PERFIL

O gênio sobrevivente

Depois de longo ostracismo, o cantor e compositor Tom Zé, de 65 anos, vive o melhor momento de sua carreira

Cléber Eduardo

Tom Zé
La Costa/ÉPOCA
RIGOR
Tom Zé não se considera intuitivo. Ele faz muitas experiências até ficar satisfeito. Quase nunca fica
Origem
Nasceu em 11/10/1936, em Irará, sertão da Bahia

Infância
Era proibido de ler gibis para não secar a imaginação

Hiato
Ficou 16 anos sem gravar no Brasil

Ousadia
Vendeu uma casa para construir instrumentos

Tom Zé anda todo sorrisos. Depois de uma fase negra de 16 anos, na qual ficou sem gravar no Brasil, vive seu momento mais feliz. O período de inferno parecia mandinga. Ele passou por dificuldades financeiras, caiu em depressão e foi nocauteado por crises de saúde. Os últimos anos o levaram ao paraíso. Teve discos esquecidos relançados em CD, virou ídolo de adolescentes e universitários e incendeia platéias em shows no Exterior. Se a nova fase não o enriqueceu, pelo menos lhe garante o sustento, sem luxos nem desperdícios. “Uma conquista por vez”, diz Tom Zé.

Entre os estrangeiros, sua cotação está alta. Um crítico da revista francesa Le Nouvel Observateur chamou-o de ”Zénial”. Outra revista, a americana Rolling Stone, tascou na manchete “Pai da Invenção”, trocadilho com Mothers of Invention, nome do grupo do roqueiro experimental Frank Zappa. Expressões da música pop, como Sean Lennon e Beck, também babam ovos para Zé. Ficam impressionados com sua inventividade nos discos e com sua teatralidade no palco. Se a vida começa aos 40 anos, a dele começou depois dos 60.

A agenda anda cheia. Ele acaba de escrever a respeito do tropicalismo em livro sobre MPB, fará palestras na França e compôs as músicas da próxima coreografia do balé Corpo, inspiradas em choros de Pixinguinha. Aos 65 anos, é um dínamo. Acorda às 5 horas, pratica tai chi chuan e cuida do jardim do prédio em frente ao seu, no bairro de Perdizes, em São Paulo, pelo que recebe um salário mínimo.

Foto: arq. pessoal
PRÊMIO
Tom Zé celebra a vitória no Festival da Record, em 1968, com “São São Paulo, Meu Amor”. Sua parceria com Rita Lee, “2001”, ficou em quarto lugar
Seu interesse não é pelo dinheiro. Mexe na terra para manter contato com a raiz arcaica – nasceu em Irará, sertão da Bahia – e como terapia para o que chama de overdose de urbanidade. Tratar das flores e freqüentar o psicanalista são antigas estratégias para arejar a mente. Com o rosto e o espírito de moleque, a idade parece não surtir efeito. A memória é invejável. “Ele lembra as datas de fatos antigos e, quando envolvem mulheres, elas ficam constrangidas por ter a idade revelada”, afirma Neuza, sua mulher há 31 anos. O casal não teve filhos. Tom, sim, tem um, Everton, de 34 anos.

A reviravolta na vida de Tom Zé começou em 1986. O músico americano de origem escocesa David Byrne, líder do grupo Talking Heads e cineasta de ocasião, estava de passagem pelo Rio de Janeiro, onde exibia seu filme Histórias Reais em um festival de cinema. Em visita a lojas de discos atrás de LPs de samba, encantou-se com a capa de um deles: Estudando o Samba (1976), de Tom Zé, sua obra-prima, segundo muitos críticos. Ao ouvir o disco, Byrne ficou estarrecido. Achava impossível que aquele artista, dotado de uma erupção criativa, fosse ignorado pelo mundo.

O interesse do cantor pop chegou aos ouvidos do compositor e, para confirmar a veracidade do boato, ele perguntou a Caetano Veloso se sabia de algo. “Byrne deve estar atrás de Tuzé de Abreu”, reagiu o colega de tropicalismo, em referência a um músico da Bahia, de nome não menos exótico. Tom Zé estava tão jogado para escanteio que, aos olhos de Caetano, era improvável um estrangeiro saber de sua existência. Improbabilidades, porém, acontecem. Byrne lançou uma coletânea de Tom Zé nos Estados Unidos, em 1990, e outros dois discos de grande repercussão, The Hips of Tradition (1992) e Fabrication Defect (1998). O sucesso abriu os ouvidos dos americanos para a música pop brasileira e recuperou a figura do compositor entre os próprios brasileiros. O complexo de vira-lata, a que se referia Nelson Rodrigues, voltou a se confirmar. Sem a legitimação no Exterior, Tom Zé estaria em Irará. Ele já preparava as malas para retornar a sua terra, onde iria trabalhar como frentista de um posto de gasolina da família, quando foi descoberto por Byrne.

