Grande Liquidação – 1968 – Sony Music

Ficha Técnica

Produtor: João Araujo
Assistente: Shapiro
Arranajos: Damiano Cozella, Sandino Hohagen
Técnicos de Gravação: Gauss / Reinaldo
Estúdio – Gazeta – S. Paulo
Layout da Capa e fotos: Officina Programação Visual – SP
Participação Especial: Os Versáteis – faixas 2-4-5-6 lado A 3-4-6 lado B
Os Brasões – faixas 1 e 3 lado A

Lado A

1- São São Paulo (Tom Zé)
2- Curso Intensivo de Boas Maneiras (Tom Zé)
3- Glória
4- Namorinho de Portão (Tom Zé)
5- Catecismo, Creme Dental e Eu (Tom Zé)
6- Camelô (Tom Zé)

Lado B

1- Não Buzine Que Eu Estou Paquerando (Rancho e etc. – Hino da LBAP)(Tom Zé)
2- Profissão de Ladrão (Tom Zé)
3- Sem Entrada e Sem Mais Nada (Tom Zé)
4- Parque Industrial (Tom Zé)
5- Quero Sambar Meu Bem (Tom Zé)
6- Sabor de Burrice (Tom Zé)

Somos um povo infeliz, bombardeado pela felicidade.

0 sorriso deve ser muito velho, apenas ganhou novas atribuições.

Hoje, industrializado, procurado, fotografado, caro (às vezes), o sorriso vende. Vende creme dental, passagens, analgésicos, fraldas, etc. E como a realidade sempre se confundiu com os gestos, a televisão prova diariamente, que ninguém mais pode ser infeliz.

Entretanto, quando os sorrisos descuidam, os noticiários mostram muita miséria.

Enfim, somos um povo infeliz, bombardeado pela felicidade.(As vezes por outras coisas também).

É que o cordeiro, de Deus convive com os pecados do mundo. E até já ganhou uma condecoração.

Resta o catecismo, e nós todos perdidos.

Os inocentes ainda não descobriram que se conseguiu apaziguar Cristo com os previlégios. (Naturalmente Cristo não foi consultado).

Adormecemos em berço esplêndido e acordamos cremedentalizados, tergalizados, yêyêlizados, sambatizados e miss-ificados pela nossa própria máquina deteriorada de pensar.

“-Você é compositor de música “jovem” ou de música “Brasileira”?”

A alternativa é falsa para quem não aceita a juventude contraposta à brasilidade.. (Não interessa a conotação que emprestam à primeira palavra).

Eu sou a fúria quatrocentona de uma decadência perfumada com boas maneiras e não quero amarrar minha obra num passado de laço de fita com boemias seresteiras.

Pois é que quando eu abri os olhos e vi, tive muito medo: pensei que todos iriam corar de vergonha, numa danação dilacerante.

Qual nada. A hipocrisia (é com z?) já havia atingido a indiferença divina da anestesia…

E assistindo a tudo da sacada dos palacetes, o espelho mentiroso de mil olhos de múmias embalsamadas, que procurava retratar-me como um delinqüente.

Aqui, nesta sobremesa de preto pastel recheado com versos musicados e venenosos, eu lhes devolvo a imagem.

Providenciem escudos, bandeiras, tranqüilizantes, anti-ácidos, antifiséticos e reguladores intestinais. Amém.

TOM ZÉ .

P.S.

Nobili, Bernardo, Corisco, João Araújo, Shapiro, Satoru, Gauss, Os Versáteis, Os Brazões, Guilherme Araújo, O Quartetão, Sandino e Cozzela, (todos de avental) fizeram este pastel comigo.

A sociedade vai ter uma dor de barriga moral

O mesmo

Letras:

LADO A

1. São São Paulo
(Tom Zé)
2. Curso Intensivo de Boas Maneiras
(Tom Zé)
São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amorSão oito milhões de habitantes
De todo canto e nação
Que se agridem cortesmente
Correndo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor
São oito milhões de habitantes
Aglomerada solidão
Por mil chaminés e carros
Gaseados a prestação
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peitoSão São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor

Salvai-nos por caridade
Pecadoras invadiram
Todo o centro da cidade
Armadas de ruge e batom
Dando vivas ao bom humor
Num atentado contra o pudor
A família protegida
O palavrão reprimido
Um pregador que condena
Um festival por quinzena
porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor

Santo Antonio foi demitido
E os ministros de Cupido
Armados da eletrônica
Casam pela tevê
Crescem flores de concreto
Céu aberto ninguém vê
Em Brasília é veraneio
No Rio é banho de mar
O país todo de férias
E aqui é só trabalhar
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito

São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor

 

Fique à vontade 
Tiau, good bye,
Ainda é cedo,
Alô, como vai?
Com Marcelino vou estudar
Boas maneiras
Pra me comportar.Primeira lição: deixar de ser pobre,
Que é muito feio.
Andar alinhado
E não frequentar, assim, qualquer meio.
Vou falar baixinho,
Serenamente, sofisticadamente,
Para poder com gente decente
Então conviver.Fique à vontade, …. …. etc.

