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A
primeira imagem que vem à mente quando se pensa em Tom Zé é a do compositor baiano,
franzino, barba e cabelos despreocupados e uma ironia sempre na ponta da língua, pronta
para ser dita.
Misto de artista e intelectual, energia criadora e provocadora e cabeça pensante,
Antônio José Santana Martins deixou Irará, no interior da Bahia, ainda jovem e sempre
trabalhou com a produção do impacto, antes, durante e depois de ter integrado o
movimento tropicalista.
Cantor, compositor, inventor de Instrumentos, estudioso da música, Tom Zé quase desistiu
da carreira há cerca de dez anos, desiludido com o que ele chama de 'os anos de
ostracismo'. Resgatada pelo ex-Talking Heads David Byrne, a trajetória de Tom Zé
experimentou um |
| bem-sucedido retorno nos EUA, o que o motivou a continuar. Prestes a
retomar sua veia de construtor de instrumentos, Tom Zé nos recebeu para uma entrevista,
na qual falou sobre gravação caseira, músicas inéditas, métodos de composição, a
infância no Nordeste, o início da carreira, David Byrne e mais uma infinidade de
informações recheadas de cultura geral e sabedoria popular. |
EDITORIAL
Baiano de Nascimento. Paulista por opção. Músico por Insistência. Tom Zé é
o Tropicalismo vivo. Poeta, busca lirismo na influência árabe da língua. Irreverente,
critica o sistema e a mídia. Criador, inventa seus próprios instrumentos em busca do som
ideal. A cultura adquirida na infância e adolescência no Nordeste ainda mexem com a
cabeça do compositor. E pensar que a música quase o perdeu para um posto de gasolina . A
desilusão com o ostracismo a que foi relegado fez Tom Zé pensar em se afastar da
música. A mão salvadora de David Byrne colocou o compositor no caminho certo. Que o diga
o New York Times. Tom Zé lançou em 98 o CD Com defeito de Fabricação no exterior e
agora prepara seu lançamento no Brasil. Mas a mente não pára e um novo trabalho já
está sendo elaborado. Coisa de quem pensa música. Vive música ! |
É verdade que você ainda tem muitas músicas ainda inéditas no baú?
Tom Zé: Esse negócio do baú, que na verdade são as
músicas que você tem e que não são levadas a disco, eu tenho realmente como se fosse
um Dr. Jeckill, que tivesse uma noite de assassino e um dia de filhinho de mamãe.
Brincando, né ?, porque não são tão diferentes. Mas, por exemplo, eu tenho uma música
toda composta para cantar sozinho no teatro, só com violão, e uma música com um tipo de
arranjo, com uma estrutura um pouco estranha aos arranjos que são feitos no mundo hoje e
que abriu espaço para mim nos E.U.A e na Europa.
Mas o que te abriu as portas nos Estados Unidos foi este lado de
arranjos mais intrincados e não essa dualidade, né?
Tom Zé: É. Porque a outra face é uma coisa
que depende muito da língua portuguesa. Inclusive, muitas vezes são histórias ligadas
ao Brasil, onde a língua ainda prevalece como informação, e também aos resquícios da
língua no interior da Bahia, às palavras, aos usos e costumes, ou, então brincadeiras
com a língua, como na música Medo de Mulher, onde as palavras vão eternamente
fazendo eco (ver box). Brincadeiras como essa, onde a língua é muito importante, não se
pode cantar nem para americano nem para americano que sabe português, pois eles não vão
ter tempo de compreender.É uma coisa que a pessoa precisa ter um grande traquejo na
língua para poder acompanhar um pouquinho. Agora que eu tenho assentamento da minha
profissão de artista, eu estou pensando em gravar essas coisas para o consumo de uma
imensidão de pessoas dos anos de ostracismo. Porque, durante os anos de ostracismo, eu
só podia apresentar esse tipo de coisa em uns espetáculos vegetativos da cidade de São
Paulo, no SESI, SESC, coisas da Prefeitura, Diretórios Acadêmicos principalmente... |
O que você chama de anos de ostracismo?
