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MÚSICA Sony
adquire master do LP de estréia do artista baiano, que não era reeditado
desde o lançamento original, em 68 Volta ao ar "Tom
Zé", lado B da tropicália
Moacyr Lopes Jr./Folha Imagem
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O músico Tom Zé, 63, que trabalha
em CD novo, relança seu primeiro disco (de 68) e aguarda reedição de
mais quatro de seus LPs |
PEDRO
ALEXANDRE SANCHES DA REPORTAGEM LOCAL
Há quatro meses em estúdio preparando um ainda
misterioso novo disco, o baiano Tom Zé, 63, parece definitivamente de
volta ao grande circuito. Seu primeiro LP, "Tom Zé", nunca reeditado desde
68, acaba de ser licenciado e relançado pela Sony. Originalmente, fora
lançado pela pernambucana Rozenblit, importante gravadora dos anos 60,
destruída pelas constantes enchentes do rio Capibaribe e pelo triunfo dos
selos multinacionais. Sumido, "Tom Zé" virou espécie de lado B da
tropicália, que só agora volta a ser conhecido, por esforço do jornalista
e músico Carlos Rennó e, depois, da Sony. Dentro de um mês, voltam mais
quatro de seus títulos: a Warner relança, em dois CDs, "Se o Caso É
Chorar" (72), "Todos os Olhos" (73), "Estudando o Samba" (75) e "Correio
da Estação do Brás" (78). Enquanto trabalha no disco previsto para
outubro, sobre o qual ele ainda não revela nada, o compositor revisa
lembranças de "Tom Zé" e do tropicalismo.
Folha - O que você sente a respeito de seu primeiro LP só ser
relançado 32 anos após a concepção? Tom Zé - Na hora em que
reouvi, fiquei meio assustado, mas depois fiquei vaidoso. Esse disco é uma
crônica do meu contato com a civilização. Em 67, eu havia decidido
abandonar a carga da música popular, quando Guilherme Araújo (empresário
dos tropicalistas) resolveu me aceitar como artista de música popular. Em
68, vim parar em São Paulo, na pensão de seu Freitas, que também era de
Irará (BA). Mas eu não tinha músicas, não tinha o que gravar. Comecei a
compor e ia mostrando para Caetano e Gil. Gosto do instrumental do
disco, com aquela coisa canhestra do órgão que tapa o resto. Os grupos que
participam do disco, Os Versáteis e Os Brazões, eram da Rozenblit, à base
de jovem guarda. O rapaz da banda tocava órgão, eu não quis criar
problema. Para mim tudo era novo, eu vinha da música erudita. Minha música
já tinha tanta estranheza na forma...
Folha - É por isso que "Não Buzine Que Eu Estou Paquerando"
parece uma típica canção jovem guarda? Tom Zé - Vi esse adesivo
num carro em São Paulo, "não buzine que eu estou paquerando". Uma coisa
tão brincalhona parecia uma ofensa aos cidadãos de uma cidade tão
trabalhadora. Eu queria mesmo imitar um iê-iê-iê. Na época, Augusto de
Campos disse que, se Roberto Carlos quisesse revigorar sua carreira, teria
de gravar algo como aquilo. Roberto havia nos encantado com os discos de
66 e 67, mas depois resolveu atender mais à demanda do público, ficou
menos gostoso. Na época, Flávio Cavalcanti disse na TV que "Não Buzine"
e "Parque Industrial" não eram música. Não chegou a quebrar o disco, ele
só quebrava discos de música caipira. Aliás, foi por esse motivo que fiz
"Sabor de Burrice" como música caipira. Não que eu tivesse esperança que
ele ouvisse o disco, mas era naquilo que residia a coisa mais sedentária,
a ditadura musical. Para mim, era um desagravo à música caipira. Tínhamos
a ilusão de que eles fossem gostar. Procuramos Tonico e Tinoco para
gravá-la. Nos receberam desconfiados, ouviram e não quiseram, acharam que
era pilhéria. De fato, podia até ser.
Folha - Em "Quero Sambar Meu Bem", aparecem versos que ficaram
mais conhecidos em "2001" (69), sua e de Rita Lee. Tom Zé -
Fazíamos as canções e ouvíamos juntos, comemorávamos. Quando levei
essa, eu disse: "Essa música não presta". "Você está louco?", falaram. Eu
e Caetano passamos a noite tentando terminá-la e não conseguimos.
Abandonei a música. Quando Guilherme Araújo jogou na mesa, já como "2001",
levei um susto: "Nossa, eu compus essa música?". Rita havia completado,
colocado o sotaque caipira, dado o nome.
Folha - Por que você regravou "Sabor de Burrice" em seu disco
mais recente com outro nome? Tom Zé - Em "Defeito de
Fabricação" (98), eu precisava de uma música que fosse vigorosa, violenta
diante dessa situação brasileira, dessa ética abandonada, em que o homem
direito não tem mais valor. Achei oportuno refazê-la. Quando Caetano e
Gil foram presos, fiz um show com Gal, e todos queriam que tirasse essa
música, pela conveniência de evitar mais um problema na família
tropicalista, que já não estava trabalhando. Censuramos a música. Hoje se
vê que a música não estava na alça de mira tanto quanto se pensava, os
militares dizem que nem sabiam quem éramos. Mas na hora da prisão dos
meninos, não parecia. Dedé, mulher de Caetano, salvou Geraldo Vandré de
ser preso. Ouviu falarem o nome de uma rua que era onde ele morava, ligou
para ele e ele fugiu.
Folha - Ele e os tropicalistas estavam estremecidos, não? Tom
Zé - Sim, Vandré nos maltratava muito. Ele nos botava como
patetas, e a gente respeitava porque ele era importante. Era um caráter
muito estranho.
Folha - Você foi um pop star quando "São São Paulo" venceu o
festival da Record de 68? Tom Zé - Fui uma promessa de pop
star. Mas a TV Record parecia já começar a fazer a decadência, não dava
mais para ter pop star. Ainda tive sucesso no Brasil todo com "Jeitinho
Dela" (69) e "Se o Caso É Chorar" (72), mas o disco "Todos os Olhos" (73)
me colocou no esquecimento. Pela primeira vez havia feito uma coisa do
jeito que queria, estava contentíssimo. Aí não tocou no rádio, eu dancei.
Fiquei totalmente desconhecido. Passei anos sobrevivendo só com o público
universitário.
Folha - No disco você canta: "Quero sambar também/ mas eu não
quero andar na fossa/ cultivando tradição embalsamada". Foi essa sua
prática daí em diante? Tom Zé - Continuo não cultivando
tradição. Mas não me vanglorio, é que não sei mesmo. Gosto de beliscar o
ouvinte.

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