Tom Zé

Escolhido pela revista Rolling Stone como um dos
dez melhores da década de 90, ele tem opiniões polêmicas, irreverentes e tão criativas quanto a sua música e vida

Por Voleta Rocha.
Publicada na revista SexWay, 

Provocador. Anarquista. Agitador cultural. Antonio José Santana Martins, ou Tom Zé, e aí já diz tudo, nascido em Irará, Bahia, está acostumado a adjetivos como esses. Nos Anos 60, ele deu o "tom da música" no Brasil. Foi um dos líderes do tropicalismo, movimento estético que rompia com as estruturas musicais da época. Depois de lançar no mercado sucessos como Tom Zé Todos os Olhos e Estudando o Samba, ficou longe da mídia por vários anos. Hoje é aplaudido de pé por platéias internacionais. Recentemente, no Recife, foi ovacionado durante 15 minutos.

Teve de voltar ao palco para o bis. Tom Zé tinha só 8 anos quando ensaiou as primeiras composições numa gaitinha, como brincadeira de criança. Com 17, ouviu o amigo de infância, Renato Martim, seu primeiro guru na vida, tocar um contraponto no violão, ficou deslumbrado e incorporou definitivamente o instrumento em sua vida. Indisciplinado na escola, o compositor vivia antenado nas estações de rádio, no folclore da Bahia, nas brincadeiras de rua.

A inteligência aguçada lhe valeu uma bolsa de estudos e o primeiro lugar no vestibular para a Escola de Música da Universidade Federal da Bahia. Lá aprendeu Harmonia, Contraponto, Violoncelo, Composição e Piano. Juntou a música erudita e de vanguarda com os elementos populares típicos de sua região e, mais recentemente, com o som de aparelhos eletrodomésticos, teclados, garrafas e buzinas. Como um alquimista, jogou tudo em um caldeirão. Misturou ingenuidade e rebeldia. Resultado: sucesso e reconhecimento mundial.

Trabalho para Tom Zé também é um grande divertimento. Por isso, o que ele faz agrada a pessoas de todas as idades. Não é à toa que o CD The Best of Tom Zé foi escolhido pela revista Rolling Stone como um dos dez melhores da última década. Ele é o único brasileiro entre os 150 álbuns selecionados.

O compositor escocês David Byrne, que divulgou a música de Tom Zé no exterior em 90, diz que ela "é diferente de qualquer outra feita no Brasil". Para Byrne, Tom expande os limites da canção popular. "Ele olha a grande cidade com olhos e ouvidos de poeta. Sua música dá esperança." O Nouvel Observateur diz que o mundo nunca será suficientemente grato a David Byrne por ter espalhado pelos quatro cantos essa alegria. Também na França, Phileppe Cornet, o colunista musical do L’Express, indaga: "E se Tom Zé, maravilhoso paradoxo brasileiro, for simplesmente um dos maiores artistas atuais... patrimônio da humanidade, a ser preservado e ouvido?" É no mínimo curioso saber que a música "Chamegá", uma das faixas do mais novo CD do músico baiano seja objeto de censura nas rádios brasileiras. Se a maioria das estações toca músicas (?) que falam até "põe a mão na cabecinha", por que a proibição?
A inteligência ofende?