Tom Zé: Entre 1973 e 1990, eu fui meticulosamente
esquecido e tirado da história, como se eu fosse o Trotski da Revolução Bolchevista
(risos). O Stalin do sucesso tirou minhas fotos de todos os lugares. Não há nenhum
porquê. No quinto aniversário do Tropicalismo, as pessoas ainda me colocavam. No
décimo, um pouco menos. No décimo-quinto, o Stalin tirou minha imagem das fotografias. |
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Medo de Mulher
A Dora me botou fora /
A Bil me despediu /
A Marta nenhuma carta /
Dorete nenhum bilhete /
Duquinha nenhuma linha /
Zenaide nem good bye...
(trecho) |

Esquema em computador para a disposição em palco e execução dos instrumentos
experimentais, como o feito com colheres (acima).

Fotos de Arquivo Pessoal
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Quem é o Stalin?Tom Zé: O Stalin é o
consumo. É a gangorra da mídia. E essa disputa de mercado é comum. A vida humana é
assim mesmo, todos nós.
Então, o fato é que você passou nesse período de ostracismo
a trabalhar essas músicas violão-e-voz em São Paulo?
Tom Zé: Sim. Eu posso lhe indicar umas testemunhas
que viram tardes ou noites grandiosas. Roberto Santana, por exemplo, que era diretor da
Polygram durante os anos 70, uma vez veio ver um show meu no SESI da Avenida
Paulista num domingo de manhã, outra das coisas vegetativas. Ele entrou, o auditório
estava imensamente cheio, como é comum aqui em São Paulo na classe estudantil... Aí
Roberto entrou, assistiu ao espetáculo e disse: "pô, mas o que é isso?! O que
está acontecendo? Você entra num espetáculo de um artista desconhecido, que não é
nada, que ninguém sabe o que é. |
| Durante duas
horas ele é a maior glória que se pode imaginar, com o público morrendo de rir, pedindo
bis dez vezes, gritando, cantando as músicas, o diabo... O que é isso? Tá errado isso!
Esse cara é um 'ostracisado' ou qualquer outra palavra mais correta. Não pode estar
fazendo esse sucesso!". Eu quero contar uma coisa gozada a vocês. Um amigo meu, um
senhor que era diretor da Continental, um dia disse assim: "porra, não é possível,
esse Tom Zé é tão falado, eu mesmo gosto dele e tantas pessoas importantes
falando..." Ele, então, veio a minha casa para assistir a isso, querendo me levar
para gravar. Veio almoçar comigo e, antes do almoço, eu toquei as músicas para ele.
Resultado: ele, passou mal e não almoçou. Por causa dos arranjos?!
Tom Zé: Música estranha, né? Ele tem um trabalho
lá na gravadora e tem a esperança de que aquele trabalho vá alimentar a família dele.
Quando ele viu, eu acho que passou mal, porque pensou: "como é que eu vou levar isso
para a gravadora?". Ele passou mal pelo desespero interior em que ficou. Eu vi que o
trabalho estava difícil para eles digerirem. Não é só não ser comercial, porque eu
não quero ser um anarquista total. Eu não quero dizer "o mercado é uma merda! Eu
não tô ligando". Não. Eu quero ter idéias, adaptá-las, transformá-las numa
coisa bem feita, profissionalmente bem acabada, com uma sintaxe racional,
cartesiana, compreensível, para as pessoas terem facilidade de acesso. Não quero botar
uma coisa em estado bruto, porque isso é até antiprofissional. Eu não sou nenhum como
aquele que Umberto Eco chama apocalíptico (risos). Eu sou mais integrado. Mas, como eu
não sou um mestre, um homem capaz de fazer uma melodia bonita e ganhar a vida com isso -
Deus não me deu isso, graças a Deus! -, eu tenho que partir para um universo da
invenção. Logo que eu comecei a aprender violão, aos 17 anos, eu tentei fazer
canções. Em 1953, não era ainda a bossa nova, mas já tinha na Rádio Nacional as
músicas brasileiras clássicas, Nora Ney, estava chegando o Antônio Maria com aquela
letra despojada ("E não posso esquecer um momento sequer/ Vivo pobre de amor à
espera de alquém, e esse alquém não me quer / Se outro amor em meu quarto bater, eu
não vou atender). Eu tentei fazer canções desse nível e vi que era incapaz. |
Maria Bago Mole
Pierre se requebra /
Rufino bota pó
Euclides morde o braço /
Das Dores fala só...
