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A
Primeira vez
SW Tem a mesma reverência com o seu trabalho?
Tom Zé Minha música é fruto
de muita observação e alguma experiência.
É nesse eixo que eu trabalho. Digo alguma experiência,
porque espero adquirir ainda muito mais ao longo da vida.
No tocante à observação, posso dizer
que conheço vários gênios na música,
mas "japonês", daquele que não deixa
escapar nada, só conheço eu.
SW
Qual foi a sua primeira composição?
Tom Zé Uma das primeiras músicas
que fiz foi para uma namorada. Quando ela pediu para ouvir,
não consegui tocar. Eu era muito tímido. Então
bolei um truque para superar essa barreira. Resolvi compor
falando sobre gente de verdade, gente conhecida de Irará.
Era também uma forma de prender a atenção
dos ouvintes. Aí fiz música sobre os doidos
de Irará, sobre Maria Bago Mole, a famosa rameira
que iniciava as crianças da cidade na vida sexual.
SW
Sua primeira transa foi com a Maria Bago Mole? Foi
ela que lhe comeu ou você foi mais rápido que
ela?
Tom Zé Não foi ela, não.
Eu fui comido por outra pessoa. Mas falando sobre primeira
vez, nunca esqueci a de um amigo chamado Zé Pequeno.
Porque, na verdade, todos nós somos obrigados a dizer
que trepar é bom, quando se sabe que não é
assim. Um dia, os amigos estavam sentados na pracinha quando
apareceu o Zé Pequeno, puto da vida, gritando em
altos brados: "Vocês vivem dizendo que fudê
(sic) é muito bom. É um tal de foder pra lá
e foder pra cá. Que mentira arretada! Fudê
é uma porcaria". Concluímos que Zé
Pequeno tinha fodido qualquer coisa no dia anterior. O curioso
para mim nessa história foi a coragem do Zé
Pequeno, gritando pra quem quisesse ouvir que "tinha
sido uma porcaria". Fazendo isso, ele rompia com um
padrão cultural idiota. Com isso, ganhou o meu respeito.
Fez uma coisa que os homens não costumam fazer. Eu
mesmo não tive essa coragem.
SW
Dá para ver que sua infância em Irará
deixou marcas muito fortes...
Tom Zé Pois é! É por isso
digo que Irará foi mais definitiva que a minha própria
formação musical. Você quer ver um exemplo
de como as coisas se passam por lá? Quando as famílias
queriam fazer um banquete, chamavam uma prostituta que era
respeitadíssima na cidade. Não me lembro do
seu nome. Ela já tinha uma certa idade e era recebida,
inclusive em minha casa, com toda a pompa e circunstância
com que se recebe as grandes autoridades.
SW
Ela ainda era prostituta?
Tom Zé Sim, dizem que das boas. Na cozinha,
posso garantir que era formidável. Na minha infância
autoridade e poder eram coisas bem distintas. Essa mulher
tinha autoridade embora não tivesse poder.
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