IDÉIAS

''A tropicália me enterrou''

Tom Zé ataca a censura e revela como a turma baiana o expulsou do tropicalismo

CLÉBER EDUARDO

» Íntegra da entrevista com o cantor e compositor Tom Zé  
» Ouça músicas do CD "Imprensa Cantada", de Tom Zé  
» Trecho do livro Tropicalista Lenta Luta, de Tom Zé  
» Letra da música Vaia de Bêbado Não Vale, de Tom Zé  


La Costa/ÉPOCA
ATIVO
Tom Zé não pára mais depois de duas décadas no ostracismo

    
Tom Zé está na moda. É acariciado pelos críticos, viaja o mundo, virou unanimidade. E não pára. Está lançando CD, um livro composto de letras, artigos, mais um DVD com o show Jogos de Armar. Nem sempre foi assim. Durante o ostracismo nos anos 70 e 80, conviveu com vaias, depressão, falta de dinheiro e com a ausência de ouvidos para escutar sua voz. Vivia de pequenas apresentações para universitários no interior de São Paulo. Só voltou a ter evidência quando foi descoberto por David Byrne. Nesta entrevista, ele fala do novo CD, no qual se debruça com irreverência sobre questões atuais, e passa a limpo o passado.

ÉPOCA - Em Imprensa Cantada, você toca em questões atuais, como uma crônica jornalística.
Tom Zé - É isso mesmo. Pensamos esse disco como manchete de jornal. Este ano foi rico em misérias e desastres, em censuras e guerras. Era uma boa oportunidade de fazer uma imprensa cantada, com músicas sobre vários temas do momento. Aproveitei para regravar 'São Paulo Meu Amor', que não tinha gravação boa. Vou cantá-la na festa de 450 anos da cidade, em janeiro, e isso é curioso, porque o PT nunca me chamou antes. E olha que quando o PT é governo, em consideração ao partido e para não causar confusão nas finanças municipais, eu paro de cobrar o prêmio de 'São Paulo Meu Amor', o prêmio do Festival da Record, que nunca me pagaram. Nos anos 60, valia três Fuscas. Hoje só tem valor moral.

ÉPOCA - Nenhuma figura política tinha sido tema de música sua antes de George W. Bush. Ele tem esse mérito?
Tom Zé - É minha musa mais inspiradora. Ele se sobressaiu em estupidez, prepotência e truculência. No caso do governo militar brasileiro, que também fez isso bastante, não ia sonhar em botar personagem em música, pois era provocação suicida.

ÉPOCA - Você tem duas canções sobre censura no disco. Por quê?
Tom Zé - Este foi o ano internacional da censura. Na entrega do Grammy, tomaram o microfone de Erica Badú e Sheryl Crowl, e não permitiram aos cubanos concorrentes entrar no recinto. Nos Estados Unidos, as passeatas contra a invasão do Iraque foram noticiadas com número de participantes diminuído.

ÉPOCA - E aqui no Brasil?
Tom Zé - Em meu disco, Jogos de Armar, teve censura. Todas as críticas, as positivas e negativas, trataram-no como chulo. Eu percebi que tinha exagerado na dose. Não quero fazer nada para ser chamado de maldito. Quero tratar de assuntos que a sociedade não quer tratar. Entendi que errei. As emissoras de rádio não me entrevistaram nem tocaram o disco. Não quero causar mal-estar assim. Não quero usar palavrão para mostrar como sou bacana e a sociedade é pateta.

ÉPOCA - Gilberto Gil e Orlando Senna, seus companheiros de trajetória, estão no Ministério da Cultura. Como vê essa passagem para o lado de lá?
Tom Zé - Vi o Gil fazendo um discurso e fiquei admirado com a maneira com que ele falava equilibradamente dos problemas, sem o rompante de um comandante. Transparecia na fala dele a fraqueza que o homem sente quando quer defender causas justas em qualquer tipo de governo. Gil é muito político. Sempre foi capaz de saber fazer a volta, contornar, para não fazer enfrentamento fora de hora. Impressiona como o camarada larga o conforto, seu Grammy, para ir lá dar a cara para bater, sabendo que lutar contra poderosos é batalha perdida. Minha geração não pode se queixar. Aquele que tinha capacidade aceitou o desafio. É claro que o homem tem orgulho e vaidade, mas às vezes isso serve a todos.