...e aí a música vai até chegar em
Lucinha sobe e desce
Tiririca bole bole
Mas todos passam o dedo em Maria Bago Mole...
(trecho)
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Eu não tinha
profissão, não tinha futuro, não tinha nada, não gostava da escola, não sabia o que
eu iria ser e queria me afirmar de qualquer jeito. Até o dia em que eu chequei a seguinte
conclusão: o que interessa é que a pessoa fique três minutos, como média, né?, na
minha frente me ouvindo. E eu posso fazer qualquer coisa, tocar qualquer coisa, seja bem
ou seja mal feito, contanto que crie interesse. Aí eu comecei a fazer as maluquices, que
são essas coisas como a Maria Bago Mole, que é a música para os doidos de
Irará. Irará é uma cidade pequena e os doidos circulavam pelo comércio para receber
alguma coisa. Os doidos eram conhecidos, circulavam, e eu fiz a canção. É uma coisa bem
teatral, que só tem graça com intervenção de palavras e tal. Eu me treinei nisso. Até
que, em 1960, teve um programa de televisão chamado Escada para o Sucesso. Eu
nunca tinha visto televisão, pois tinha sido inaugurada naquele ano, e Roberto Santana
disse: "você vai cantar no programa". Na hora de ir para a televisão, eu disse
assim: "o que é que eu vou fazer? Essas canções? Eu não aguento um público
grande com essas canções". |
Aí eu fiz uma canção para o público grande, uma sátira política.Eu
inventei um método. Peguei todos os jornais atrasados, porque lá em Irará não chegava
jornal do dia. espalhei pelo meu quarto e, com aquela febre do cara que quer uma idéia,
comecei a costurar as manchetes, os acontecimentos daqueles dias e, então, fiz uma
espécie de imprensa cantada.E a música chamava-se Rampa para o Fracasso, para
brincar com o Escada para o Sucesso (risos), e tudo eram brincadeiras desse
gênero. Minha irmã, quando viu a música, ficou numa tristeza. Então eu mostrei a
música aos amigos em Salvador e eles também ficaram assim e tal...
E eu teimando, rapaz. Sabe aquela coisa que o
instinto te leva a fazer? Felizmente, eles me deixaram cantar a Rampa para o Fracasso.
Rapaz, foi um sucesso sensacional, tudo o que eu pensava que era ininteligível, pois eu
estava inaugurando aquela sintaxe que, digamos, era uma forma nova de ligar fatos. Aí,
para a minha felicidade, quando eu cantei as primeiras palavras da música, as pessoas
começaram a reagir. A música tinha uns 200 ritmos misturados e um discurso doido. |
De onde vieram as influências que te levaram a esse tipo de composição?
Tom Zé: Era um pouco a
influência dos cantadores de Irará, que cantavam motivos da ciência, dos astros, do
desenvolvimento da corrida atômica, da guerra na Alemanha.
