de Música da Universidade daquele
Estado, à sua turnê com a banda Tortoise (que estará no Irving Plaza, em Manhattan, na
quarta-feira), ao Concílio de Trento, em meados do século 16. Ao mesmo tempo que
purificava a doutrina católica, o concílio extirpava elementos musicais considerados
lascivos ou impuros; seu objetivo era definir, para toda a Europa, o exercício da
composição correta. "Ele [o concílio] foi mais importante que os mais importantes
compositores da música ocidental", argumentou Mr. Zé.
O Concílio de Trento não teria aprovado as canções de
Mr. Zé: breves e lapidares dispositivos sonoros.
Extraindo-os aleatoriamente do grande acervo de ritmos e
melodias brasileiros e também de sua própria tendência para a angulosidade e a
dissonância, Mr. Zé reúne padrões de ritmo e de contraponto meticulosos porém
extravagantes: rígidas teias de violões, percussão e voz. Seus versos vão da ternura
à sátira sarcástica, a jogos verbais; uma canção, "Sem a Letra
A", considera o que o mundo perderia sem essa letra inclusive [o]
"amor". As canções são irônicas, pungentes e inventivas, e raramente duram
mais de três minutos, porque Mr. Zé está decidido a não entediar ninguém,
especialmente a si mesmo.
TOM ZÉ TEM SUA PRÓPRIA MANEIRA DE
ADAPTAR TEIAS DE CANÇÕES INTRICADAMENTE ELABORADAS A SUAVES RITMOS BRASILEIROS
"Eu detesto o tédio", disse ele. "Ser
compositor é ter coragem. Não compreendo como um compositor ousa ganhar a vida com
música simplesmente repetindo coisas já feitas."
Não é uma atitude comercial, como Mr. Zé poderia
testemunhar. No Brazil, Mr. Zé, cujo nome de batismo é Antonio José Santana Martins,
teve seu momento de glória popular nos anos 60, quando ele e um grupo seleto de colegas
músicos do Estado da Bahia que incluía Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e
a banda "Os Mutantes" transformaram a música popular brasileira com um
movimento que chamaram de Tropicália.
TECENDO UM CONTRAPONTO DE IDÉIAS MUSICAIS
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AS
CANÇÕES DE TOM ZÉ RARAMENTE DURAM MAIS DE TRÊS MINUTOS. ELE NÃO QUER ENTEDIAR NINGUÉM,
ESPECIALMENTE A SI MESMO. |
Misturando tradições brasileiras e rock importado, os
tropicalistas celebraram o choque da tradição com a modernidade. A contribuição de Mr.
Zé para a Tropicália, disco-manifesto do movimento, de 1968, foi "Parque
Industrial", que agrupa versos do hino nacional brasileiro, jingles publicitários e,
em inglês, o refrão "made in Brazil". No mesmo ano, ele ganhou um concurso na
televisão com a sardônica "São São Paulo, Meu Amor".
Mas sua voz seca e sua música inteligente, brincalhona e
anti-sentimental não eram apreciadas por um público de massa. Nem o era sua contínua
ânsia de experimentação. No final dos anos 70 ele estava usando eletrodomésticos nos
arranjos, tocando um instrumento que acionava alguns liquidificadores e aspiradores de
pó, por meio de um teclado composto de campainhas. Seu público definhou; o contrato com
a gravadora terminou em 1979. Mr. Zé tocava para o público universitário e vivia com
dificuldade. No final da década, trabalhou numa agência de publicidade. "Naquela
época, de vez em quando podíamos ir a restaurantes" disse ele.
Em 1989, David Byrne, da Talking Heads, ao
"pesquisar" uma loja de discos do Rio de Janeiro, apanhou um exemplar de
"Estudando o Samba", de Mr. Zé (1976). Encantado e sob o impacto da música,
Mr. Byrne localizou Mr. Zé. O selo de Mr. Byrne, o Luaka Bop, lançou uma compilação,
"The Best of Tom Zé", em 1990, à qual se seguiram discos inéditos, em 1992 e
1998. O Luaka Bop lançou agora "Postmodern Platos (Platões Pós-Modernos) um
compacto duplo de remixes de canções de Mr. Zé, compostos por John McEntire, da
Tortoise, banda instrumental de Chicago, pela banda neopsicodélica High Lamas, por Sean
Lennon, pelo disck jockey Amon Tobin e por outros fãs de Tom Zé.
O aplauso do exterior colaborou para Mr. Zé encontrasse
também um novo público no Brasil.
