FOLHA DE SÃO PAULO

Tom Zé mastiga vaia contra João Gilberto e cospe música


ARMANDO ANTENORE

da Reportagem Local
Ana Ottoni/Folha Imagem
O cantor Tom Zé, que se diz "Recém-nascido": foi "enterrado vivo" na divisão do espólio tropicalista e amargou ostracismo de quase duas décadas; "ressuscitou"no começo dos anos 90, quando os americanos o descobriram

Cantor baiano prepara o single "Vaia de Bêbado Nâo Vale", em que comenta o show de inauguração do Credicard Hall; disco terá manifesto antitropicalista



ARMANDO ANTENORE
da Reportagem Local

Soa como provocação, mas Tom Zé diz que se trata apenas de "uma reportagem não-opinativa". O cantor baiano Antônio José Santana Martins, 63 anos completados na semana passada, acaba de gravar "Vaia de Bêbado Não Vale", música que tem por inspiração o recente concerto de João Gilberto e Caetano Veloso no Credicard Hall, de São Paulo.
O show do último dia 29, difícil esquecer, começou festivo e terminou em anticlímax. Nasceu para coroar a inauguração da "maior casa de espetáculos da América Latina". Tropeçou, porém, no perfeccionismo de João. O violonista, um dos pais da bossa nova, rejeitou impiedosamente a acústica do lugar. Reclamou do eco que assaltava o palco e, em troca, ganhou apupos de parte dos 4.500 vips que assistiam à apresentação.
Tom Zé estava lá -recebera um convite de Caetano. "Como testemunha ocular dos fatos", resolveu contar o que viu, à moda "de um jornalista", mas "um jornalista que canta".
A "música-reportagem", com três minutos e meio de duração, chegará às lojas até o fim do mês. A gravadora Trama vai lançá-la, em três versões, num single que levará o mesmo nome da canção. E a canção -embora o sarcasmo do autor insista em qualificá-la de "apartidária e objetiva, como os melhores jornais do ramo"- nega-se à imparcialidade.
Reproduz, sim, frases que João Gilberto atirou contra o público indócil ("tem que fazer direito, tem que fazer Brasil"; "vaia de bêbado não vale"; "sou argentino desde pequenininho"). Mas a transcrição serve menos à tarefa documental e mais à defesa do ídolo atacado.
Não bastasse, o encarte que deverá acompanhar o disco contém uma espécie de manifesto antitropicalista. No texto, batizado de "Imprensa Cantada", Tom Zé desfia elogios à bossa nova e estranha a influência que o tropicalismo exerce ainda hoje sobre a cultura do país. Questiona, em resumo, o explosivo movimento de que ele próprio participou, com Caetano e Gilberto Gil, três décadas atrás.
A historiografia musical brasileira costuma apontar o ano de 1958 como o marco zero da bossa nova. A expressão se refere a um grupo de jovens que, no Rio de Janeiro, alterou a maneira tradicional de tocar samba. Admiradores do jazz, abraçaram uma batida particular de violão e o canto mais intimista, mais contido.
Entre os músicos que promoveram a renovação, João Gilberto e Tom Jobim logo ganharam fama internacional. Também desempenharam papel importante no período Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Nara Leão e o poeta Vinicius de Moraes.
A fase de maior repercussão da bossa nova se encerrou em 1963. Quatro anos depois, eclodiu o tropicalismo, "um movimento que veio para acabar com todos os outros movimentos", como pregavam seus artífices.
Durou 14 meses -de outubro de 1967 a dezembro de 1968. Anárquico, promoveu a fusão da MPB com o rock, o pop internacional e os ritmos latinos.
Rejeitou o nacionalismo da esquerda e das canções de protesto, aderiu à guitarra elétrica, propôs mudanças comportamentais e procurou cantar os paradoxos do país: a convivência entre o arcaico e o moderno, entre o erudito e a cultura de massas.
Mesmo durando pouco, norteou artistas que só iriam aparecer nas décadas posteriores, como Novos Baianos, Alceu Valença, Chico Science e Chico César.
Os dois principais líderes tropicalistas, Gil e Caetano, sempre manifestaram reverência às revoluções trazidas pelo violão e pela voz de João. Começaram, por sinal, tocando bossa nova.
Tom Zé, não. Nunca se apresentou como bossa-novista. Desde antes do tropicalismo, fazia canções que não se enquadravam em nenhum dos modelos predominantes na época -caso de "Maria do Colégio da Bahia" e "São Benedito", ambas de 1965.
Surpreende, portanto, que agora decida lançar um manifesto pró-bossa nova (manifesto, aliás, é palavra que Tom Zé evita; não a usa nem no encarte nem na canção do single).
Outra surpresa: o CD aparece justamente quando a imprensa e os críticos musicais dos EUA e da Inglaterra estão descobrindo o tropicalismo. E quando Caetano atinge vendagens recordes com a canção "Sozinho", de Peninha, valendo-se de artifício que adotara durante o período tropicalista -reler uma obra identificada originalmente como brega.
Em "Vaia de Bêbado Não Vale" e no manifesto, Tom Zé alardeia o que estudiosos do assunto vêm falando há tempos: que a bossa nova "pariu o Brasil" moderno, que "criou realmente um gênero", e que o tropicalismo não teve papel tão nobre, tão "aprofundado", uma vez que se apoiou principalmente na intervenção crítica e na assimilação de produtos artísticos já existentes.
Por que, então, reacender o debate? Por que retomar o tema um tanto "retrô" se o próprio Tom Zé é apontado dentro e fora do país como um "sujeito de vanguarda"?
"Na roça onde nasci, lá no interior da Bahia", recorda o cantor, "costumavam repetir um provérbio: "Pais trabalhadores, filhos burgueses, netos degenerados"."
"Então veja: os pais trabalhadores são João Gilberto e Tom Jobim. Os filhos burgueses somos nós, tropicalistas, que nascemos enriquecidos pela bossa nova. E o neto degenerado é o hall do eco e do álcool; são aqueles que, iludidos pelo pai mercado, viram as costas para a riqueza estética da vida e dos avós."
Mais Tom Zé não diz. Ele sempre foi homem de alegorias.