Nós tinhamos uma cultura muito rica, porque o nordestino - Guimarães Rosa e Euclides da
Cunha dizem exatamente isso - o sertanejo é um homem com espírito de cientista, embora
seja analfabeto. Ele está o dia todo observando as coisas que acontecem em volta dele e
fazendo observações conclusivas, experimentais. Ele está sempre trabalhando como se
fosse um cientista. |

Reprodução do livro 'Tropicália'"Stalin tirou minha foto
de todos os lugares. Até da Tropicália. " |
| Eu tinha observado isso no
balcão da loja do meu pai . Eu vendia tecido para a gente da roça. E eles iam lá e
falavam a língua deles. Eu tive duas línguas de infância: a língua da cidade e o
português que tem em Guimarães Rosa. Exatamente como fala o Guimarães, as palavras, a
sintaxe lingüística, a língua... Dizem que a língua contém uma filosofia, conceitos
metafísicos etc., então eu tive uma outra filosofia no balcão da loja. E isso me dava
uma riqueza de vocabulário, de idéias e de capacidade especulativa, que não era comum
no menino de cidade, porque só tinha a escola primária linear, a linearidade de uma
língua ocidental, e eu tinha o mosaico daquela língua "hierogâmica". Por
exemplo, ela tem muita coisa de línguas orientais. Você acha que as línguas orientais influenciaram o "dialeto"
sertanejo?!
Tom Zé: Lá em Irará, o
tipo de língua do Guimarães Rosa tem essa característica. E também é um português
antigo, um português do século XVI, XVII... Eu sou muito resultado da presença da
canção árabe no Nordeste. Primeiro, os portugueses foram invadidos pelos árabes
durante oito séculos, do século Vll até o século XV. Eram os dominadores de toda a
Peninsula Ibérica. Enquanto da França para cima a Europa foi educada pelos
barbaros-cristãos, os portugueses foram educados pelo povo mais culto daquele tempo: o
povo árabe, que tinha um filosofia desenvolvida, tinha uma metafísica complexa ,
arquitetura, matemática, medicina...
Então. esse meu perfil é árabe.. Se você reparar bem, lá no Nordeste, numa feira de
fim-de-semana, essas feiras de rua, você olha os perfis, as pessoas Margrelas, um tipo de
físico árabe. É muito comum... É esse homem que eu encontrava no balcão da loja, com
essa língua, essa filosofia, era tudo árabe.
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Arquivo Pessoal
São, São Paulo, meu amor deu a Tom Zé a primeira
colocação no Festival da Record em 68.

Divulgação
Depois de gravar normalmente em estúdio, Tom Zé
'"degenera" o absolutamente convencional. |
Como essa presença árabe se refletiu na música do sertão nordestino?
Tom Zé: A canção que se
canta no interior ainda tem muita coisa do chamado microtom, da chamada microtonalidade,
que o ll Concílio de Trento expulsou do Ocidente, porque a Igreja precisava de uma
música diatônica: Dó - ré - mi - ré - dó - mi -dó - si - dó... (solfejando), para
poder fazer um cantochão, e todos os fiéis poderem cantar juntos. Uma música microtonal
é impossível de se cantar junto, é uma música pessoal. Ora, o Deus cristão não
admite um contato pessoal com ele, pelo menos das comunidades que a Igreja queria formar
na época. A Igreja, naquele tempo, precisava muito de comunidades cantando a mesma
canção e tal. O ll Conflito de Trento expulsou a microtonalidade, passou se a ter a
escala diatônica. Até certos intervalos da escala diatônica foram proibidos, escrito no
papel "o trítono é o diabo". A dissonância já é o pecado, a
microtonalidade já é o pecado, mas o trítono é o diabo em si. O trítono é a quarta
aumentada ou quinta diminuída... Dó - Fá# (solfejando) Isso era proibido na música da
Igreja e proibido na música erudita. Então, pode-se dizer que o maior compositor
do Ocidente em toda a sua História é o próprio Concílio de Trento.A canção
microtonal tinha muito isso de cantar, por exemplo: aqui, entre um intervalo de Dó para
Dó#, eu tenho quatro comas e meia. |
Porque aí
também já é a escala temperada. Se eu tivesse no violino, eu faria o Dó# um pouco mais
alto, seriam cinco comas. De Dó para Ré são nove comas. Quando você faz Réb, você
faz cinco comas abaixo, quer dizer, está mais perto de Dó, só restam quatro comas.