'Bush é minha principal musa inspiradora do Olimpo. Ele se sobressaiu em arrogância, prepotência e truculência'
[TOM ZÉ, sobre o presidente dos EUA]

ÉPOCA - Em um de seus textos, você fala que, na divisão do espólio tropicalista, foi enterrado. O que foi essa divisão?
Tom Zé - Nossa Senhora. Quando os meninos foram para a Europa, parecia que foi anunciado que tinha uma vaga no tropicalismo, porque o Tom Zé ia sair. E aí, o que apareceu de candidato... Quando começaram os fuxicos contra mim, na Inglaterra e no Brasil, em 1969, Gil chegou ao meu show e de Gal, no Rio de Janeiro, e já havia um clima para me expulsar dali. Sentou todo mundo em volta de Gil depois do show e ele começou a dizer: 'O que há de errado com você?' Repetiu isso algumas vezes. Tomei um susto porque Gil é muito objetivo. Ele disse: 'As duas músicas que ouvi você cantar são músicas aqui, em Nova York, em qualquer lugar, então o que há de errado com você?' Entendi o que estava acontecendo. O fuxico estava pesado e ele não era de entrar em fuxico. Era um recado para os outros. Quando um lugar está disponível, as pessoas tentam chegar mesmo, e o tropicalismo dava muito dinheiro. Todo mundo queria o seu também. É natural, humano.

ÉPOCA - Mas qual era o fuxico?
Tom Zé - Se você me pede isso estraga o que eu estou dizendo. Ninguém vai arrancar de mim mais nada do que estou dizendo aqui. Estou apenas respondendo algo que nunca disse a ninguém. Ficou parecendo que eu estava saindo, porque estava dedicado a outro projeto, mais pessoal. Todo mundo que estava perto, humanamente, achou que podia pegar o lugar. Se eu estava desaparecendo, então era melhor. Mas sem dúvida fui enterrado. Era o Trotsky do tropicalismo e fui tirado do retrato. Eu me lembro que, nas reportagens de cinco anos do tropicalismo, Tom Zé estava em todas. Reportagem de dez anos, Tom Zé estava na metade. Nas de 15 anos, não estava em nenhuma. E aí na de 25 anos eu voltei. Mas volto por quê? Passei a fazer alguma coisa que não fiz ou volto por que a América mandou um recado de que existo depois de David Byrne me desenterrar? Que diabo é isso? Ou não existo ou existo. Mas não culpo ninguém. Quando você não toma conta do seu, fica disponível.

 

Íntegra da entrevista com o cantor e compositor Tom Zé:


Tom Zé, hoje, está na moda. Tem apresentações lotadas, viaja o mundo, é uma unanimidade. Está lançando disco novo, um livro composto de letras de músicas, artigos e de uma longa entrevista, mais um DVD com o show Jogos de Armar. Nem sempre foi assim. Durante seu ostracismo entre o início dos anos 70 e o fim dos 80, depois de ser colocado para a lateral pelos tropicalistas e resignar-se com a perda da vaga na cena luminosa do movimento, conviveu com vaias, depressões, falta de dinheiro e com a ausência de ouvidos para escutarem sua voz. Só voltou a ter imagem e som depois de ser descoberto por David Byrne e ganhar a legitimação por críticos americanos e europeus. Na entrevista abaixo, ele fala do novo disco, Cantando a Imprensa, no qual debruça-se com irreverência sobre questões atuais, e passa a limpo o passado.

ÉPOCA - As canções desse disco não foram compostas para ele, mas em ocasiões esparsas e com finalidades diversas. No entanto, há um conceito. Você canta questões do presente, com uma urgência de reportagem.
Tom Zé É isso mesmo. Pensamos esse disco, eu e Jair Oliveira, produtor, como manchete de jornal. Esse ano foi rico em misérias e desastres, em censuras e guerras. Era uma boa oportunidade de fazer uma imprensa cantada, com músicas sobre vários temas do momento. Aproveitei para regravar São Paulo Meu Amor, que não tinha gravação boa. Eu já tinha sido chamado para cantar nos 450 anos da cidade, que será comemorado em janeiro, e isso é até curioso porque o governo do PT nunca me chama nas festas de São Paulo.

ÉPOCA - E você votou na Marta Suplicy?
Tom Zé Naturalmente. E quando o PT é governo, em consideração ao partido, eu paro de cobrar o prêmio de 'São Paulo Meu Amor', o prêmio do Festival da Record, para não causar confusão nas finanças municipais. Na época, valia três Fuscas. Hoje só tem valor moral.

