Imprensa
Cantada
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Tropicalismo versus
bossa nova
Por que é que o tropicalismo está com essa bola toda?
Não chega a ser sequer um movimento, um movimento estético estruturalmente radical como
a bossa nova. Esta, sim, criou realmente um gênero.
Apesar disso, todos os anos centenas de trabalhos escolares tomam o tropicalismo como
tema. Teses universitárias descrevem cada disco ou canção, descobrindo neles elementos
e intenções que os compositores sequer sonhavam colocar.
A bossa nova construiu uma melodia característica: estruturou sequências de acordes,
instituiu combinação de dissonâncias numa sintaxe própria, revolveu o samba em suas
entranhas, destruiu e refez a forma erigida por Noel
e seus pares.
O tropicalismo nem constituiu um gênero próprio. Abriu as portas para outras
assimilações. Muito bem. Renovou o texto das canções. Estabeleceu arsenal comparável
ao de Satie ,
ou seja, utilizou a composição de peças para exercer a atividade crítica. Atividade
que foi uma de suas contribuições mais importantes. Tudo muito bem, tudo muito bom. Mas
a bossa nova é mais embaixo, quero dizer, mais aprofundada. Quem tem lato senso para
prender a si o nome de movimento artístico é a cuja.
É notável que esse gênero, agora já completados seus 40 muitos anos de vida,
impressione pouco, no Brasil, estudantes e teóricos musicais.
Perceptíveis em grandes massas oceânicas e em furacões, a água e o ar são quase
invisíveis no cotidiano. Pouco ou nada os percebemos, embora sejam vitais,
constituidores.
Essa invisibilidade da bossa nova insere-se numa tendência vigente, já observada por
alguns críticos. Tendência que compactua com o entorpecimento da sensibilidade, com o
encolhimento da arte como tal. Botando-a no chinelo. Tábula rasa. Ou tábula funda.
Editorial
(Primeira tentativa)
A bossa nova bateu em mim num dia cinzento de agosto do ano passado. Eu estava no CPC da
Bahia, um barracão que ficava nos fundos e no corpo da casa da Escola de Direito.
(CPCs: Centros Populares de Cultura, que agregavam as esquerdas estudantis)
Bem, eu estava no CPC, o rádio de pilha ligado na ZYPD8, rádio Excelsior da Bahia. De
repente, tocou um samba, uma música estranha, absurda e bela. Um abismo. Uma sensação
de que o universo parava para uma fotografia. E o rádio cantava
"a realidade é que sem ela
não há paz, não há beleza
é só tristeza" 
e alguns diminutivos rutilantes. Frio na espinha. Faltou-me terra aos pés, como disse meu
avô Pompílio ao ver tia Luzia com o namorado na avenida Sete .
Faltou-me gravidade ao peso. E lá ia aquele cantor-ventríloquo - nome dado a João
Gilberto nas reuniões dos produtores da Odeon
em 56, sempre que João Araújo, pai de Cazuza, levava alguma fita do então desconhecido.
"Diz-lhe numa prece
que ela regresse"
-que me regresse o pulso que latejava na fronte e se confundia com o ritmo da levada do
violão. Eu tinha tétano e rubéola. Perdia a consciência e "sem ela não pode
ser" . Sem ela não pode ser.
Rasgue e jogue fora. Vou tentar outro.
Editorial
(Segunda tentativa)
A bossa nova, para nós, do público, nasceu num dia cinzento de agosto do ano passado,
1958. Nesses quatro meses, o gênero apodado de "música de apartamento" ou de
"canções da turma do barquinho, do sorriso e da flor", a dita BN, como sedutor
pacífico, fez o que nenhum grande conquistador conseguiu. Já acumulou mais terras e
países do que Alexandre Magno, Dario ou Napoleão, instalou-se em extensões territoriais
maiores do que o Império Romano em seu apogeu.
Rasgue e jogue fora.
Editorial
(Terceira tentativa)
A bossa nova nasceu num dia ... etc...
É a primeira vez que um país do mundo subdesenvolvido inaugura um arquétipo artístico
em sua própria língua e com suas tradições, no caso, o enraizado samba. Espantoso
ainda é que, há quatro meses, as muralhas do jazz, civilizado, superior e invencível,
apoiado pelo poder de uma grande indústria... há quatro meses, o jazz vem abrindo os
flancos para receber a influência de um frágil e feminino gênero musical da América do
Sul (talvez de Buenos Aires...). Trata-se de um tipo de música ainda segregado no
próprio Brasil neste janeiro de 59. Muitos mestres e professores costumam chamá-lo de
"música sem ritmo", muitas vezes fora do compasso, cantada sem afinação
correta, de letras infantis, sem beleza poética. A própria teoria musical nos livros e
escolas condena esse gênero sincopado e indefinido, porque ! uma peça que não termina
na cabeça do compasso, no tempo forte, tem "terminação feminina".
O que prova, nos juízos doutos, que a bossa nova é inqualificável, uma vez que pode ser
confundida ou simbolizada pela leveza feminina, ou seja, pela mulher, esse navio negreiro
do século 20.
"A um rapaz de família não fica bem cantar esse inhen-inhen-inhen que põe em
dúvida sua masculinidade."
Já chega.
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