Tom Zé – 1970

Ficha Técnica

Direção da Produção: João Araújo
Coordenação: Shapiro
Arranjos : Chiquinho de Morais , Hector  Lagnafietta e Capacete
Estúdio: Gazeta – S. Paulo
Layout : Nicolau
Participação vocal de Baby Consuelo em “Jeitinho Dela”

 

Lado A

1- Lá Vem a Onda (Tom Zé / Anderson Benvindo)
2- Guindaste a Rigor (Tom Zé)
3- Distância (Tom Zé- João Araújo- Laís Marques )
4- Dulcinéia Popular Brasileira (Tom Zé)
5- Qualquer Bobagem (Tom Zé- Mutantes)
6- O Riso e a Faca (Tom Zé)

Lado B

1- Jimmy, Renda-se (Tom Zé– Valdez)
2- Me Dá, Me Dê, Me Diz (Tom Zé)
3- Passageiro (Tom Zé)
4- Escolinha de Robô (Tom Zé)
5- Jeitinho Dela (Tom Zé)
6- A Gravata (Tom Zé)

 

Palavras da Contracapa

As melhores ideias deste disco, devem ser divididas com os meus alunos de composição da SOFISTI-BALACOBACO (muito som e pouco papo) e com Augusto de Campos.

Foi, por exemplo, um exercício proposto a Ricardo Silva e Ciumara Catto (Limeira-SP) o ponto de partida que nos levou à “Guindaste a Rigor”.

Elio Manoel e Aderson Benvindo (parceiro em : Lá vem a onda”) que trabalharam quase com febre; Beto Matarazzo e Durval do “SESC”, que têm um senso crítico muito agudo; João Araújo, Lais Marques e Valdez, parceiros em “Distância”e “Jimmy Renda-se”; todos ajudaram muito.

Aproveito a ocasião para informar que a Prefeitura de São Paulo não me pagou até agora o prêmio do 1o. lugar (São Paulo, meu Amor) do Festival da Record de 1968 e até começou a dizer que não assumiu esta obrigação.

TOM ZÉ .

Letras:

LADO A

1. Lá Vem a Onda
(Tom Zé/ Anderson Benvindo)
2. Guindaste a Rigor
(Tom Zé)
Lá vem a onda
que vai me levar
pra casa dela
eu sou escravo,
ela é canela
eu sou o crime,
ela é a cela
eu sou a fera,
ela é a bela
eu sou a noite,
ela é a vela
eu sou o chope,
ela é a fivela
eu sou aquele,
ela é aquela
Ela, ela, ela,
ela, ela-la-la-la

Suça sucinha
sucê sassarica
sossegá sou seu
só seu

Eu quero um trem de doze vagões
Pra marcar o compasso que eu vou cantar
Quero dez máquinas de concreto
Porque não gosto de violino
Quero um discurso do Nero
Para fazer contraponto
Doze motocicletas no lugar do contrabaixo
Para reger o conjunto, um guindaste à rigor
E na hora do breque um belo assopro de coca-cola
Ah, ah, ah que cola

A tonalidade é ré sustenido bem claro
Ou mi colorido bemol
Sidomidelamefalasemsirelanosolfa

Para parceiro na letra
Satanás de babydoll
Ou um camundongo sádico que tem a língua vermelha
E no fim da primeira parte deixe a Brigitte Bardal

Mas hora veja:
Enquanto eu cantava
O verbo enganado
Com a língua do poeta enrolada no pescoço
Pendurado sem socorro
Já parou de balançar as pernas
Já parou de balançar as pernas
Já parou de balançar as pernas
Já parou de balançar as pernas
Já parou

3. Distância
(Tom Zé- João Araújo- Laís Marques )
4. Dulcinéia Popular Brasileira
(Tom Zé)
Meu bem a tristeza
me persegue
segue comigo
o gosto de sorrir
só rimava
no som dos teus olhos.

E vi desmanchar-se
em desgosto,
gosto por gosto
e a dor me procura
na amargura
de tanta distância

As luzes da cidade
não acendem mais pra mim
as coisas que eu cantava
já não cantam mais pra mim
não adianta nada,
pra mim tudo se acaba
nesta dor sem fim.

