Além do agudo total

Luís Antônio Giron

Gazeta Mercantil  (Fim de Semana)

 

22 de dezembro de 2000 - O álbum 'Jogos de Armar (Faça Você Mesmo)' (Trama), de Tom Zé, comprende dois CDs. Mesmo assim, vem com um aviso na capa: 'Não é um CD duplo'. O segundo volume, ou CD auxiliar, aparece como uma 'Cartilha de Parceiros': uma coleção de sons para uso do ouvinte. O compositor convida o consumidor a produzir com ele.

Talvez a sugestão soe retórica para o comprador normal. Mas DJs e músicos encontram no segundo volume combinatórias de sons que podem ser utilizadas - desde que sejam licenciadas pela Editora Irará/Trama. É uma enciclopédia de estridências que apontam para as alturas mais agudas do espectro sonoro.

As 14 faixas do CD de fato são povoadas de coros de sopranos, assobios, duetos de cavaquinho e flautim. A obsessão do músico está na busca do agudo total. Seus arranjos são montados sobre repetições (loops) de baixo e percussão, que fornecem alicerce para as reiterações ainda mais intrigantes dos instrumentos agudos. Só que nada se resolve em uma conclusão aristotélica. As notas não se completam, as sílabas estacam no meio de uma palavra jamais dita, depois de um palavrão mais que gritado.

Seu sistema se resume a um ostinato transcendental, que, desde o aparentemente prosaico dó maior, parece apontar para outras escalas e outros céus possíveis. Ele trabalha com fractais sonoros, que se clonam, mas estabelecem enigmas insolúveis. É um círculo vicioso, imperfeito em si mesmo.

A curiosidade suplementar está na manutenção dos gêneros nordestinos tradicionais. Embora se agite pelo arco intocado das dissonâncias, e faça estas soarem como harmonicamente resolvidas - por obra dos timbres do cavaquinho, dos sopros e da microfonia - , Tom Zé apresenta um 'chameguinho-choro' ('Peixe viva'), uma maracapoeira ('Moeda falsa'), baião ('Conto de fraldas') e até um 'jingle para máquinas de escrever' ('Medo de mulher', encomendado por Washington Olivetto em 1977). Como gênero, o arrastão predomina. Há um 'arrastão de Homero' ('Perisséia'), um 'arrastão do som dos manos da periferia' ('Cafuas, guetos e santuários'), um 'arrastão da ala dos esfarrapados' ('Sonhar'). Transforma clássicos em estranhos rocks sambados. São os casos do baião 'Asa branca' e do xote 'Pisa na fulô'.

Tom Zé apresenta um CD inventivo no momento em que seus colegas de fundação da Tropicália se contentam em interpretar canções bregas, fazer comerciais de colegas de gravadora e até de supermercado.

Enquanto Caetano Veloso deseja aniquilar Raul Seixas no seu 'Rock’n’Raul', Tom Zé pinta o roqueiro como o salvador do Brasil diante do FMI no baião 'A chegada de Raul Seixas e Lampião do FMI', a melhor faixa do álbum. Apesar de Raul obrigar a entidade a entregar todo o dinheiro, os povos oprimidos brigam por ele e começa a guerra. É a distopia da igualdade, destilada como paródia. O músico ensina que a experimentação não precisa ser entediante para inquietar o espírito.