Nave Maria – 1984 – RGE

Músicas

1. NAVE MARIA
2. MAMAR NO MUNDO
3. SU SU MENINO MANDU
4. CILINDRADA
5. IDENTIFICAÇÃO
6. NENÉM GRAVIDEZ
7. ACALANTO NUCLEAR
8. CONTO DE FRALDAS
9. MESTRE-SALA
10. TEU OLHAR

Letras:

NAVE MARIA 

Dudu, bidu, bidu, bidu, bi
mama água

Dudu, bidu, bidu,
papá, dá, dá-á

Quando eu cheguei das estrelas
entrei na terra
por uma caverna
chamada Nascer

E eu era uma nave
uma ave
da ave-maria
e como uma fera
que berra
entrei
na atmosfera

E cuspido, espremido,
petisco de visgo,
forçando a passagem
pela barreira,
sangrando, rasgando,
subindo a ladeira,
orgasmo invertido,
gritei quando vi:
já estava respirando.

MAMAR NO MUNDO 

Oh! mamãe,
eu quero é mamar no mundo.
Quero, papai,
saber no fundo.

Negar a boca do pai 
para eu mesmo descobrir,
desesperar-me de medo
perante cada segredo

Eu sofro de juventude
essa coisa maldita
que quando está quase pronta
desmorona e se frita.

Negar tudo que é sagrado
para aprender a rezar
entrar no quarto da lua,
vestir a língua da rua.

Eu sofro de juventude (etc.)

 

 
SU SU MENINO MANDU 

Su, su, menino mandu
olho de gato
nariz de peru

mais tarde quando a noite cair
eu levo cedo meu bem pra dormir
se o vento vem ver a janela aberta
eu mesmo é que sou a coberta

 

IDENTIFICAÇÃO 

impulsos de medo, 103
sintomas neuróticos, 33
propaganda consumida, 1 106
I, iden
ti-fi-ca-ção    
(identificação)

cabelos prê
olhos castan
nascimento onze do dé de trinta e sê

alerê-ê-ê-ê
alerê-ê-ê-ê

rg 4654743 São Paulo hum hum 
cic dois meia cinco nove zero barra zero zero huuum

alerê …

inps 4 7 3 1 3 8 5 3 hum hum 
Ordem dos Músicos 085zé Irará Bahia ia iá

Tempo de vida previsto para o cidadão: 
600 mil horas de vida;
abatimento pelo consumo de alimentos envenenados
refrigerantes, remédios e enlatados: 1 125 horas
abatimento pelo salário amarrado
suado, apertado: 1 125 horas
abatimento pelo medo de doenças incuráveis
como cólera e meningite: 1 125 horas

Fio de seu Éwerton e de dona Helena,
testemunhando seu Teófilo e Zé Petu,
ô, Zé Petu.

CILINDRADA 

A cilindrada fina

meninamorada

me deixou na mão

curto-circuito, pô!,

que martelouqueceu

também meu coração.

Quanta paquera

paquê, paquerei

para me vingar daquela dor,

500 watts, queimando óleo diesel

e distorção: pirou meu transmissor

pirou meu transmissor.                 

E me doía

na pele

no pêlo

tirado por minha

maldita patota

que me lembrava

da pele

do pêlo

(veludo)

daquela cocota.

Que foi viver

sua vida de

suavidade

pelas bocas e me desmamou

quando me deixou:

o meu ouvido, que andava

pregado na saia dela

pra ficar escutando o raspar da sua coxa

ela desligou.

A cilindrada fina

meninamorada

me deixou na mão

curto-circuito, pó!,

que martelouqueceu

também meu coração

 
NENÉM GRAVIDEZ 

tirá-tuá
tirá-tuá
ce ce
tua tuá
tira gudei
cei cei
tirá-gudai
cai-cai
tirá-suti-a-tuá
tira-suti-a-tutu-á
tira-tu-ei
tuei tueiI
tira-suti-a-tuá

Neném, me tira dessa gravidade
me mete nessa gravidez
neném, me tira dessa gravidade
por essa graça gra 
sagrá sagrá–avidez

por essa grassa-gra sagrá
sagrá sagrá-a-avidez

me tira desse dia-a-dia
no mato me tira o sapato
pela alça me pendura a calça
se musa não anda de blusa
me salva do computador
alô alô amor

ACALANTO NUCLEAR 

Vem
meu bem
só posso agora te ninar

no colo
quente
da bomba nuclear

deita o desespero
no meu travesseiro

 

 
CONTO DE FRALDAS

Penso: que pena 
que seja pouco
só penso pensamento
que possa te procurar,
de cá, de lá, menina

baile beijinho
beijo beijoca
o b da brincadeira
brinquedo balbuciar, ciar
ciar, menina

tim-tirim-tirim-tim
tirim-tirim-tim
tirim
my love lua da lenda longe me leva lá

no dia que te conheci
eu ainda molhava a cama
mo-lha-va-a-cama-á-á-á

 

MESTRE-SALA 

O mestre-sala me tomou por uma negra,
roubou a minha noite
para o brilho das estrelas.
Doce é tê-las
sob as telhas.

O mestre-sala me tomou por um poema,
roubou a minha rima
para a musa do cinema
que me acena
nesta cena.

Me tomou por um pavão.
roubou as minhas penas,
foi dançar pro rei de Atenas.

Me tomou por uma chita,
pintou-me toda de flores
e alegrou comendadores.

Me tomou por vagalume,
levou-me a luz acesa
para os olhos da princesa.

O mestre-sala, ele viu que eu era santa
despiu-me sem vidraça
para estranhos numa praça
pra sagrar-me,
pra sangrar-me.

pra sangrar-me.

 

O mestre-sala me tomou por um perfume,
levou-me com a brisa
para o rei na sua frisa
à guisa de
amizade.
Me tomou por paisagem
roubou a minha vista
para os olhos da turista.

Me tomou por uma fada,
levou minha varinha
pros desejos da rainha.

Me tomou por mel de abelha,
levou minha doçura
pro jantar da prefeitura.

 

 
TEU OLHAR

Quando é dia
teu olhar
água clara
teu olhar
pela fresta
do olhar
procurava
teu olhar
minha alma, minha calma, estrela-dalva

Ventre, serpente, lua,
coisa tua,
rosa só de mucosa,
coisa crua,
muda, carnuda, seda,
ser da vida
sede viva
veio no apelo me rogar.

Ida 
na proibida
idade, pois
arde
que seja tarde

Ardilosa, dosa prosa sinuosa
estrela-guia
que me salva quando chega o dia.