Correio da estação do brás – 1978 – Continental

Ficha Técnica

Produtor fonográfico – Discos Continental
Direção artística – Cesare Benvenuti
Coordenação artística – Cesare Benvenuti
Arranjos e regências – Otávio Basso
Técnico de gravação – Waldir Lombardo Pinheiro
Assistente de gravação – Wanderley Aparecido de Paula Loureiro
Mixagem – Cesare Benvenuti
Adm. de Repertório – Odair Corona
Arregimentação – Rosário Domenico Giusepe de Caria
Lay-Out – Paulo Fasterra – D.P.Z. Propaganda
Arte Final – Oscar Paolillo
Estúdio – Templo/São Paulo
Fotos – Moacyr Lugato e Micheloni

Participação dos músicos:

Pedro Ivo Lunardi – Baixo – Todas as faixas
Armando Ferrante Jr. – Teclados
1/A – 1/B
2/A – 2/B
4/A – 3/B
5/A – 4/B
5/B
6/B

Vicente Barreto

1/A – violão / 1/B violão
2/A – violão / 2/B violão
4/A – violão / 3/B violão
5/A – violão e coro
4/B violão
5/B violão e voz/solo
6/B violão

Sérgio de Souza Leite

1/A – viola / 2/B – cavaquinho
2/A – viola / 3/B – viola
5/A – viola / 4/B – guitarra
5/B – violão de 7 cordas
6/B – cavaquinho

Mauro Herrera – Percussão –
Todas as Faixas
Oswaldo José Sbarro
– 5/B – cuíca
Luiz Guilherme Rabello – Todas as Faixas – Bateria
A. C. Carvalho – 6/B – Tamborin
Coral:
Amor de Estrada: 4/B
Diogenes Paulo Budney
Olavo Sérgio Budney
Sérgio Augusto Sarapo
Thomaz Roth

Músicas

FACE A
1. MENINA JESUS
2. MORENA
3. CORREIO DA ESTAÇÃO DO BRÁS
4. CARTA
5. PECADO ORIGINAL

FACE B
1. LAVAGEM DA IGREJA DE IRARÁ
2. PECADO, RIFA E REVISTA
3. A VOLTA DA XANDUZINA
4. AMOR DE ESTRADA

Fim do LP
5. LÁ VEM CUÍCA
6. NA PARADA DE SUCESSO

Brás (São Paulo – Capital), entre Mooca, Belenzinho, Pari, no começo da Av. Celso Garcia, do seu lado direito, foi inicialmente região onde se concentrou a colonia italiana. Hoje uma população preponderantemente nordestina.

Seu aspecto é de cidade do interior da Bahia ou Pernambuco em dia de feira. Sotaque nordestino, jabá, maniçoba, sarapatel, carne de sol, farinha de copioba, puxa, quebra-queixo, caçuas, girimuns, fê, guê, lê, mê, nê.

Vicente Barreto

Letras:

FACE A

1. MENINA JESUS 
(Tom Zé)comentário:
O nordestino que vem tentar o Sul só pode visitar os seus quando tiver comprado três importantes
símbolos da civilização: um rádio de pilha, um relógio de pulso e um par de óculos escuros.

Valei-me, minha menina Jesus
minha menina Jesus
minha menina Jesus, valei-me.

Só volto lá a passeio
no gozo do meu recreio,
só volto lá quando puder
comprar uns óculos escuros.

Com um relógio de pulso
que marque hora e segundo,
um rádio de pilha novo
cantando coisas do mundo —
pra tocar.

Lá no jardim da cidade,
zombando dos acanhados.
dando inveja nos barbados
e suspiros nas mocinhas…

Porque pra plantar feijão
eu não volto mais pra lá
eu quero é ser Cinderela,
cantar na televisão…

Botar filho no colégio,
dar picolé na merenda.
viver bem civilizado,
pagar imposto de renda.

Ser eleitor registrado,
ter geladeira e tv,
carteira do ministério,
ter cic, ter rg.

Bença, mãe.
Deus te faça feliz
minha menina Jesus
e te leve pra casa em paz.

Eu fico aqui carregando
o peso da minha cruz
no meio dos automóveis,
mas

Vai, viaja, foge daqui
que a felicidade vai
atacar pela televisão

E vai felicitar, felicitar
felicitar, felicitar
felicitar até ninguém mais
respirar.

Acode, minha menina Jesus
minha menina Jesus
minha menina Jesus, acode.

2. MORENA 
(Adaptação: Tom Zé)Morena, minha morena
tira a roupa da janela
vendo a roupa sem a dona
eu penso na dona sem ela.