ÉPOCA - Nenhuma figura política tinha sido tema de música sua antes de George Bush. Ele tem esse mérito?
Tom Zé É minha musa mais inspiradora do Olimpo. Ele se sobressaiu em estupidez, prepotência e truculência. No caso do governo militar brasileiro, que também fez isso bastante, não ia sonhar em botar personagem em música, pois era provocação suicida. Mas cantei uma canção, 'No Jardim da Política', que falava de um conceito do Geisel, de democracia relativa, e comparava ao conceito de Paulo Freire, de hospedar o opressor. É uma idéia bonita. Paulo Freire diz que o oprimido, depois de tanto ver os métodos e as estratégias do opressor, age como o próprio opressor.

ÉPOCA - Você tem duas canções sobre censura. Por quê?
Tom Zé Esse foi o ano internacional da censura. Na entrega do Grammy, tomaram o microfone de Erica Badu e Sheryl Crowl, e não permitiram os cubanos concorrentes de entrar no recinto. Nos Estados Unidos, as passeatas contra a invasão do Iraque foram noticiadas com timidez, com número de participantes diminuído na imprensa, como se fossem meia dúzia de gatos censurados.

ÉPOCA - E aqui no Brasil?
Tom Zé No meu disco, teve censura. Todos as críticas, as positivas e negativas, trataram-no como chulo. Eu percebi que tinha exagerado na dose. Não sou apocalíptico, nem quero fazer nada para ser chamado de maldito. Quero tratar de assuntos que a sociedade não quer tratar, mas quero tratar de uma forma que ela não possa fugir do assunto. Entendi que errei. Não precisava usar palavrão, mas os meninos da Trama, a gravadora, disseram para ficar, porque os rapazes dos raps falam sempre, sem nenhum problema. As emissoras de rádio não me entrevistaram e uma acadêmica disse que não ia escrever, porque havia uma canção chamado 'Prostituir', na qual há palavrão. E depois os rapazes que comandam rádios, em conversa comigo, admitiram que, como estavam sendo pressionados, não tocavam o disco. Eu não quero causar mal estar assim. Quero incomodar é quando a sociedade não quer tratar de suas coisas podres, que apodrecem muito mais se você não trata das feridas. Não quero usar palavrão para mostrar como sou bacana e a sociedade é pateta. Não faz parte de meu caráter. Eu podia ter trocado por uma palavra mais bonita. Tenho ética. Tirei de meu livro o título Tropicália Jacta Est, nome sensacional, uma jóia incrustada, um achado, para evitar que dissessem que eu tinha lançado a Tropicália. Tropicalista Lenta Luta é muito mais fracote.

ÉPOCA - Não há hipocrisia em se implicar com palavrão em uma mesma sociedade que legitima a veiculação espetacularizada de violência?
Tom Zé Claro. Hollywood é uma escola de crimes. Mas isso é normal. Bretch dizia que, quando fala de arte, classe média fala de moral. Mas eu não quero posar de vítima e chorão. Não tenho mania de censura. Quantos compositores não iam para shows de estudantes e diziam que aquela canção tinha de ser ouvida ali porque logo seria censurada. Nunca fiz isso. Nunca fiz proselitismo, propaganda de perseguição. Nunca fiz queixa de gravadora, de multinacional ou de censura. Vou virar pateta depois de velho?

ÉPOCA - Sua turma chegou ao poder, como Gilberto Gil e Orlando Senna no Ministério da Cultura. Como você essa passagem para o lado de lá?
Tom Zé Vi Gil fazendo um discurso e fiquei admirado com a maneira com que ele falava equilibradamente dos problemas, sem o rompante de um comandante. Transparecia na fala dele a pequenês e a fraqueza que o homem sente quando quer defender causas justas em qualquer tipo de governo. Eu sou fã de Gil como músico e como político. Convivi com ele e vi que era capaz de decisões, de olho clínico, de saber fazer a volta, contornar, para não fazer enfrentamento fora de hora, para não jogar final nas oitavas de final, deixar o jogo mais duro para depois, que é habilidade do homem que estudou administração de empresas como ele. Quando cheguei a São Paulo para fazer 'Arena Canta a Bahia', ele me disse que a vida profissional era diferente da amadora, que a resposabilidade era outra. Ele falou isso com aquele jeito de pai que ele possui. E me impressiona como camarada larga o conforto, seu Grammy, para ir lá dar cara para bater, sabendo que lutar contra poderosos é batalha perdida. Minha geração não pode se queixar. Aquele que tinha capacidade aceitou o desafio. É claro que o homem tem orgulho e vaidade, mas as vezes isso serve a todos. Não sou bom de julgar políticos e pode ser até que esteja errado quanto a Gil, mas eu estou dando minha impressão.

