| Um céu
de 170 graus Luís Antônio Giron |
|
| Gazeta Mercantil
(Fim de Semana)
|
|
São Paulo, 22 de dezembro
de 2000 - O ano 2000 pertenceu ao cantor e compositor Tom Zé, pelo
menos no Brasil. Nove de seus discos foram relançados por diversas
gravadoras e, para culminar, editou seu primeiro CD nacional em oito
anos: o álbum duplo que não é álbum duplo 'Jogos de Armar (Faça
Você Mesmo)' (leia crítica aqui).
Aos 64 anos, esse eterno corpo estranho da música popular brasileira,
nascido em Irará, interior da Bahia, ainda mantém a postura de
tropicalista impenitente - se tropicalismo incluir também seu
regresso a diversos instrumentos que inventou e apresentou em 1978,
num show na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. Ei-lo
executando suas peças fragmentárias ao enceroscópio (um complexo de
enceradeiras afinadas e em descompasso minimalista), tocando peças ao
buzinório (encanamento dotado de buzinas com alturas determinadas) e
antecipando o sampler com a Orquestra de Hertz, hoje rebatizada de
hertzé: nada mais nada menos que um teclado em que cada tecla aciona
um determinado tipo de som captado em fita magnética e retrabalhado
eletronicamente.
Em 1978, Tom Zé já trabalhava como um manipulador tecno, um DJ. O público universitário achava excêntrico, mas não supunha que estava diante do futuro. Depois de ter sido redescoberto por David Byrne em 1990, Tom Zé faz milagres em casa. É o santo padroeiro dos DJs do Brasil - e do exterior também, pois suas canções modulares já encantaram alguns manipuladores americanos e europeus. Um deles foi Sean Lennon. E é evidente que o francês Manu Chao ouviu Tom Zé quando esteve no Brasil. Seu CD é pontilhista e fractal como os do músico baiano. E David Byrne ouviu a si próprio nos discos que Tom lançou na década de 70, como o fundamental 'Estudando o Samba' (Continental, 1976), relançado em um CD '2 em 1' pela WEA. Tom Zé se orgulha de haver desmontado o samba até este ser reduzido a pedacinhos. Com estes fragmentos, ele reinventou a música popular brasileira, colando-os das mais variadas formas, como um quebra-cabeça sem sentido aparente. O compositor rompeu com a tradição brasileira e lusitana do canto acompanhado e pôs no lugar uma outra coisa, até hoje passível de discussão. Se na vida artística ele explode as expectativas, a única alteração a que se permitiu na existência cotidiana foi mudar de apartamento, há dois anos, depois de 28 anos morando no mesmo endereço. Mas se mudou só para outro lado da rua Homem de Melo, no bairro de Perdizes, para o décimo andar do edifício Umuarama. Sua mulher, Neusa, trocou a cátedra (é professora) por uma sala no apartamento. Ali, toma conta dos compromissos do marido, organiza sua agenda e monitora o site www.tomze.com.br, independente de gravadoras e outras empresas da nova economia. 'Assim é melhor', diz Neusa, não sem orgulho. Ela e Tom completaram 30 anos de casamento. Durante a maior parte do tempo, Neusa teve de lidar com as depressões do marido, inconformado com a situação de esquecido das artes. Mas, de dez anos para cá, a consagração mundial do artista facilitou as coisas. Apesar das turnês e gravações, o músico mantém seu rígido cotidiano: acorda às 6h, dorme às 20h, é macrobiótico, não bebe nem fuma. Encontra mesmo tempo para praticar um hábito arraigado: regar as plantas do jardim do prédio onde morou. Recebe a reportagem na sala ampla, dotada de piano, TV com tela plana e livros acadêmicos. Posa para as fotos com o violão tradicional, embora componha, de fato, com os outros instrumentos. Entrevistá-lo é como participar de uma passagem de som. Tom não pára, anda pela sala, vai para o quarto, volta, fala com seus diversos assistentes. 'Percebo hoje que fiquei no ostracismo por conta própria', diz, pensativo, na sua fala superarticulada de professor de semiótica. 'Eu solapei a mim mesmo. Não foi culpa de Caetano nem de Gil. Eles seguiram um caminho e eu me mantive na minha teimosia. Continuei fazendo a mesma coisa depois que o Tropicalismo foi embora.' O músico está feliz com a excelente receptividade de seu CD, cheio de verrumas contra a globalização, a prostituição infantil, a pobreza e o FMI. 'Fiz o disco para a moçada, que está na época da rebeldia', diz. 'Não que eu sinta tanta indignação assim. Mesmo porque hoje quem falar mal das sete grandes corporações que dominam o mundo não tem mais oportunidade a nada. Minhas letras políticas são totalmente inócuas. Rebeldia é proteína social.' O músico afirma ter aberto seu código com o álbum 'Jogos de Armar (Faça Você Mesmo)'. 'O pessoal vai olhar se o que esse cara faz é besteira ou não.' Gosta de ser consumido pela juventude e a crítica, mas acha que nem uma nem outra conseguiu entender sua arte. 'Para saber como componho, é preciso entender de música. E a crítica... Bem, deixa pra lá! Ela tem boa vontade!' Sua consagração crítica se dá mais pela perplexidade dos ouvidos supostamente especializados que pelo conhecimento real. Circula por São Paulo a lenda segundo a qual, quando Tom chegou de Salvador, em 1966, a convite de Caetano Veloso, era um gênio pronto, pois havia estudado com Walter Smetak, o primeiro luthier fantasioso nacional. 