Chora, chora, chora
Chora mas não se demora
Mora, mora
Mora que ninguém dá bola

Chora, chora, chora
Chora mas não se demora
Mora, mora, mora
Mora que ninguém dá bola

Compre sob receita médica
Sua fossa se vitaminada
E chore pela Dulcinéia
Dulcinéia Popular Brasileira
Que em cada festival fica mais enferrujada
Há há há

Chora, chora, chora
Chora mas não se demora
Mora, mora
Mora que ninguém dá bola

Conselho de psiquiatra
Dá mais pé que o da mamãe
Compre logo seu saquinho plástico
Com a fossa bem concentrada
Garantida por dois anos
Manda em gelo conservada
Há há há

Chora, chora, chora
Chora mas não se demora
Mora, mora
Mora que ninguém dá bola

Chora, chora, chora
Chora mas não se demora
Mora, mora
Mora que ninguém dá bola

Chora logo

5. Qualquer Bobagem
(Tom Zé- Mutantes)
6. O Riso e a Faca
(Tom Zé)
Chegue perto de mim
não precisa falar
acenda o meu cigarro
não queira me agradar
queira

Ouça esta canção
ou qualquer bobagem
deixa o coração falar

Que mais? Sei lá…

Quero ser o riso e o dente
quero ser o dente e a faca
quero ser a faca e o corte
em um só beijo vermelho

Eu sou a raiva e a vacina
procura de pecado e conselho
espaço entre a dor e o consolo
a briga entre a luz e o espelho

Fiz meu berço na viração
eu só descanso na tempestade
só adormeço no furacão

LADO B

 
1. Jimmy, Renda-se 2. Me Dá, Me Dê, Me Diz
(Tom Zé/ Valdez ) – Sonata

Guta me look mi look love me

Tac sutaque destaque tac she

Tique butique que tique te gamou

Toque-se rock se rock rock me

Bob Dica, diga,

Jimi renda-se!

Cai cigano, cai, camóni bói

Jarrangil century fox

Galve me a cigarrete

Billy Halley Roleiflex

Jâni chope chope chope chope

Ô Jâni chope chope

Ie relê reiê relê

(Tom Zé)

Ô, menina pinta lainhá, iê,
Biriti-guiri me dá
Biriti-guiri me dê
Biriti-guiri me diz
Biguidiz me diga logo tudo
Será serê serô se diz
Serei teu par
Será serê serô se diz
Serei teu par
Beco bico de batom eh rê!
Peça pinta pusserê, oh!
Riso piso bisco liso oh!
Brinco rindo tiritingo oh!
Colorido verde-branco
Verde-branco colorido
Ô, me pendura
Na corrente rente rente

3. Passageiro 4. Escolinha de Robô
(Tom Zé)

Sigo por uma estrela
volto por teu sossego
a mala, o casaco, até logo
um beijo
na volta eu te conto um segredo

A flor disse a primavera
o rei disse ao passarinho
eu tenho um segredo
pra você também
em um laço de fita de carinho

A noite, o vento frio,
a solidão
bebendo teu sorriso,
todo porto é meu amigo

(Tom Zé)

Todo mundo pronto pra começar
Cada qual por ordem no seu lugar
A corrente é 110
Vamos ligar
E já vai 1 e 2 e 3 e 1 e 2 e 3 e 1 e2 e 3 e já
Ao sentar-se dobre a perna pelo joelho
E se alguém lhe falar
É desgraça que vai, é desgraça que vem
Ha, ha, ha, queira sorrir, é permitido
Faça alguma orações por dia
Depois mande a consciência junto com os lençóis pra lavanderia

Ao sorri abra os lábios docemente
E se alguém te falar, da desgraça

5. Jeitinho Dela 6. A Gravata
(Tom Zé)

A revista provou
o jornal confirmou
pela fotografia,
que nos olhos dela
tem sol nascendo.

Mas não se explica,
nem se justifica
por que naquele dengo
do sorriso dela
a cidade
acabou se perdendo.

No jeitinho dela
botei o passo
no compasso dela
caí no laço
no abraço dela
me desencaminhei
no caminho dela
me desajeitei.

No jeitinho dela, no jeitinho
no jeitinho dela, no jeitinho.

Que ferve panela
quando falta gás
mas quanta gente boa
já trocou sua paz…

Pelo jeitinho dela,
um cientista
no jeitinho dela
disse na tevê
que o jeitinho dela
tem um micróbio
no jeitinho dela
que faz miolo derreter.

No jeitinho dela
no jeitinho dela

Geladeira já teve febre
penicilina teve bronquite
Melhoral teve dor de cabeça
e quem quiser que acredite

No jeitinho dela
vou me perder
no jeitinho dela

(Tom Zé)

A gravata já me laçou
a gravata já me enforcou
amém

A gravata já me laçou
a gravata já me enforcou
amém

Um cidadão sem a gravata
é a pior degradação
é uma coroa de lata
é um grande palavrão
é uma dama sem pudor
estripitise moral
é falta de documento
é como sopa sem sal

Tem a gravata borboleta
com o bico inclinado
tem a gravata caubói
com o rabinho duplicado

Tem a gravata de laço
que desce do colarinho
molenga como uma tripa
que se deita na barriga

Ela é a forca portátil
mais fácil de manejar
moderna, bem colorida,
para a vítima se alegrar
é um processo freudiano
para a autopunição
com o laço no pescoço
e a fé no coração