Quando você faz Dó# num instrumento como o violino, por exemplo, ou com a voz, você faz
cinco comas acima. Quer dizer: Dó# é diferente de Réb, mas na escala temperada não,
ficou em quatro e meio Dividiu isso para poder ficar bom. De todo modo, de Dó para Re tem
nove comas, nove divisões. Você pode cantar, na música microtonal, todas essas
divisões. De um tom para outro você canta nove sons, e a escala diatônica jogou fora
essas coisas intermediárias. Tanto a canção celta quanto a canção árabe usavam esses
microtons. Isso foi proibido.
Você acha que, de alguma maneira, a
música do Nordeste resgata essa microtonalidade?
Tom Zé: Quando a gente ouve
hoje a beleza da música do Djavan ela também remete um pouco àquelas notas longas em
que ele permanece no agudo com um pequeno vibrato... Ele aproveita essas notas para fazer
modulações, Quando eu canto a nota Mi num acorde de Dó, eu a canto numa altura. Quando
eu canto Mi num acorde de Lá maior, eu estou parado nela, mas eu faço uma pequena
modificação que você ouve, mesmo não sendo músico. Ela tem outra intensidade, outro
caráter. Isso é um pouco da música microtonal na música dele (Djavan). É claro que os
críticos não estão formados para observar essas coisas. Eu sou um estudante de música,
passei anos na universidade e me interesso também pela presença da canção árabe aqui.
Então, de algum modo, ele não faz canção árabe, não é influenciado por árabe, mas
tem alguma coisa no profundo da nossa alma, que foi ele quem pôs para fora. Ele é o
cavalo que fala desse lado da nossa alma. Ele é o espírito que trouxe isso à tona, por
intuição, porque tudo o que está dentro da alma uma hora sai. |
Como
é a sua relação com as tecnologias de gravação?
Tom Zé: Daquilo que eu fui
levado a observar, para mim , toda máquina, todo gravador, todo V.U. é um censor
estetico do sistema. Eu descobri isso na própria pele. Quando você faz uma novidade
sonora, você já tem uma dificuldade. Você viu o cara da Continental que teve a dor de
estômago. A máquina tem o mesmo problema. Vou dar um exemplo. É muito famosa aqui em
São Paulo, não sei fora daqui, uma canção minha chamada Brigitte Bardot (ver
box). A idéia dessa música era fazer uma canção bem lenta, bem baixinha. Tinha um
trecho que dizia assim: "Será que algum rapaz de 20 anos vai telefonar / Na hora
exata em que ela estiver com vontade de se su-i-ci-DAR! Quando falava a palavra suicidar,
na sílaba DAR entrava a banda toda antes era só o violão. Mas entrava a banda toda com
100% da escala de Hertz presentes para encher toda a capacidade de volume do disco. |

Foto J. Santana |
Brigitte Bardot
A Brigitte Bardot está ficando velha /
Envelheceu antes dos nossos sonhos /
Coitada da Brigitte Bardot que era uma moça bonita/
Mas ela mesma não podia ser um sonho para nunca envelhecer/
A Brigitte Bardot está se desmanchando...
Os meus sonhos querem pedir divórcio /
Agora o mundo inteiro tem milhões e milhões de sonhos
que pedem divórcio/
Que a Brigitte Bardot está ficando triste e sozinha...
(trecho) |
Resultado- o
técnico de som me disse "essa música não vai tocar no rádio". E eu respondi:
"Mas eu tenho que fazer a minha idéia: vamos gravar a música". Aí gravamos.
