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Caminhos
da Tropicália
Enquanto
Caetano Veloso segue sua trajetória no show business, Tom Zé faz
um genial sarapatel de idéias
VEJA O 4º PARÁGRAFO
Por
Júlio Medaglia
Na
cabeça obtusa da ralé da ditadura militar, aqueles agentes
travestidos de censores com vorazes canetas Pilots circular
distribuindo cortes intermináveis em letras de músicas dos
autores da MPB da época era a maneira mais eficaz que imaginavam
de proteger a população do iminente "perigo
subversivo" Para a surpresa de todos, porém, os que cantavam
"A terra deve ser do povo!", "Nos quartéis se
aprende a morrer pela pátria e viver sem razão!", aqueles
que faziam emocionantes loas a guerrilheiros famosos ou, com
indignação, denunciavam injustiças sociais, passaram ilesos
pela vida pública do show business nacional. Curiosamente,
aqueles que falavam em "água azul de Amaralina", "Carmen
Miranda" e em "uma tarde de sol de domingo num
parque" é que foram amargar as masmorras do regime em meio a
todo tipo de humilhação. Enquanto os pobres de espírito
(incluam‑se aqui os universitários da época) acreditavam
que a revolução democrática seria feita no grito, a alta cúpula
do Exército, muito bem informada, sabia que as armas do
"perigo" eram outras. Que a ameaça não vinha do verbo,
e sim via comportamento. Em outras palavras, não se tratava de
uma questão de língua, e sim de linguagem Aliás, os movimentos
jovens internacionais da época, com a guitarra roqueira em riste
e a bandeira do "paz e amor', atuavam no mesmo sentido.
Naquele fim dos anos 60, a música popular não apenas puxou toda
a movimentação cultural no país, como também deu um exemplo de
inteligência, engajamento, talento e senso estratégico artístico‑cultural
raro. Enquanto Tom e João, com duas ou três sílabas ou sons,
atuando na área de uma extremada economia e sensibilidade
mozartianas, faziam o mundo se curvar, uma plêiade de jovens
autores liderados pelo movimento tropicalista compunha uma
vigorosa música popular repleta de componentes, que abrangia a
provocação artística ‑ musical e literária ‑,
comportamental, política, social, etc. Gil' Caetano, Tom Zé,
Capinam, Torquato Neto, Os Mutantes, com seus radares calibrados
na potência máxima, absorviam, com uma capacidade absolutamente
incomum, os importantes acontecimentos brasileiros e mundiais,
reinterpretando‑os por meio de uma criativa linguagem crítica
ferina e alegórica, profunda e humorada, implícita e agressiva,
simples e de alta qualidade musical, multifacetada e
"brasileira", popular e "erudita", sutil e
devastadora. Como se tivesse um profundo) compromisso com a música,
a cultura e os destinos deste país, essa "ala
inteligente" da MPB desenvolveu um comportamento cultural
experimental provocador que ia muito além do simples
cancioneirismo ou carreirismo, mexendo com a cabeça das pessoas e
deixando os militares sem dormir a cada minima movimentaçào do
grupo A bem da verdade, mais do que qualquer outro segmento social
ou intelectual da época, a música popular colaborou para a
recuperação democrática no Brasil.
Com
o passar do tempo e a chegada da liberdade de expressão total ao
esperada, alguns desses autores deixaram a vida artística, e
aqueles que permaneceram na ativa e com sucesso contínuo foram
dedicando‑se mais a carreiras individuais. Toda aquela
preocupação com a problemática nacional e com a movimentação
da cultura musical no país desaparece, dando lugar a carreiras do
tipo pop star, repletas de glamour e tietagem.
.No
grupo todo, porém, destacava-se uma figura que permaneceu meio
marginalizada, pois não soube integrar‑se nesse tipo de
carreira mais convencional: Tom Zé. Desajeitado e sem os 'dotes'
vocais dos companheiros, sua carreira diluía‑se na proporção
inversa do sucesso de seus parceiros de Tropicalismo. Depois de um
longo ostracismo, um surpreendente acontecimento provocou uma
reviravolta em sua carreira e na visão que o público tinha de
sua música. No inicio dos anos 90 o compositor e intérprete
americano David Byrne conheceu algumas de suas obras e identificou
imediatamente o grande talento de Tom Zé e o valor excepcional de
sua obra. Levando‑o para os Estados Unidos, suas criações
ganharam, de estalo, dimensão internacional.
Talvez
encorajado pelo grande sucesso tardio, Tom Zé lançou‑se
mais uma vez à luta, nos oferecendo agora um CD de grande
categoria e extremamente criativo. Produzido pela pequena
gravadora Trama (já que as grandes empresas estão às voltas
‑ e faturando horrores ‑ com a mediocridade
generalizada do repertório atual da indústria cultural
brasileira), o CD Jogos de Armar ‑ Faça Você Mesmo
é uma enxurrada de idéias, soluções musicais, inteligência e
maturidade artística. Na realidade, um imbroglio "à
la Tropicalismo" dos sons contemporâneos, lidos e
interpretados de forma criativa e agressiva. Picante sarapatel de
idéias musicais que envolve ritmos novos, reinterpretações de
clássicos (Gonzagão), heavy metal forrozado, piazzolismos,
sonoridades à la grupo Uakti, minimalismos, sons de rabeca,
reinterpretações tipo Raul Seixas, nonsense à la Arrigo
Barnabe, sons caipiras sampleados, vozes femininas superafinadas
lembrando motetos medievais de Notre-Dame, a voz taquara-rachada
de Tom Zé ou de carpideiras baianas; VillaLobos misturado com
Spike Jones, banda de pífanos com techno, tiradas à Walter
Franco com sonoridades a la Pierre Schaeffer, Blood, Sweat and
Tears e John Cage, poesia concreta com poesia de Cuica de Santo
Amaro, linguagem quebra-língua nordestina com expressões chulas
que ganham forte conotação humorística, Itamar Assumpção e
Frank Zappa, Jimi Hendrix e Tom Zé.
Agora
que Caetano lança seu CD Noites do Norte, pode‑se
estabelecer uma comparação clara da natureza de ambas as
carreiras. O disco de Caetano revela o cancioneirismo de "bom
gosto", linear e próprio para o show business que ele vem
praticando nos últimos tempos, enquanto o caleidoscópio de Tom Zé
explode como um fervilhante caldeirão de idéias, o mais criativo
do momento atual da música brasileira. É só ouvi‑lo para
entender por que seu disco The
Best of
Tom Zé foi considerado nos Estados Unidos, pela
revista Rolling Stone, um dos dez melhores da década.
De
minha parte considero o CD Jogos de Armar - Faça Você Mesmo,
esta sim, a real e criativa reinterpretação, nos dias de hoje,
do Tropicalismo.

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