ÉPOCA - Em um de seus textos, você fala que, na divisão do espólio tropicalista, você foi enterrado. O que foi essa divisão?
Tom Zé Nossa senhora. Quando os meninos foram para a Europa, parecia que foi anunciado que tinha uma vaga no tropicalismo, porque o Tom Zé saiu. E aí o que apareceu de candidato. Eu estava em uma fase que ou largava aquela coisa toda ou não chegava ao projeto que estou apresentando, desde 1990, quando fui descoberto por David Byrne. Em 1975, o produtor Guilherme Araújo, um pouco protetor, sugeriu de eu cantar música caipira. Eu seria uma novidade naquele tempo, mas nem pensei nisso porque estava mergulhado na loucura de fazer Estudando o Samba. Não fui tentado por esse recurso fácil. Outra coisa. Quando começou os fuxicos contra mim, em Londres e no Brasil, em 1969, Gil chegou no show meu e da Gal, no Rio, e já havia um clima para me expulsar dali. Sentou todo mundo em volta de Gil depois do show e ele começou a dizer: 'O que há de errado com você?' Repetiu isso algumas vezes Tomei um susto porque Gil é muito objetivo. Ele disse: 'as duas músicas que ouvi você cantar são músicas aqui, em Nova York, em qualquer lugar, então o que há de errado com você?' Entendi o que estava acontecendo. O fuxico estava pesado e ele não era de entrar em fuxico. Aliás, não quero interpretar. Interprete vocês. E aí Gil mudou: 'Não há nada errado com você'. Quando um lugar está disponível, as pessoas tentam chegar mesmo, e o tropicalismo dava muito dinheiro. Todo mundo queria o seu também. É natural, humano. Não tem problema.

ÉPOCA - Mas qual era o fuxico?
Tom Zé Se você me pede isso estraga o que eu estou dizendo. Ninguém vai arrancar de mim mais nada do que estou dizendo aqui. Estou apenas respondendo algo que nunca disse a ninguém. Ficou parecendo que eu estava saindo, porque estava dedicado a outro projeto. Todo mundo que estava perto, humanamente, achou que podia pegar o lugar. Quando a mentira é doce a verdade é um coice. Se eu estava desaparecendo, então era melhor, porque fica eles diziam: 'fica esse cara aí, que fez esse negócio antes, e quando a gente o encontrou ele já tinha essa forma na mão, ele não disputa nada, não defende o dele'.

ÉPOCA - Mas você não servia para a cena tropicalista?
Tom Zé Não sei. Nunca pensei nisso.

ÉPOCA - Você não era muito acanhado para o tropicalismo?
Tom Zé Era acanhado em meu procedimento social, mas no artístico era super desacanhado, o desinibido que fui a vida toda. O objeto arte em minha mão sempre foi tratado na fronteira.

ÉPOCA - Mas o tropicalismo tinha uma presença extra-musical também.
Tom Zé Pode ser. É uma boa pergunta. Tomo até um susto com ela. Discussões assim são dignas. Mas em relação a isso só faço comentários colaterais. Agora sem dúvida que fui enterrado. Era o Trostky do Tropicalismo e fui tirado do retrato. Me lembro que, nas reportagens de cinco anos do tropicalismo, Tom Zé estava em todas. Reportagem de 10 anos, Tom Zé estava na metade. Na de 15 anos, não estava em nenhuma. E aí na de 25 anos eu voltei. Mas volto por que? Passei a fazer alguma coisa que não fiz ou volto por que a América mandou um recado que existo. Que diabo é isso? Ou não existo ou existo.