'Na UFBA, estudei com H. J. Koellreutter e Ernst Widmer (a quem o novo CD é dedicado). Eu me lembro de que quando Smetak chegou, eu estudava violoncelo com Piero Bastianelli. Smetak aparecia na sala falando absurdos sobre ioga. Nunca tive aulas com ele.' Desistiu do violoncelo e vendeu seu instrumento a um calouro vindo de Minas: era Marco Antônio Guimarães, o futuro construtor de instrumentos e líder do grupo Uakti. Querendo ou não, o músico se envolveu desde o início com os artistas que experimentavam timbres em instrumentos de imaginação. Após lançar seu primeiro CD ('Tom Zé - Grande Liquidação', de 1968) e participar da festa do adeus tropicalista, Tom Zé foi morar num apartamento na rua Sílvia, no bairro de Bela Vista, e passou a ter as noites povoadas por gravadores. 'Eles coçavam minha cabeça. Eu estava obcecado por criar uma pasta de tônica e dominante. Pegava um disco, flagrava um dó, isolava a nota, gravava, pegava flauta e violão e tocava junto o sol ou a sétima dominante. Perseguia o acorde de timbres, mas não conseguia chegar a um resultado porque não havia tecnologia para isso.' A idéia fixa sobreviveu a sua prisão durante os anos de chumbo e só desanuviou quando se casou com Neusa e foi morar nas Perdizes. 'Eu queria a pasta sonora, mas, apesar de minha formação acadêmica, só conhecia música eletroacústica em audições em sala de aula. Ignorava o método composicional.' Restaram algumas fitas dessa época. 'Eram resultado de dias e dias tentando montar, colar.' Voltou a pensar no assunto em 1975, quando Neusa lhe pediu para consertar a enceradeira. Emperrada, provocava um som interessante quando Tom tentava ligá-la. 'Parecia um instrumento. Fazia um ritmo 2/4, enquanto eu acompanhava com um vocal repetitivo. Besuntei-a com óleo e o som melhorou.' Chamou dois amigos para ouvir. Eram eles Arquimedes e Roberto Maia (hoje proprietário da rádio Brasil 2000). Envergonhado, Tom apertou o botão da enceradeira com convicção de gênio: 'Num palco, quando você percebe que não está agradando, deve fazer com mais força e convicção. Deu certo. Os dois estavam com os olhos cheios d’água!' Maia estudava eletrônica e, animado por Tom, ajudou-o a construir os novos instrumentos (para o novo CD, foi novamente chamado). A enceradeira de Neusa nunca mais foi consertada. Já tinha sido rebatizada de enceroscópio. Tom começou a gravar e perceber ordem em ruídos mais inesperados. No sapateiro, viu que o rebolo que polia as solas calhava bem a um agogô em quinta. Leu as teorias do compositor John Cage e do arquiteto Buckminster Fuller em noites de não dormir. Ouvia LPs de sinfonias e a pasta de dó voltava. 'Eu podia ser dono de todas as orquestras, elas podem tocar para mim!' Tinha a sensação de descobrir o gênio na garrafa. 'Lembrei ter aprendido que dois instrumentos de timbre semelhante na mesma região tonal não se distinguiam. Mas se eu fizesse um plano de juntar timbres em hertz diferentes, daria certo.' Tom usa uma imagem astronômica para explicar o nascimento de sua linguagem: 'A abóbada celeste tem 180 graus. Mas, no universo da música, o céu possui só 170 graus; começa bem definido nos graves, vai subindo, mas termina nos agudos. O resto é o abismo, o não-mundo, o caos antes do mundo.' Sua preocupação foi 'aumentar as estrelas do céu da música'. Lembrou-se do cavaquinista Waldir Azevedo e Jacob do Bandolim, que fizeram gravações nas fronteiras agudas do caos. 'Daí trouxe os cavaquinhos para a minha música porque atingiam 5 mil hertz.' Nasceu a orquestra de hertz, na observação das reações das notas agudíssimas. 'Gravávamos uma fita atrás da outra, com flautim, violino, etc. E descobri que a afinação nessa altura do som é completada pelo ouvido. Ele arruma tudo, mesmo quando cavaquinho e flautim tocam uma segunda.' Tom vai até seu estúdio e abre as gavetas da estante de madeira. Mostra centenas de fitas cassete, resultantes de três décadas de busca de sons agudos e bases graves rítmicas, a cargo do contrabaixo elétrico. 'Passei minha vida toda em dó maior. As fitas são as peças para armar composições. Sou o Henry Ford das fitas. Minha música se realiza em módulos - hoje a moçada diz loops. Tudo nasce dali. Eles se repetem em dó maior. Ponho o baixo e um ritmo de bateria gravado. Isso degenera o samba, e o samba fica gostoso. Aí a gente vê que o samba tem uma estrutura complexa, ele contamina tudo.' Define sua arte como uma 'peregrinação dos pedais agudos' (pedais são notas que se repetem sem cessar). No processo, o canto foge do ritmo, promovendo a conversão de letra em ritmo. Tom Zé guarda as fitas para a banda de seis integrantes que o acompanha há quase uma década. 'São meus herdeiros', diz, fechando pela metade as gavetas. Legar à posteridade um céu a completar é um gesto bem seu. |