A canção do single

"Vaia de Bêbado Não Vale"
ou
"Vaia de Bebo Não Vale"
Autores: Tom Zé e Vicente Barreto

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Primeira edição
No dia em que a bossa nova inventou o Brasil
No dia em que a bossa nova pariu o Brasil
Teve que fazer direito
Teve que fazer Brasil

No ano de 1958, veio a público "Chega de Saudade", canção de Tom Jobim e Vinícius de Moraes que marca o nascimento da Bossa Nova. A primeira gravação é de Elizeth Cardoso, em abril. A segunda (e mais famosa) é de João Gilberto, em julho. Criando a bossa nova em 58
O Brasil foi protagonista
De coisa que jamais aconteceu
Pra toda a humanidade
Seja na moderna história
Seja na história da antiguidade
Por isso, meu nego,
Vaia de bebo não vale
De bebo vaia não vale

Segunda edição
No dia em que a bossa nova inventou o Brasil
No dia em que a bossa nova pariu o Brasil
Teve que fazer direito
Teve que fazer Brasil

Alusão à música "Águas de Março", que Tom Jobim compôs em 1972, num sítio de Poço Fundo (RJ), onde costumava passar fins-de-semana. Quando aquele ano começou, nas Águas de Março de 58,
O Brasil só exportava matéria-prima
Essa tisana
Isto é o mais baixo grau da capacidade humana
E o mundo dizia
Que povinho retardado
Que povo mais atrasado

Terceira edição
No dia em que a bossa nova inventou o Brasil
No dia em que a bossa nova pariu o Brasil
Teve que fazer direito
Teve que fazer Brasil

A surpresa foi que no fim daquele mesmo ano
Para toda a parte
Referência à canção "O Pato"de Jaime Silva e Neuza Teixeira. O samba é da década de 40, mas ganhou fama apenas em 1960, quando João Gilberto o gravou, com arranjo timbrístico de Tom Jobim. O Brasil d"O Pato
Com a bossa nova, exportava arte
O grau mais alto da capacidade humana
E a Europa, assombrada
Que povinho audacioso
Que povo civilizado

Pato ziguepato ziguepato Pato
Pato ziguepato ziguepato Pato

Tratou com desacato o nosso amado Pato

Leia a nota abaixo Viva a vaia, seu Augusto
Viva a vaia, seu João
Viva a vaia, viva a vaia
Viva a vaia com Diós, amor
Porque me soy argentino
Gentino, gentino, gentino

Seu Augusto é o poeta, ensaísta e tradutor paulistano Augusto de Campos, um dos criadores do concretismo brasileiro. O movimento de vanguarda surgiu oficialmente no país em dezembro de 1956. Expressou-se tanto nas artes plásticas quanto na literatura.

A chamada "poesia concreta"elimina o verso e explora aspectos visuais das palvras. Entre os poemas concretos de Augusto de Campos, destaca-se "Viva Vaia" - também o nome de uma coletânea do autor, com criações que abrangem o período de 1949 a 1979.

Na década de 60, Augusto e outros poetas concretistas de São Paulo (Décio Pignatari e Haroldo de Campos) deram apoio crítico ao tropicalismo.

 


Ouça a música "Vaia de Bêbado Não Vale":
Real Audio -
http://www.uol.com.br/fsp/tomze.ram

CD em fase de lançamento.