CAROS AMIGOS




As mulheres invisíveis do futebol


Passaram a usar uma peruca vermelha sensacional. Mas o estigma não arreda pé. Ninguém as vê, nem com os cabelos em fogo.

 

Tom Zé

Aviso logo: se ser homem é desqualificar mulher, ser durão com criança etc., eu não sou
homem. Ou seja, abrigo uma mulher invisível. Tão invisível quanto as mulheres da
Federação Paulista de Futebol. Aquelas celebrantes de todos os jogos do Campeonato Paulista que, quando a torcida chega, já estão em plena coreografia, de bustiê e short, balançando pompons, moças bonitas, de movimentos elásticos.

Recebem os jogadores na subida do vestiário, em jubilosa fila dupla. Eles passam sem vê-las, disparando para o centro do campo. As moças acompanham a disparada. No coração do gramado, quando eles saúdam a massa, voltando-se para a direta, meio corpo de baile feminino se agacha à frente; a outra metade permanece em pé atrás dos homens, erguendo os braços, agitando os tais pompons.

Quando o cumprimento é dado ao lado esquerdo das arquibancadas, rapidamente as moças que agora lhes ficam à frente se acocoram. É a vez de as outras se levantarem. O esquema é rápido, sincronizado. Mais vistoso, impossível. Mas os jogadores não passam recibo: faz de conta que não existe mulher nenhuma nas imediações.

A televisão, que filma o ritual dos craques, não pode varrê-las da cena; mas, tacitamente, não estão lá. É o apagão do feminino.

Às vezes o sol as torra, nos campos diurnos de Campinas ou Rio Preto. Mas agora, que começa a fazer frio, dá vontade de chamar a campanha do agasalho, em socorro das pobres criaturas, vestidas de quase nada no gelo da noite paulista.

Rádio, televisão, jogadores, comentaristas, repórteres de campo, ninguém lhes autentica a presença. Não são nem estão. Nunca vi jogador, torcedor, gente de imprensa sorrir pra elas, reconhecer-lhes a atuação comemorativa. Não há denotação que as torne – apesar de mulheres, não é, neguinhos? – partícipes da espécie humana.

Elas lembram Ulisses apresentando-se a Polifemo: "Meu nome é Ninguém". São párias hindus, intocáveis, hansenianas, portadoras de maleita, erisipela e contágios. Nada indica que possam ter a mínima pretensão à semelhança concedida pela divindade – semelhança cuja primazia, pensando bem, foi concedida a Adão.

Agora, as moças começaram a usar uma peruca vermelha sensacional. Mas o estigma não arreda pé. Ninguém as vê, nem com os cabelos em fogo.

A televisão dá closes em belas e feras: tá aqui um moço simpático, ali um velho sem dente, um torcedor mordendo o lábio, um japonês tocando samba. O diabo. Mas a individualização do close, essa caridade de um segundo, não as contempla.

Se eu tivesse poder, faria uma campanha para convertê-las em gente como você e eu, leitor. No campo, beijaria a mão de cada uma. Ou faria uma canção pra elas.

Jamais um jogador, fazendo um gol, deu-se ao luxo de, no vacilo de um ato falho, comemorar o feito com uma das ginastas de pompom preto e branco. Outro dia, 16 de maio, no jogo Ponte Preta e Corinthians, Marcelinho abraçou o pau da bandeira de corner e ficou por lá, namorando-o como se o pau fosse uma mulher, no dizer de Édson Rufino, da Rádio Atual.

Ora, por que (só) o pau da bandeira de corner, Marcelinho? Com tanta moça bonita de junto... Tá certo que futebol é pra homem, como se diz, e que teatraliza uma batalha. Mas, na erotização que permeia os atos humanos, ficar cego ao feminino dançante, riscando-o do momento do planeta e do gramado? Bota misoginia nisso!

E, venha cá, o mundo é cheio de encontros. Será que a coincidência nunca premiou um parentesco distante, um conhecimento de bairro, um "sou vizinha de sua prima", entre as festeiras e os 22 jogadores, ou repórteres, ou juízes? Esta é uma inquietação estatística.

Antes do início do jogo, até os adversários se cumprimentam, Marcelinho fala com Rincón, enquanto o goleiro do São Paulo, Rogério, recebe pelo repórter de campo Wanderley Nogueira um recado ameno de Milton Neves. Mas as moças, figuras do cão, demônios, superam em vade retro qualquer inimigo. Sem essa de saudação, nem mesmo protocolocar. Ainda que sejam a presença da graça num acontecimento mitológico.

Sugiro, como fã de Felipão, que este, valendo-se de sua moralidade impoluta, comemore um gol atirando para o alto uma celebrante – e a apare na volta ao chão, é claro. Num lance duvidoso, o juiz bem poderia chamar uma delas pra testemunhar: foi pênalti ou não?

Proponho que o primitivo as valide, num sacrifício a Eros em que toda a torcida celebre Onã, gritando orgiasticamente o nome de sua eleita individual. Para tanto, sou a favor de que as moças tenham os nomes revelados nos bustiês ou onde houver espaço, tal como os jogadores nas camisas. Para podermos elegê-las individualmente também, ainda que num sonho intermediado pelo vicário cabo da televisão.

 

Tom Zé é músico.