Nesta semana, Mr. Zé começa uma turnê nos Estados
Unidos, acompanhado pela Tortoise, e também pelo violonista de sua banda brasileira. Em
alguns aspectos, é um encontro incongruente; as canções de Mr. Zé são rápidas e
intricadas, enquanto a música da Tortoise tem um andamento vagaroso. Mas Mr. Zé é fã
da Tortoise. "Eles não fazem canções nas quais a parte A segue a parte B",
diz. "Vão divagando, como se flutuassem suavemente nas nuvens. É como uma pesquisa
musical, dotada de uma matemática que dá uma reviravolta na álgebra."
Enquanto isso, a Tortoise estuda as circunvoluções das
canções de Mr. Zé.
"A maioria das canções acompanha bem o padrão, no
sentido verso-coro-verso", diz Mr. McEntire. "Mas há um mundo de pequenas
coisas, pequenas torções e reviravoltas rítmicas que fazem a gente dizer: Como
é que isso foi feito? "
Mr. Zé descreve seu método de composição como
"constrangedoramente simples". Ele tem gravações de ritmos de samba e baião
em três tempos diferentes: acima deles, trabalha padrões [rítmicos] na quinta e na
sexta corda do violão, numa imitação de cavaquinho, violão em miniatura que acompanha
o samba. "Como um cirurgião abrindo uma barriga, é assim que eu convivo com o
samba", diz ele. "Tenho essa intimidade, essa convivência com ele. Tento
descobrir uma frase que se repete, um ostinado, que degrada ou degenera o ritmo do samba.
Tento criar com as frases do cavaquinho um contraponto muito uniforme, e quando esse
contraponto me satisfaz, apresenta uma peculiaridade permite-me quase escapar da
tonalidade.
Os cavaquinhos são como duas paredes encimadas por um
teto. E esse teto, para permitir que a estrutura se mantenha de pé, deve ter elementos
interessantes e também incluir um assunto sobre o qual se fale."
Enquanto conversava, Mr. Zé colocou de pé o dicionário
de Português de seu visitante, paralelo a uma caixa de adoçante de baixa caloria; ambos
representavam os cavaquinhos. Então, equilibrou uma faca sobre ambos: esta era a melodia.
"A melodia é um berço que faz com que as palavras ganhem mais significado",
disse ele.
Mais tarde, Mr. Zé descreveu sua música como um difundido
equívoco. "Na verdade, sou compositor de uma só peça", afirmou. "Tento
repetir uma canção que ouvi quando criança, a canção das lavadeiras de Irará. Foi a
primeira música que ouvi. Mas todas as vezes que tento compô-la cometo erros, portanto
continuo tentando. E vou descobrindo alguma coisa que movimenta o núcleo atômico de meu
desejo de fazer música."
Mr. Zé deu essa explicação com um toque de ironia, mas
como em muitas de suas canções, havia sinceridade por trás do humor inteligente.
"Dizem que a obra de Faulkner trata a perda do mundo edênico", disse ele.
"Perdi um mundo como o dele, o mundo de meus avós sertanejos, um mundo de justiça e
de ética. Tento revivê-lo o tempo todo."
Mr. Zé não costuma ouvir a música de outras pessoas.
"Se ler o jornal, ouvir rádio ou ver televisão, vocêenlouquece", afirmou.
"Porque todos os dias alguma coisa acontece na música do mundo, alguma coisa chama
sua atenção. E se você se mantiver no seu pequeno aposento, com seu pequeno problema,
às vezes isso é mais importante, porque assim você pode contribuir para a música do
mundo."
"A paisagem da criação é um lugar no qual se está
profundamente solitário", disse Mr. Zé. "Uma pessoa que cria tem de jogar fora
tudo que sabe e tudo que viu. Portanto, tenho de jogar fora serialismo, tonalidade, bossa
nova-etc., o Tropicalismo, sambas, rock, blues e música folclórica. Tenho de atingir
aquele lugar solitário onde, se eu conseguir encontrar uma sílaba, atinjo o Gênese de
novo. Isso é solidão, mas não posso chamá-la de dor. Ao contrário, eu a vejo com
muita alegria.
Tenho me habituado a penetrar nesse aposento onde mora o
vazio," continuou. "De tempos em tempos o aposento se enche de água, e fico
como um peixe que atinge a margem. Sou um animal que decidiu não desenvolver as asas, e
sim as pernas. E quando o aposento se enche de fogo, não há problema, porque me
transformo em salamandra. E poderia pensar em apocalipse, como na Bíblia, ou lembrar-me
das danças folclóricas de minha juventude, quando via aquelas chamas a distância. Mas
elas aqueciam meu coração, também."  |