Quando chegou à sala de corte (para você ver como as máquinas censuram, naquele tempo
era corte, agora é masterização), eles acertaram o VU e largaram o disco correndo,
porque é tudo mais ou menos a mesma coisa - em música popular não tem esse negócio de
dinâmica, trechos altos e trechos mais baixos. Quando chegou em Brigitte Bardot, o
Gaus, aquele mesmo da gravação do Tropicália disse: "esse cara fode com o
meu trabalho, canta essa música baixo demais. Não dá! Aí jogou o acetato fora, me
xingou, voltou e suspendeu a música baixa.
Acontece que no meio da música baixa, que ele só ouviu um pedacinho, tinha um porrete da
desgrama, na hora do "SUICIDAR", com todo o volume. Aí tornou o VU. a dizer
"não, não, não, não, não"... A máquina me censurando, dizendo "não,
senhor", "não, senhor"! Aí o Gaus falou "Que diabos! Esse homem quer
me acabar com os dias de vida?!" Arrancou, jogou o outro acetato fora e, quando
chegou nessa música, ele ouviu toda. Viu como é que é? Para o técnico ouvir uma
música toda tem que dar um problema terrível. |
| É tudo tão previsível que não precisa nem ouvir Aí ele ouviu toda e
disse: "o jeito é botar um compressor" O compressor aumenta o que está baixo e
abaixa o que está alto. Quer dizer, ele jogou fora, acabou com o meu arranjo. Para você
ver como as máquinas são censoras estéticas do sistema. Então, o gravador não é só
um objeto capaz de captar um som, ele está pronto só para captar o gosto estético
vigente. Vários outros exemplos se sucedem. |
| TOM ZÉ E
DAVID BYRNE
Em 1989, Tom Zé tinha decidido largar a música "Um
dia eu fui fazer um show em Praia Grande. ninguém sabia o que era TomZé, Uma porção de
crianças correndo pra Iá e pra cá.. Sabe o que é isso? É você não ter uma banda,
não ter nada. Tenta cantar com o violão e ninguém está ligando." E, depois eu
ouvi muitas conversas e fiquei tão humilhado. Cheguei em casa tão triste que falei para
a Neuza: "não trabalho mais nisso". A opção de voltar a Irará para trabalhar
no posto de gasolina do sobrinho, parecia mais interessante. Foi quando apareceu o David
Byrne, que três anos antes tinha comprado disco Estudado Samba (76) numa loja no Rio de
Janeiro. "Na capa têm uns arames farpados, enrolado, com umas cordas. Eu queria
figurar com isso que o samba era uma coisa muito aprisionada como era o Brasil naquele
tempo da ditadura ", Byrne ficou impressionado com a capa e comprou o disco. O Byrne
conta que ouviu o disco em Nova lorque e disse assim: que diabo está acontecendo aqui.
Era uma desconstrução do samba misturando a vanguarda country com elementos de ritmos
brasileiras, com o lirismo de um poeta concreto. Um verdadeiro nocaute. Porque nunca ouvi
este cara antes?' Através de Arto Lindsay Byrne conheceu melhor TomZé, que voltou à
música desistindo do comércio.
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| Então,
essa é a experiência que eu tenho de lutar não contra uma censura, mas contra um censor
muito mais rigoroso e meticuloso, que é o sistema representado por suas máquinas, que
não permitem a novidade, só gravam o gosto médio vigente. Agora, na gravação da
música com o Grupo Corpo, no ano passado no Rio, nós fizemos um petit comité com o
pessoal da técnica, mostrando alguns exemplos já gravados, e eles |

Foto J. Santana |
fizeram um trabalho
intelectual muito grande para romper, para enganar a máquina como quem engana a censura.
(risos) Mas não saiu o que eu quero. Porque, por exemplo, minha música tem muitos
instrumentos não convencionais: o som de uma enceradeira que eu consigo domesticar.. Não
é um negócio de eu botar uma enceradeira para assombrar a burguesia em cima do palco.
