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I Congresso ABRACE - Grupo de Trabalho: 
TEXTO E INTERTEXTUALIDADE

São Paulo, USP.

 

Trabalho da Debatedora Catarina Sant’Anna / Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas-UFB 

Elementos básicos para compor o ponto de partida para o debate.

Catarina Sant’Anna

1- A partir da compreensão do fenômeno da "polifonia", ou "dialogismo", pensado e desenvolvido por Mikhail Bakhtin, em fins da década de 20, e ampliado e renomeado como "intertextualidade" por Júlia Kristeva 40 anos mais tarde, pode-se concluir que se trata de uma realidade tão antiga quanto a humanidade e sempre constituiu um princípio básico de construção de linguagem, pois que inerente ao próprio processo de construção do "eu", que não tem existência independente, mas complementar, em diálogo constante com os outros "eus", com o meio ambiente social. Daí, todo desempenho verbal (inclusive o artístico) ser interindividual, um cruzamento de discursos do emissor, do receptor, envolvendo toda uma carga de sentidos ideológicos, culturais, acumulados em cada palavra sobrecarregada pelo uso dos mais diferentes falantes através da História. Bakhtin pressupõe a "abertura dialógica" ligada a um "inacabamento de princípio", na realidade dinâmica das trocas; uma permeabilidade vital, portanto, que permita o trânsito contínuo, "uma comunicação através da diferença, entre pessoas, textos, grupos sociais". Júlia Kristeva, ao entender qualquer texto como um "mosaico de citações", concebe também o texto como "absorção e transformação de um outro texto" e denomina como "intertextualidade" a transposição de um ou vários sistemas de signos noutro sistema de signos, estendendo a noção de dialogismo também aos sistemas simbólicos não-verbais.

2- Tudo isto repercutiu no âmbito da crítica literária (ver Laurent Jenny): em vez de influências e fontes, procurou-se descobrir textos, ou fragmentos de textos, ou imagens, alusões, nos textos. Surge o problema das fronteiras: a partir de que ponto poder-se-ia falar da presença de um texto no outro; que gradações intertextuais considerar? Intertextualidade "implícita", genética, oriunda do uso de um gênero literário, ou intencional, explícita, na forma de paródia, citação, etc. Como se daria o engaste/inserção do texto alheio/emprestado em outro texto – de forma motivada ou arbitrária? de forma harmoniosa ou desintegradora? Que efeitos formais e semânticos? Que tratamentos de normalização teriam sofrido diferentes materiais para sua inserção no novo conjunto textual, considerando-se a condição verbal e de linearidade da escrita na materialidade da página? Daí, um novo modo de leitura. E tergiversações sobre questões de autoria. E sobre as razões para tal fenômeno: uma afirmação de originalidade no conflito de gerações literárias (esforço para romper com o pai)? Os períodos de "crises intertextuais" adviriam de uma renovação de uma tecnologia da informação (afluxo brusco de memória literária sobre os gêneros em voga - MacLuhan)?

3- No âmbito do texto dramático, os estudos, até recentemente, majoritariamente, apenas aludiam a possíveis "fontes" ou "influências" no trabalho dos dramaturgos. Fatos novos, como a dramaturgia de um Heiner Muller ou a costumeira criação de texto no/durante o próprio processo de encenação de um espetáculo teatral e em que as fronteiras entre as diferentes linguagens artísticas se atenuam e diferentes códigos, verbais e não-verbais, entrelaçam-se numa construção de texto multireferencial e até multicultural, merecem novas direções de investigação. Os termos texto, intertexto, contexto, metatexto, pré-texto, sub-texto, autotexto tornaram-se moeda corrente.

4- Minha posição: o texto dramático e o texto cênico são dialógicos, polifônicos, intertextuais por sua própria natureza. A questão é o grau. Nosso público no Brasil não possui ainda um repertório cultural razoável para reagir ao convite à decifração posto por intertextos mais densos, ricos, ousados; a não ser que se objetive justamente efeitos de impacto, estranheza, desorientação __ estratégia sempre válida em arte. Proponho, como um novo rumo para pesquisa, a Mitodologia (mitocrítica e mitanálise) de Gilbert Durand. E que lembremos da "antropofagia" de Osvald de Andrade, do processo criativo de Ariano Suassuna e da "estética do plágio, do arrastão, da era do plagicombinador" e sua "entropia acelerada" proposta este ano por Tom Zé.

Profa Dra Catarina Sant’Anna.