O velho rebelde Tom Zé comemora o sucesso lançando novas invenções
Bernardo Araújo

Não, Tom Zé não é um sujeito hermético, pretensioso, que fala difícil. O compositor nascido em 1936 em Irará, na Bahia, é um doce "avô-criança", na própria definição. Após aparecer na onda do Tropicalismo, nos anos 60, ele passou por um longo período de ostracismo e reapareceu aos poucos, descoberto por gente como o cantor David Byrne e músicos alternativos. Agora Tom está lançando um novo disco, "Jogos de armar - faça você mesmo" (Trama), em que realiza um sonho: gravar com instrumentos que começou a inventar em 1978.

 

Na ocasião, ele fabricou instrumentos a partir de eletrodomésticos, mas nenhuma gravadora quis lançar um disco gravado com eles.

- Pior era que eu não tinha onde guardá-los - conta Tom de São Paulo, por telefone. - Aí levei para o sítio de um amigo, com o passar do tempo, o caseiro dele usou tudo como lenha na fogueira.

Os instrumentos, como o próprio inventor admite, são difíceis de se descrever. O xodó de Tom é o hertZé (uma espécie de sampler, acionado por teclados, que tem como função trabalhar em uma região das vibrações próxima à dos outros instrumentos), além do enceroscópio (feito com enceradeiras, aspiradores, liqüidificadores), a serroteria (feita com canos de madeira, PVC e outros materiais) e outro dos favoritos, o buzinório (um conjunto de buzinas manejadas, também transpostas para um teclado).

Boa parte do disco foi composta já no estúdio.

- Deus me oferece uma dádiva: vou para o estúdio com 80% das idéias na cabeça, mas acabo esquecendo um pouco e fico só com 60%, o que me obriga a criar mais - diz. - É uma armadilha do bem.

Tom comemora o sucesso e diz que teria se vendido sem problemas, se pudesse.

- O problema é que só sei fazer música assim.

Ele acha que sua fama de compositor de difícil assimilação foi contrariada com a apresentação no festival Abril Pro Rock do ano passado.

- Eram 8.500 pessoas, que me aplaudiram do início ao fim do show - conta. - Não tiraram os meninos e colocaram intelectuais, aquele era o público do festival mesmo.