Não é isso. É uma coisa que eu domestico, com filtros e não-sei-que-mais, e faço
fazer parte de uma sintaxe, de uma organizacão sonora. Não é o ruido do motor, são
microfones acoplados no metal de onde eu tiro glissandos e tal, é uma coisa trabalhada
que só pode fazer com enceradeira mesmo, não tem outra coisa.
Você sempre gostou de fazer
esses instrumentos?
Tom Zé: Eu tinha uma
enceradeira emperrada lá em casa. Quando você desligava, ela parava logo. Normalmente
leva meio dia para parar, Eu fiquei brincando com aquilo e falei: "pô, fiz um
ritmo". Peguei outra enceradeira e tentei emperrar. Comecei a fabricar instrumentos
assim Com as duas eu fazia um ritmo, e foi um sucesso imenso quando botei em cima do
palco. Me lembro que a Folha de S. Paulo escreveu assim: "Um artista
em construção", com as fotos de alguns instrumentos. O Estado de S. Paulo
colocou: "Os eletrodomésticos deixam a cozinha e vão para o palco" Quem foi
adorou. Inclusive os próprios músicos. Isso foi em 74 e é curioso, porque esta semana
eu ouvi uma música eletroacústica, usando gritos, etc. e eu inventei isso por processos
artesanais, porque eu fazia na orquestra de Hertz esse negócio da voz humana, grito,
choro.. Eu inventei isso, 20 anos antes, de uma maneira não-tecnológica, não
eletrônica, de uma maneira simplória quase artesanal. Por acaso não botei isso na
praça. Mas é engraçado como me respeitam, dizem: '`Tom Zé, há 20 anos, estava fazendo
instrumentos com enceradeira.
Agora eu estou reconstruindo os instrumentos
com a ajuda do Grupo Corpo, de Minas Gerais, para fazer o meu próximo disco.
De que maneira o Grupo Corpo está te
ajudando?
Tom Zé: Os instrumentos
são caros e precisam de espaço. Naquele tempo tinha a casa do Serginho Leite. Ele
sempre teve muita habilidade, toca muitos instrumentos, é um grande músico, um ótimo
arranjador. Nós tinhamos comprado uns gravadores, porque a DPZ Publicidade tinha
me empregado para o homem de rádio e TV. Na casa dele tinha silêncio, vários quartos e
tal e a maior parte dos jingles faziamos lá e tão bem que, às vezes, eram usados
diretamente, sem estúdio nem nada. Então aqueles instrumentos de enceradeira eram
muito altos com caixas superpostas, marceneiros trabalhando, o diabo. Tudo coube na casa
dele. Quando a mãe dele morreu e ele saiu, não havia onde botar. Um amigo, que era
guitarrista, ofereceu o sítio do pai. O pai não queria. E o caseiro, sabendo que o pai
não queria, tirava as tábuas e queimava no frio, durante todo o inverno. Que pena, mas
que grande simbolo metafórico, né?!l Os instrumentos aqueceram uma pessoa, salvaram uma
pessoa!
Como é que você grava em casa, antes
de levar para o estúdio?
Tom Zé: Eu tenho um
gravador Yamaha de quatro canais e tenho um... isso é bom podia até fazer uma coisa
separada na revista como método de composição. Porque eu vou aproveitar o negócio de
gravador para dar o método. É uma coisa auto didática, uma coisa que foge da
tonalidade, que implica em você fazer tônica sobre dominante e ter relações de forças
atrativas e repulsivas. Como eu faço música tonal, mas a vida toda faço música em tom
maior, não tenho tonalidade, porque não tenho as relações da tonalidade. Eu faço o
seguinte: pego primeiro um gravador, Tenho duas fitas com baterias gravadas. Fui a um
estúdio e gravei samba samba duro, samba quadrado. É dai que eu vou degenerar as coisas:
começo em cima do absolutamente convencional, boto isso numa fita e começo a ouvir.