Da nobre campanha 
Contra o desleixo
Vou participar
Pela elegância e a etiqueta
Vou me empenhar
Entender de vinhos, de salgadinhos,
Esnoberrimamente,
Trazer o País 
sob um requinte intransigente.

Fique à vontade, … …, etc.

3. Glória
(Tom Zé)
4. Namorinho de Portão 
(Tom Zé)
Como um grande chefe de família
ele soube sempre encaminhar
seus filhos para a glória
glória, glória eterna.Mas aguardando o dia do juízo
por segurança foi-lhes ensinando
a juntar muito dólar
dólar, dólar na terra.Ensinou-lhes bem cedo a defender
a família e a tradição
balançando a bandeira do bem
o pecado punir sem perdão.

Mas nos seus pequenos erros
preferir a casa alheia
ressalvando a discrição
e tudo isso ensinou
com poucas palavras
e muitas ações.

Ensinou-lhes bem cedo que a honra
todos devem cultivar
entretanto, ao tomar decisões
ela nunca deve atrapalhar.

Mostrou que as boas razões
a causa justa é que é nobre
convive é com os milhões
e tudo isso ensinou
com poucas palavras
e muitas ações

Namorinho de portão,
Biscoito, café,
Meu priminho, meu irmão…
Conheço essa onda,
Vou saltar da canoa,
Já vi, já sei 
Que a maré não é boa
É filme censurado
E quarteirão
Não vai ter outra distração.Bom rapaz, direitinho 
Desse jeito não tem mais (Bis)O papai, com cuidado
Já quer saber sobre o meu ordenado
Já pensa no futuro
E eu que ando tão duro
Não dou pra trás,
Entro de dólar e tudo,
Pra ele o mundo anda muito mal,
Lá vem conselho e coisa e tal.

Bom rapaz, direitinho, etc. etc.

Eu agüento calado
Sapato, chapéu,
O seu papo furado,
Paris, lua de mel,
A vovó no tricô,
Chacrinha, novela,
O blusão do vovô,
Aquele tempo bom que já passou
E eu, de “é”, de “sim”, de “foi”.

Bom rapaz, direitinho, etc. etc.

 

5. Catecismo, Creme Dental e Eu 
(Tom Zé)
6. Camelô
(Tom Zé)
Vou morrer nos braços da asa branca,
No lampejo do trovão
De um lado ladainha,
Sem soluço e solução.Nasci no dia do medo
Na hora de ter coragem
Fui lançado no degredo
Diplomado em malandragemCaminho, luz e risco,
Aflito, 
Xingo, minto, arrisco, tisco,
E por onde andei
Eu encontrei o bendito fruto em vosso dente,
Catecismo de fuzil 
E creme dental em toda a frente.

Pois um anjo do cinema
Já revelou que o futuro
Da família brasileira
Será um hálito puro.

Nasci no dia do medo, etc. etc.

Pinta -la – inha
Da cana vintinha
Mandei dizer pro meu amor
Faça a cama na varanda
E não esqueça o cobertor

Não quero ser cantador
Só fazer valentia
Também gasto heroísmo
Nos braços de uma Maria.
Nos braços de uma Maria.

Ó português, pare de uma vez
De se queixar assim
Da sua sorte ruim
Eu que sou filho daqui, sou camelô
E você vem das Portugas, querendo ser doutor
Mas que horrorCalcule só
O que é viver o tempo todo
Perseguido pelo rapa
Porque na hora da corrida
Quem não sabe usar as pernas
Vai ficar sem ter comida
E veja láFarinha seca quantas vezes me faltou
A carne na minha boca
É coisa rara, sim senhor
Lá em casa não tem água na torneira
E vá logo sabendo
Lá também não tem torneira

Não vou mais em festas
Casamento ou batizado
Pois o meu guarda-roupa
Anda um pouco desfalcado
E quando chega o carnaval tão animado
Pra comprar fantasia
Faço um abaixo-assinado
E ainda tem assinante
Que é na base do fiado

LADO B

1. Não Buzine Que Eu Estou Paquerando
(Tom Zé)
2. Profissão de Ladrão
(Tom Zé)
Sei que o seu relógio
Está sempre lhe acenando                    BIS
Mas não buzine
Que eu estou paquerandoEu sei que você anda
Apressado demais
Correndo atrás de letras,
Juros e capitais

Um homem de negócios 
Não descansa, não:
Carrega na cabeça
Uma conta-corrente

Não perde um minuto
Sem o lucro na frente
Juntando dinheiro,
Imposto sonegando,

 Passando contrabando,
 Pois a grande cidade não pode parar        (BIS)             

Sei que o seu relógio está sempre lhe acenando,
Mas não buzine, que eu estou paquerando

A sua grande loja
Vai vender à mão farta
Doença terça-feira,
E o remédio na quarta,

