Anjo da guarda

SW – O disco Tom Zé, produzido em 68, foi um grande sucesso. Você ganhou dinheiro com ele ou ganhou apenas fama?
Tom Zé –
Com esse CD eu ganhei o bem mais precioso: uma profissão. Isso é fundamental para qualquer ser humano. Eu sempre cultivei meu lado mais marginal e rebelde. Se não tivesse uma profissão, o que estaria fazendo hoje? Sei lá, rapaz!

SW – O que você sentiu quando seu CD The Best of Tom Zé, da gravadora de David Byrne, arrebentou nos Estados Unidos? Como é aparecer em veículos como Rolling Stone, Bilboard, Village Voice, The New York Times, Le Monde? Não dá vontade de viver no exterior?
Tom Zé –
Realmente, aparecer como um popstar nas principais revistas de música estrangeira é de arrepiar. É sempre bom ver o que se faz ser apreciado. Ainda mais quando a platéia não entende sua língua. Aí a gente vê que a música é uma linguagem universal, principalmente se não faz concessões para agradar uns e outros. Se você fala realmente a linguagem do teu país, se sua música tem o gosto da terra e pode agradar pessoas do mundo todo, é muito gratificante.

SW – Você ganhou o Prêmio de Criatividade no Colorado (USA), concorrendo com músicos eruditos e de vanguarda do mundo inteiro. Como foi essa emoção?
Tom Zé –
Ganhar o prêmio do Instituto Ford no Colorado foi uma experiência engraçada. Eu participava do festival, mas não sabia que haveria premiação. Na noite do encerramento fui chamado ao palco. O diretor do festival, Charles Amirkhaian, me entregou um anel de pedras preciosas dos índios daquelas montanhas do Colorado. Eu achei que todos os músicos seriam convidados para receber o presente. Mas percebi que ninguém mais foi chamado. O premiado havia sido eu.

SW – Você faz muito teatro nos seus shows. Como reagem as platéias estrangeiras a essas exibições? Com espanto ou naturalidade?
Tom Zé –
Por falar em platéia estrangeira, participei em Londres do festival Only Connect no Barbican Center, em abril. No dia do concerto, enquanto ensaiava, vi o tamanho do teatro, para 2 mil pessoas. Fiquei assustado. Como numa transmissão de pensamento, minha mulher, Neusa, veio a mim e disse: "Os ingressos estão esgotados desde ontem". Que alívio! Foi uma noite inesquecível. Dizem que o público londrino é frio, mas meus shows lá são sempre uma festa, com aplausos em cena aberta. Apesar de ter até a alma acariciada, gosto ainda mais de ser aplaudido no Brasil. É mais gostoso.

SW – Como você conheceu a Neusa, sua mulher, seu anjo da guarda?
Tom Zé –
Ela trabalhava no Sesi, em São Paulo. Um amigo dela, jornalista, escrevia sobre cultura em um jornal do Rio. Um dia ele queria me entrevistar, mas não podia viajar naquele momento. A Neusa, que nem é jornalista mas escreve muito bem, viajou no lugar dele e me entrevistou. A partir daí, a gente foi ficando junto, ficando junto e eu me dei conta de que não poderia mais viver sem ela.

SW – Como é que você concluiu isso?
Tom Zé –
Coisa do destino não se explica. Costumo beijar os pés dela. É realmente o meu anjo protetor. Aliás, quando falo de mulher, sinto um misto de respeito e admiração.