Descobri que, se você começa a fazer certos ostinatos em cima da batida no grave, você
começa a degenerar o ritmo da batida da bateria. Ela parece que não é mais samba, mas
fica mais interessante. Isso eu transfiro para a quinta e a sexta cordas da guitarra e
para o contrabaixo, na hora de fazer a instrumentação. Depois de fazer uma coisa que me
agrada, que eu acho que seja bonita, que tenha um som legal, que faça a quebra do ritmo
de samba e ofereça alguma célula quase parecendo o arcabouço de uma frase musical,
quando eu já gosto intuitivamente, eu pego os cavaquinhos e faço em duas vozes, no
agudo, um contrabaixo muito rigoroso com essa frase do baixo. Quer dizer, o que eu vou
fazer no agudo depende muito da frase do baixo. No cavaquinho, eu ainda ponho mais
dissonância. E boto intervalos estranhos, fica quase escapando da tonalidade, mas nunca
totalmente. Quando isso já me satisfaz, aí eu sou japonês, eu erro, erro, erro . Depois
de um mês, um belo dia. eu volto e digo: "ah, está bem fluente! ». Aí eu vou
tentar cantar, tentar botar uma carne nessa parede, nessa estrutura levantada, Então
faço outra parede, que é a idéia do que eu devo cantar. Eu não faço uma coisa que é
experimentação de letras. Começo interessando, com o ritmo, com o contraponto. Mas
ninguém sabe o que é ritmo. O que é contraponto, mas as pessoas sente vontade de mexer
o corpo. O que me interessa é isso. Depois, levanto outra parede, que é uma idéia sobre
o que cantar e tal. Com essas duas paredes levantadas, eu tento fazer a cumeeira, que é a
letra, a melodia. Tenho uma estrutura pronta que se agüenta em pé. Eu acho que a pessoa
que ouvir vai ter o grande prazer de desvendar essas estruturas e ter aquele prazer não
só de brincar e dançar, cantar comigo no show, porque eu tento fazer refrões, às vezes
não faço porque erro. (risos) Esse é meu método de composição. Todas as minhas
músicas são assim. Por que Tom Zé faz sucesso no exterior? Vá lá e veja: não tem
nada de dificuldade. Não tem segredo, não tem inspiração, não tem bate papo. Qualquer
pessoa no Brasil pode fazer. Só que eu peguei esse método e acreditei nele. Gostei,
minha intuição me levou a isso. Em 1976, quando eu fiz o disco Estudando o Samba
houve até críticas boas. Tárik de Souza disse na revista Veja que era uma coisa
interessante e tal, mas foram necessários 17 anos para o David Byrne me levar para os
Estados Unidos e ser sucesso lá. Aí as pessoas voltaram a se interessar no Brasil. Deus
sabe o caminho da coisa, eu não me queixo de nada, Deus sabe o que faz com a gente. Por
exemplo: teve gente nos Estados Unidos que, no princípio, sem entender o que eu fazia,
chamou de... como é aquela música do Phillip Glass? Minimalista. Chamou de
minimalista. Ora isso está muito errado. Não é minimalismo. Isso pode lembrar mais o
móbile. O móbile tem uma coisa assim: cada estrutura, cada planeta gira no tamanho de
sua corda, Cada frase desses ostinatos, dessas repetições, da melodia, gira do tamanho
que é. E então essas coisas vão se encontrando cada hora em lugares diferentes
horizontalmente, E, verticalmente, se você vir, nunca tem um acorde igual, embora nunca
saia do Dó Maior, por exemplo. Aí você acaba criando outro tipo de interesse, mas não
é minimalismo. Tem até gente boa aqui da música brasileira chamando isso de
minimalismo. Mas não é, Não estou dizendo como opinião, estou dizendo como professor
de música, que eu também sou embora não faça pose. Você, olhando o móbile 20 vezes
num dia, nunca vai achá-lo na mesma posição. |
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