Meu quarto tem sete andares
reinado da minha vista
eu tenho céu e mar
mas nada disto me conquista.

Meus olhos desocupados
só querem viver seguindo
a tua pista.

Morena, minha morena … … …

Eu ando desarrumado
no trabalho e no amor
até deixei de lado
o meu futuro de doutor

com o dinheiro da escola
comprei uma lente de alcance
e foi um horror…

 

 
3. CORREIO DA ESTAÇÃO DO BRÁS
(Tom Zé)(Revisada como “Feira de Santana”)

Eu viajo segunda-feira

Feira de Santana

quem quiser mandar recado

remeter pacote

uma carta cativante

a rua numerada

o nome maiusculoso

pra evitar engano

ou então que o destino

se destrave longe.

Meticuloso, meu prazer

não tem medida,

chegue aqui na quinta-feira

antes da partida.

Me dê seu nome pra no

caso de o destinatário

ter morrido ou se mudado

eu não ficar avexado

e possa trazer de volta

o que lá fica sem dono.

nem chegando nem voltando

ficando sem ter pousada

como uma alma penada.

De forma que não achando

o seu prezado parente

eu volto em cima do rastro

na semana reticente

devolvo seu envelope

intacto, certo e fechado.

odeio disse-me-disse

condeno a bisbilhotice.

Se se der o sucedido

me aguarde aqui no piso

pois voltando com a resposta,

notícia, carta ou pacote

— ou até lhe devolvendo

o desencontro choroso

da missão desincumprida

estarei aqui na certa

sete domingos seguidos

a partir do mês em frente.

Palavra de homem racha

mas não volta diferente.

 

5. PECADO ORIGINAL
(Tom Zé)

Aquele que nasce pobre
sem nome e sem cabedal
não pode trazer o peso
de um pecado original.

De modo que, de acordo

com o meu requerimento,

perdoado nasce o pobre

a partir deste momento.

O rico não faz questão

de um pecado tão pequeno

ele tem muitas maneiras

de tirar compensação.

Mas não, não pense meu mestre

que eu seja de pouco siso

que aceitando o meu negócio

terás grande prejuízo.

Pois havendo pouco rico

e de pobre um enormanço

imaginei que querias

equilibrar teu balanço.

Nascerão com cada rico

três pecados desses tais

que serão como trigêmeos

muito mais originais.

Sendo um por sua conta

os outros dois se remonta

a uma suave taxa

com que o rico colabora

para o vosso livro-caixa.

E assim a humanidade

com justiça vai viver

e vossa contabilidade

batendo o deve e o haver.

Apregue-se em todo berço

e se reze em todo terço.

4. CARTA
(Tom Zé)Eu preciso mandar notícia

pro coração de meu amor me cozinhar

pro coração de meu amor me refazer

me sonhar

me ninar

me comer

me cozinhar como um peru bem gordo

me cozinhar como um anum-tesoura

um bezerro santo

uma nota triste.

Me cozinhar como um canário morto

me cozinhar como um garrote arrepiado

um pato den´d´água

um saqué polaca.

Eu escrevo minha carta num papel decente

quem se sente

quem se sente com saudade não economiza

nem à guisa

nem dor nem sentimento que dirá papel

o anel

o anel do pensamento vale um tesouro

é besouro

é besouro renitente cuja serventia

já batia

já batia na gaiola e no envelope

e no golpe

e no golpe da distância andei 200 léguas

minha égua

minha égua esquipava, o peito me doía

quando ia

quando ia na lembrança vinha na saudade.

 

 

 

 

 
FACE B
1. LAVAGEM DA IGREJA DE IRARÁ
(Tom Zé)Zé, Zé, Zé Popô
foguete do ar me anunciou
Irará é meu namora
e a lavagem é meu amor

Na Quixabeira eu ensaio
na Rua de Baixo eu caio
na Rua Nova eu me espalho
na Mangabeira eu me atrapalho.

Pulo pra Rua de Cima
valei-me Nossa Senhora
arrepare o remelexo
que entrou na roda agora.

Arriba a saia, peixão
todo mundo arribou, você não.

Melânia, porta-bandeira
com mais de cem companheiras
lá vem puxando o cordão
com o estandarte na mão
em cada bloco de cinco
das quatro moças bonitas
tem três no meu coração
com duas já namorei
por uma eu quase chorei.

Na Lavagem minha alma
se lava, chora e se salva
segunda, lá no Cruzeiro
eu me enxugo no sol quente.
No céu, na porta de espera
sinhá Inácia foi louvada
vendo os pés de Zé-Tapera
São Pedro cai na risada.

