Tom Zé (Sony Music/Rozemblit)
Foi preciso David Byrne, Penélope e muito tempo para que enfim se chegasse ao
primeiro disco de Tom Zé, de 1968, enfim reeditado pela Sony Music. Ao contrário
dos outros tropicalistas do disco-manifesto Panis et Circensis, o baiano
de Irará só conseguiu gravar pelo periférico selo Rozemblit, de Recife. Há
muito fora de catálogo, Tom Zé reaparece revelador. Caetano, Gil e
Mutantes podem ter feito obras de derrubar queixos, mas este aqui é o mais
tropicalista dos discos da Tropicália. Irreconhecível para as novas gerações
na foto da capa, o músico realizou um trabalho brilhante, inspiradíssimo, em
que música e texto interagem ao sabor de um sarcasmo poucas vezes igualado.
Quer dizer: é o tropicalismo em sua mais pura essência. Estilos da música
brasileira e importada desfilam no disco, nas misturas mais inusitadas,
costuradas pelos arranjos vanguardistas de Damiano Cozzela e Sandino Hohagen,
integrantes do grupo Música Nova, do qual saiu também o maestro tropicalista,
Rogério Duprat. Nas músicas do disco, Tom Zé tematiza o susto do baiano do
interior em contato com as armadilhas e contradições da grande cidade. Só que
ele não é nada jeca. As pessoas que, "amando com todo ódio se odeiam com
todo amor", são a imagem mais forte de São São Paulo, vencedora
do Festival de MPB da TV Record de 68. E que dizer de Não Buzine Que Eu
Estou Paquerando? Só o título já vale – não fosse a música um curioso
iê-iê-iê com passagens de marchinha de coreto. Por falar em misturas, a tão
falada Namorinho de Portão (regravada recentemente pela banda Penélope
a partir da versão de Gal Costa) bem poderia ser uma faixa dos Novos Baianos. E
Catecismo, Creme Dental e Eu pode ser vista como um diálogo com o
primeiro disco dos Mutantes, em sua fusão de rock, baião e arranjos
vanguardistas.
O dado mais curioso de Tom Zé, porém, é a extrema atualidade dos
problemas que ele critica – para extrema infelicidade dos brasileiros de hoje.
"Jornal popular não se espreme porque pode derramar/ É um banco de sangue
encadernado", canta Tom em Parque Industrial (do Panis). O
hino da corrupção de Lalaus e companhia, por exemplo, poderia ser Profissão
Ladrão: "Sei que quem rouba um é moleque/ Aos dez promovido a ladrão/
Se rouba cem já passou de doutor/ E dez mil é figura nacional/ E se rouba
oitenta milhões.../ É a diplomacia internacional, a boa vizinhança e outras
tranças." Falou de consumo? Ouça Sem Entrada e Sem Mais Nada, com
seu corinho feminino que dá um tom de jingle perverso: "Entrei na
liquidação/ Saí quase liquidado/ Vinte vezes, vinte meses/ Eu vendi meu
ordenado." Tom Zé ainda se mete a falar sobre música – e bem.
Trinta e dois anos depois, Quero Sambar Meu Bem, em sua imitação de
Jorge Ben, faz o mesmo que o Mundo Livre S/A na recente O Mistério do Samba (do
disco Por Pouco). "Quero sambar meu bem/ Quero sambar também/ Mas
eu não quero andar na fossa/ Cultivando tradição embalsamada." Tal qual
um garoto descobrindo a novidade do disco, Tom ainda faz outras traquinagens: em
Sabor de Burrice, ele encena uma transmissão de alto falante de Irará.
E em Camelô, a grande atração é uma historinha que o músico conta na
introdução. Como o próprio Mundo Livre se encarregou de mostrar em seu último
disco, só Tom Zé falando já vale por uma faixa. Ninguém que vacile então:
vendo Tom Zé por aí, compre logo. É um disco em que ele mais uma vez nos faz
ver o óbvio. Um preto pastel destinado a dar uma dor de barriga moral na
sociedade.