Anjos da guarda
Os braços que foram estendidos a Tom Zé

Caetano Veloso
Aproximou o compositor da música popular e o abrigou no movimento tropicalista

Walter George Durst
Em momento de dificuldade financeira, contratou-o para trabalhar na Rede Globo

David Byrne (foto)
Lançou três discos nos EUA e o tirou do limbo

Charles Gavin
Remixou e remasterizou quatro discos esquecidos para lançamento em CD

João Marcello Bôscoli
Lançou um CD de Tom no Brasil depois de 16 anos

O reconhecimento no Brasil é e possivelmente sempre será discreto, para usar um termo elegante. Sua obra permanece tratada como coadjuvante nos livros sobre tropicalismo, que misturava o rock à MPB para se contrapor ao predomínio da música de protesto. Inspirada pela limitada importância dada à obra de Tom Zé, a jornalista baiana Tatiana Lima prepara uma biografia, Parceiro do Futuro, referência a trecho de “2001”, parceria de Tom com Rita Lee. Será o começo de uma correção.

“Tom Zé é o mais criativo da tropicália”, julga o veterano e respeitadíssimo produtor musical Fernando Faro. “A atual visibilidade dele deveria servir para uma reavaliação de seu valor.” Quem é bom de cabeça e ouvidos deveria apoiar essa releitura crítica. Charles Gavin, dos Titãs, apóia. Responsável pela remixagem e remasterização de quatro discos de Tom Zé, relançados em CD, o roqueiro situa um deles, Estudando o Samba (aquele comprado por Byrne), entre os cinco maiores trabalhos da MPB. “Tenho uma caixa cheia desse CD para dar a amigos no Exterior”, diz. Seu trabalho é fundamental. Permitiu a uma nova geração descobrir um artista sempre inquieto.

O ostracismo é explicado mais pelas virtudes que pelos defeitos. Foi o preço pago pela coerência artística. As composições de Tom Zé, com quebras de andamento, ausência de refrões e cheias de experimentações não grudam no ouvido, como muitas criadas por Caetano e Gilberto Gil, e tantas do repertório de Gal Costa e Maria Bethânia, o quarteto principal do tropicalismo. Enquanto os antigos camaradas prosseguiam no projeto de conquista do estrelato, Tom Zé radicalizava suas ousadias com Todos os Olhos (1973), cuja capa trazia a imagem de um ânus com uma bola de gude. Estava mais próximo do radicalismo do piauiense Torquato Neto (1944-1972), compositor de “Géleia Geral”, marco tropicalista. Com uma diferença. Torquato se matou. Tom Zé, nos anos seguintes, foi morto em vida. Passou a ser ignorado e tachado de maldito, algo comum com artistas cuja criatividade não é assimilada pelo mercado. A juventude musical de Tom Zé, porém, é identificável em seus shows. Enquanto os quarentões vão ver Caetano e Gil, os adolescentes fecham com o moleque de Irará.

FOI ESTE
Estudando o Samba, comprado por David Byrne, ressuscitou Tom Zé
Mas sua personalidade ajudou no isolamento. “Ele tem o retraimento do sertanejo e não sabe lidar com o mercado”, atesta o amigo e crítico Carlos Rennó. Tom Zé concorda. Não se conforma por não ter insistido, na segunda metade dos anos 70, na comercialização de seus instrumentos, construídos com eletrodomésticos e utilizados só no disco mais recente, Jogos de Armar (2000). Um executivo de gravadora, disposto a bancar a fabricação, foi conferir as geringonças. Ao ouvir a maluquice, vomitou. A depressão pegou o compositor nessa fase. Não conseguia digerir os alimentos e a pele começou a descascar. Sentia-se humilhado ao pedir emprego aos amigos, mas alguns estendiam a mão para ajudá-lo. O autor de novelas Walter George Durst foi um deles. Ofereceu um gordo salário para empregá-lo como “consultor de baianidade” na minissérie Rabo de Saia.

Pois foi na Bahia que tudo começou. Depois das cantigas sertanejas, seu ouvido levou um estalo com a descoberta dos compositores clássicos, escutados pela ala comunista da família da mãe (a do pai morreu toda de tuberculose antes de Tom nascer). Ao ouvir os primeiros acordes de um violão, tocado por um amigo, resolveu comprar o instrumento. “Aquilo me fisgou, o mundo escureceu, esqueci quem eu era”, lembra. A incapacidade de fazer melodias bonitas levou-o a valorizar as letras satíricas sobre fatos reais. Nascia assim um dos mais irreverentes e inspirados cronistas da música brasileira. Nos anos 60, a força intuitiva ganhou o verniz dos conceitos. Tom Zé aprendeu teoria musical na Universidade da Bahia com crânios da vanguarda como Koellreutter e Smetak. Anos antes do tropicalismo, viveu um episódio pouco conhecido. Nara Leão estava à procura de novos compositores em 1961 e gravou várias músicas do extenso repertório dele. “Ela queria umas loucuras, mas as minhas eram excessivas. Como esqueci essas canções, a família dela podia me devolver”, pede. Diante de Nara, sentiu-se importante. Demorou para o resto do país reconhecer isso e ainda falta um pouco para recompensá-lo.