Pé dentro, pé fora
quem tiver pé pequeno
vai embora.

Quem chegou no céu com atraso
foi Pedro Pinho do Brejão
que se demorou comprando
quatro peças de chitão.
Mas logo em sua chegada
duzentas saias rodadas
ele deu ao povaréu
e organizou todo mês
lavagem da porta do céu.

Por favor me vista
não me deixe à toa
lá naquela loja
tem fazenda boa
tem fazenda boa
pra sinhá-patroa.

Tem fazenda fina
pra moça grã-fina,
tem daquela chita
pra moça bonita.

2. PECADO, RIFA E REVISTA
(Tom Zé)Pecado, rifa e revista
o pobre paga é à vista.
A felicidade, o conforto,
a alegria e a sorte,
vendeu fiado pra Deus
vai receber depois da morte.

Quando o pobre está quieto
está fazendo pirraça
se está fazendo festa
é o efeito da cachaça.

Se nasce nego do cabelo duro
foi a mãe saltando o muro;
se nasce branco do cabelo liso
ela não teve juízo.

Pecado, rifa e revista
o pobre paga a vista.

 

 

3. A VOLTA DA XANDUZINHA
(Tom Zé)Sofrimento não me assusta
Mariá
é meu vizinho de boas tardes
Mariá

conhecer a ingratidão

isso não
isso não
isso não
quando ela tinha nada
Mariá
eu abri a casa todo
Mariá
Quando precisei dela

Mariô
Mariô
Mariô

Foi, quem sabe, a vaidade
ou os oito boi zebu
ou a casa com varanda
dando pro norte e pro sul
fiz a casinha dela
no manacá
o sapatinho dela
no manacá
e a roupinha dela
no manacá
Cadê agora?
mana, maninha, como é triste recordar

A beleza do seu riso
é demais pra se lembrar
o vestido dos seus olhos
se vestiu pra descansar.

 


4. AMOR DE ESTRADA
(Tom Zé – Washington Oliveto)Vou dirigindo solitário pela estrada
mas te levo na lembrança meu amor
o caminhão amigo chora na subida
fiel a minha dor

coro – Voy dirigiendo solitario pur la ruta
pero llevando mio recuerdo a mi amor
mi camion amigo llora en la subida
fiel a mi dolor

solo – Encontrar-te foi bom
o teu corpo é tão perfeito
que para descrevê-lo
um poema não daria

coro – Então é uma carroceria

solo – Com outras não te trairei
e na estrada não darei
carona pra mulher vadia

coro -Isto até ao meio-dia

solo – Seu guarda me desculpe
ultrapassei oitenta beijos
se multar os lábios dela
vai multar os meus desejos

coro – Ela te quebrou dois eixos

solo – Vou pra perto de ti
se de noite estou cansado
clareando minha estrada
teu olhar iluminado

coro – É um farol desregulado

solo – Vou dirigindo…

coro – Voy dirigiendo…

solo – Vou caminhando
meu caminho,
meu longo caminho:
meu caminhão.

coro – Voy caminando,
mi camino
mi gran camino,
mi camión…

 

 
Fim do LP

5. LÁ VEM CUÍCA
(Vicente Barreto e Tom Zé)O samba caiu na moda
na esquina e na escola,
tamborim ficou de fora
pandeiro pedindo esmola.

E lá vem cuíca,
lá vem cuíca…

O piano da criada
já foi no psiquiatra
o reco-reco que padece
encostou no INPS.

E lá vem cuíca
lá vem cuíca;

As violas reunidas
contrataram advogado
e levaram no ministério
um grosso abaixo-assinado.

Uma reza milagrosa,
eu já fiz até promessa
pedindo a São Noel Rosa
pra socorrer o samba depressa.

E lá vem cuíca
lá vem cuíca

Pode ser um samba triste
partido alto ou maxixe
pode ser um samba à toa
a malvada não perdoa.

E lá vem cuíca
lá vem cuíca.


6. NA PARADA DE SUCESSO
(Tom Zé e Vicente Barreto)Em terceiro lugar vem o nanã de naná
em segundo lugar vem o lerê-le-iê
mas em primeiro lugar, malandro
vem o la-ra-la-iá.

Com o nanã de naná
quando a noite cair
eu apanho a coberta
e na hora certa
o meu bem vai dormir.

Mas o le-re-lei-ê
é pra gente mais fina
coisa quase grã-fina,
assanha na festa
e não vai na seresta.

Mas em primeiro lugar
vem o Messias desta era
que é meu la-ra-la-iá.