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PERFIL O gênio sobrevivente Depois de longo ostracismo, o cantor e compositor Tom Zé, de 65 anos, vive o melhor momento de sua carreira Cléber Eduardo
Tom Zé anda todo sorrisos. Depois de uma fase negra de 16 anos, na qual ficou sem gravar no Brasil, vive seu momento mais feliz. O período de inferno parecia mandinga. Ele passou por dificuldades financeiras, caiu em depressão e foi nocauteado por crises de saúde. Os últimos anos o levaram ao paraíso. Teve discos esquecidos relançados em CD, virou ídolo de adolescentes e universitários e incendeia platéias em shows no Exterior. Se a nova fase não o enriqueceu, pelo menos lhe garante o sustento, sem luxos nem desperdícios. “Uma conquista por vez”, diz Tom Zé. Entre os estrangeiros, sua cotação está alta. Um crítico da revista francesa Le Nouvel Observateur chamou-o de ”Zénial”. Outra revista, a americana Rolling Stone, tascou na manchete “Pai da Invenção”, trocadilho com Mothers of Invention, nome do grupo do roqueiro experimental Frank Zappa. Expressões da música pop, como Sean Lennon e Beck, também babam ovos para Zé. Ficam impressionados com sua inventividade nos discos e com sua teatralidade no palco. Se a vida começa aos 40 anos, a dele começou depois dos 60. A agenda anda cheia. Ele acaba de escrever a respeito do tropicalismo em livro sobre MPB, fará palestras na França e compôs as músicas da próxima coreografia do balé Corpo, inspiradas em choros de Pixinguinha. Aos 65 anos, é um dínamo. Acorda às 5 horas, pratica tai chi chuan e cuida do jardim do prédio em frente ao seu, no bairro de Perdizes, em São Paulo, pelo que recebe um salário mínimo.
A reviravolta na vida de Tom Zé começou em 1986. O músico americano de origem escocesa David Byrne, líder do grupo Talking Heads e cineasta de ocasião, estava de passagem pelo Rio de Janeiro, onde exibia seu filme Histórias Reais em um festival de cinema. Em visita a lojas de discos atrás de LPs de samba, encantou-se com a capa de um deles: Estudando o Samba (1976), de Tom Zé, sua obra-prima, segundo muitos críticos. Ao ouvir o disco, Byrne ficou estarrecido. Achava impossível que aquele artista, dotado de uma erupção criativa, fosse ignorado pelo mundo. O interesse do cantor pop chegou aos ouvidos do compositor e, para confirmar a veracidade do boato, ele perguntou a Caetano Veloso se sabia de algo. “Byrne deve estar atrás de Tuzé de Abreu”, reagiu o colega de tropicalismo, em referência a um músico da Bahia, de nome não menos exótico. Tom Zé estava tão jogado para escanteio que, aos olhos de Caetano, era improvável um estrangeiro saber de sua existência. Improbabilidades, porém, acontecem. Byrne lançou uma coletânea de Tom Zé nos Estados Unidos, em 1990, e outros dois discos de grande repercussão, The Hips of Tradition (1992) e Fabrication Defect (1998). O sucesso abriu os ouvidos dos americanos para a música pop brasileira e recuperou a figura do compositor entre os próprios brasileiros. O complexo de vira-lata, a que se referia Nelson Rodrigues, voltou a se confirmar. Sem a legitimação no Exterior, Tom Zé estaria em Irará. Ele já preparava as malas para retornar a sua terra, onde iria trabalhar como frentista de um posto de gasolina da família, quando foi descoberto por Byrne.
O reconhecimento no Brasil é e possivelmente sempre será discreto, para usar um termo elegante. Sua obra permanece tratada como coadjuvante nos livros sobre tropicalismo, que misturava o rock à MPB para se contrapor ao predomínio da música de protesto. Inspirada pela limitada importância dada à obra de Tom Zé, a jornalista baiana Tatiana Lima prepara uma biografia, Parceiro do Futuro, referência a trecho de “2001”, parceria de Tom com Rita Lee. Será o começo de uma correção. “Tom Zé é o mais criativo da tropicália”, julga o veterano e respeitadíssimo produtor musical Fernando Faro. “A atual visibilidade dele deveria servir para uma reavaliação de seu valor.” Quem é bom de cabeça e ouvidos deveria apoiar essa releitura crítica. Charles Gavin, dos Titãs, apóia. Responsável pela remixagem e remasterização de quatro discos de Tom Zé, relançados em CD, o roqueiro situa um deles, Estudando o Samba (aquele comprado por Byrne), entre os cinco maiores trabalhos da MPB. “Tenho uma caixa cheia desse CD para dar a amigos no Exterior”, diz. Seu trabalho é fundamental. Permitiu a uma nova geração descobrir um artista sempre inquieto. O ostracismo é explicado mais pelas virtudes que pelos defeitos. Foi o preço pago pela coerência artística. As composições de Tom Zé, com quebras de andamento, ausência de refrões e cheias de experimentações não grudam no ouvido, como muitas criadas por Caetano e Gilberto Gil, e tantas do repertório de Gal Costa e Maria Bethânia, o quarteto principal do tropicalismo. Enquanto os antigos camaradas prosseguiam no projeto de conquista do estrelato, Tom Zé radicalizava suas ousadias com Todos os Olhos (1973), cuja capa trazia a imagem de um ânus com uma bola de gude. Estava mais próximo do radicalismo do piauiense Torquato Neto (1944-1972), compositor de “Géleia Geral”, marco tropicalista. Com uma diferença. Torquato se matou. Tom Zé, nos anos seguintes, foi morto em vida. Passou a ser ignorado e tachado de maldito, algo comum com artistas cuja criatividade não é assimilada pelo mercado. A juventude musical de Tom Zé, porém, é identificável em seus shows. Enquanto os quarentões vão ver Caetano e Gil, os adolescentes fecham com o moleque de Irará.
Pois foi na Bahia que tudo começou. Depois das cantigas sertanejas, seu
ouvido levou um estalo com a descoberta dos compositores clássicos,
escutados pela ala comunista da família da mãe (a do pai morreu toda de
tuberculose antes de Tom nascer). Ao ouvir os primeiros acordes de um
violão, tocado por um amigo, resolveu comprar o instrumento. “Aquilo me
fisgou, o mundo escureceu, esqueci quem eu era”, lembra. A incapacidade de
fazer melodias bonitas levou-o a valorizar as letras satíricas sobre fatos
reais. Nascia assim um dos mais irreverentes e inspirados cronistas da
música brasileira. Nos anos 60, a força intuitiva ganhou o verniz dos
conceitos. Tom Zé aprendeu teoria musical na Universidade da Bahia com
crânios da vanguarda como Koellreutter e Smetak. Anos antes do
tropicalismo, viveu um episódio pouco conhecido. Nara Leão estava à
procura de novos compositores em 1961 e gravou várias músicas do extenso
repertório dele. “Ela queria umas loucuras, mas as minhas eram excessivas.
Como esqueci essas canções, a família dela podia me devolver”, pede.
Diante de Nara, sentiu-se importante. Demorou para o resto do país
reconhecer isso e ainda falta um pouco para recompensá-lo. | ||||||||||||||||||||||
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