Depois em Copacabana e Rua Augusta,
Os olhos bem abertos,
Nunca facilitar,
O dólar na esquina
Sempre pode assaltar

Mas netos e bisnetos
Irão lhe sucedendo
Assim, sempre correndo,
Pois a grande cidade não pode para

Deram parte ao delegado
Que eu era filho vadio
Semana que eu não trabalhava
Sustentava mulher com cinco fioO delegado me intimou
Pr´eu ir na delegacia
Fui prestar depoimento
Daquilo que eu nem sabia

Mas eu tenho tanta profissão
Que já nem sei contar
Inventor, industrial, até cirurgião

Em muita gente que não presta fiz
intervenção
Vou lhe contar

Que no fabrico de boneco sou industrial
Mas vosmicê guarde segredo pela caridade
Pois eu atendo a domicílio na sociedade
E como inventor me orgulho porque eu
Já honrei a memória de Santos Dumont
Inventei um maquinário
Ainda lá na minha terra
Fabricava mil cruzeiros
Mais bem-feito que os da Inglaterra

Sei que quem rouba um, é moleque
Aos dez, promovido a ladrão
Se rouba 100 já passou de doutor
E 10 mil, é figura nacional
E se rouba 80 milhões…
É a diplomacia internacional
A “Boa Vizinhança” e outras tranças

É que na profissão de ladrão
Injustiça e preconceito
Dá chuva pra inundação
Para alguns fama e respeito
Pra outros a maldição
Pois o tamanho do roubo
Faz a honra do ladrão

E é por isso que eu só vou para o xadrez
Seu delegado
Se o senhor trouxer primeiro
Toda a classe para o meu lado
Mas neste dia de aflição
Não vai ter prisão no mundo
Pra caber a multidão

Eu sei que não sou delicado
Mas quem se deu por ferido
Foi porque tem seu pecado

3. Sem Entrada e Sem Mais Nada 
(Tom Zé)
4. Parque Industrial 
(Tom Zé)
Sem entrada e sem mais nada,
Sem dor e sem fiador
Crediário dando sopa
Pro samba eu já tenho roupa,
Oba, oba, oba ….Sem entrada e sem mais nada,
Sem dor e sem fiador,
E ora veja, antigamente
O fiado era chamado
“Cinco letras que choram”
E era feio: um rapaz educado
Não dizia palavrão, 
Não comprava no fiado
Nem cuspia pelo chão.

Mas hoje serenamente
Com a a minha assinatura
Eu compro até alfinete, 
Palacete e dentadura.
E a caneta para assinar
Vai ser também facilitada.

Sem entrada e sem mais nada, etc. etc.
Cinco letras que choram: 
Já se via um cartaz dentro da loja
Pra cortar a intenção
Mas o fiado que era maldito
Hoje vai de mão em mão

Você compra troca e vive
Sufocado, a prestação,
Vou propor no crediário
A minha eterna salvação
E a gorjeta de São Pedro
Vai ser também facilitada.

Retocai o céu de anil
Bandeirolas no cordão
Grande festa em toda a nação.Despertai com orações
O avanço industrial
Vem trazer nossa redenção.

Tem garota-propaganda
Aeromoça e ternura no cartaz,
Basta olhar na parede,
Minha alegria
Num instante se refaz

Pois temos o sorriso engarrafado
Já vem pronto e tabelado
É somente requentar
E usar,
É somente requentar
E usar,
Porque é made, made, made, made in Brazil.
Porque é made, made, made, made in Brazil.

Retocai o céu de anil, … … … etc.

A revista moralista
Traz uma lista dos pecados da vedete 
E tem jornal popular que
Nunca se espreme
Porque pode derramar.

É um banco de sangue encadernado
Já vem pronto e tabelado,
É somente folhear e usar,
É somente folhear e usar.

5. Quero Sambar Meu Bem
(Tom Zé)
6. Sabor de Burrice
(Tom Zé)
Quero sambar,
meu bem
quero sambar
também
não quero é vender
flores
nem saudade
perfumada
quero sambar,
meu bem
quero sambar
também
mas eu não quero
andar na fossa
cultivando tradição
embalsamadameu sangue é de
gasolina
correndo, não tenho
mágoa
meu peito é de
sal de fruta
fervendo no copo
d´água
Veja que beleza
em diversas cores
veja que beleza
em vários sabores
a burrice está na mesaensinada nas escolas
universidade e principalmente
nas academias de louros e letras
ela está presente
e já foi com muita honra
doutorada honoris causa
não tem preconceito ou ideologia
anda na esquerda, anda na direita
não tem hora, não escolhe causa
e nada rejeita

veja que beleza
em diversas cores
veja que beleza
em vários sabores
a burrice está na mesa

refinada, poliglota
ela é transmitida por jornais e rádios
mas a consagração
chegou com o advento da televisão
é amigo da beleza
gente feia não tem direito
conferindo rimas com fiel constância
tu trazes em guarda
toda concordância gramaticadora
da língua portuguesa
eterna defensora