ÉPOCA - Luiz Tati diz que o tropicalismo foi contingência em sua vida. Seu interesse era outro, não música popular?
Tom Zé Vamos falar pura e simplesmente. Ainda não estou capaz de ter uma visão sensata de tudo que aconteceu em minha vida, do que foi culpa minha e de fora de mim, do que não tomei a responsabilidade de assumir a defesa de meus direitos, não estou preparado para julgar isso com isenção. E a pessoa tem fraquezas. Determinadas épocas já posso trabalhar com afinco e tirar dali algo de instrutivo para outras pessoas. É o caso do período entre 1950-1955, do qual trato no livro. Eu escrevi esse livro para meus patrões. Não sou compositor livre, eu tenho patrões. Graças a Deus. Esses patrões são jovens, precisam dessa rebeldia que produzo, que é minha principal proteína, e eles me alimentam. Minha casa é mantida pelos jovens. Meu penúltimo disco, vendeu para público com idade média de 20 anos. O último, baixou para 18. Tenho responsabilidade com essas pessoas. Sinto vontade de atender a eles. Não sou herói. Sou medroso, fraco, covarde. Sou igual a qualquer criatura do mundo. Defino algumas coisas e outras não. Venho de uma infância difícil, fui criança oprimida, por circunstâncias que não foi pobreza, mas contratempos do destino, e nunca me queixei. A Continental em 1979 não podia mais me ter, estava sem conseguir vender disco, é natural que não me quisessem. Eu fiz o Estudando o Samba, que foi um disco mais caro que o normal. E não vendeu apesar de Chacrinha ter roubado uma coisa dele. Tem um provérbio oriental que diz que, quando você tem muito, a esse muito lhe será acrescentado, mas, quando você tem pouco, a esse pouco lhe será subtraído. Eu não tinha nada e faço esse verso 'eu estou te explicando para te confundir'. Duas semanas depois o Chacrinha aparece com 'Eu vim para confundir'. Esse quadro é ótimo para mostrar o que minha personalidade tem de fraco. Quando vi isso, fiquei assustado, com medo. Quando você não toma conta do seu, o mundo acha que está disponível. Me responsabilizo pelos meus erros. Não culpo ninguém.

ÉPOCA - Para um jovem que teve infância oprimida, rejeitado, a música é uma afirmação de identidade?
Tom Zé Isso. Eu passei a existir a partir da música. Eu me sentia uma nulidade, à margem, um rejeitado, tanto na família como na sociedade. Quando você recebe uma informação na célula inicial, você coloca ela nos olhos de todo mundo. Isso em psicanálise chama-se projeção. Não sou um compositor certinho, que aprende na universidade do bom procedimento como é que só se fala o certo e como se escapa dos assuntos dolorosos, como se mostrar poderoso. Sou uma alma nua. Sinto que minha platéia não precisa de um guia, de um deus ou de um guru. Sempre lutei contra as palavras de ordem. Houve um tempo em que me cobravam heroísmo. Mas isso não é comigo. Herói não ajuda em nada grupos sociais.

ÉPOCA - Seu estilo baseado na incompletude e imperfeição da canção é determinado pela insuficiência como instrumentista, compositor e cantor?
Tom Zé É fato. Essa limitação gerou um Deus nos acuda e a luta para libertar a fera que reside em mim. Eu precisava procurar um buraco para viver porque a vida insistia em mim com forças inimagináveis. Parece verso clássico de poeta português.

ÉPOCA - Mas sua música não é também uma rebelião contra o fazer o certo?
Tom Zé O ser humano tem intuições, principalmente o artista que tem útero, porque o artista é muito feminino. Essa pergunta é o diabo. Eu posso ter apenas arrumado o pretexto para ir para onde eu queria. É possível. Desmancha até minha história, de fazer como faço por deficiência, mas é uma possibilidade maravilhosa. Uma vez eu fui fazer uma harmonia para 'A Noite do Meu Bem', de Dolores Duran, e depois de dias consegui algo medíocre. Tive então o seguinte raciocínio: 'Quando vou para o imprevisível e para o estado do bárbaro rebelde, consigo muito mais resultado em menos tempo'. Em dois dias, teria feito quatro ou cinco versões da Dolores Duran. Desde então direcionei meu trabalho para a rebeldia. Compreendi que era melhor fazendo o que não está no livro. E olha que essa versão me valeu uma vaia em um show. Vinte anos depois, Gil tentou me salvar de nova vaia. Ele estava presente na primeira vaia e, em seu show de 25 anos de carreira, me chamou para fazer um canção. Perguntou como estava minha vida, eu disse que David Byrne ia lançar um disco meu, ele tomou um assusto, mas me chamou para cantar. Gil ficou com tanto medo de eu ser vaiado que sentou na primeira fila do público aprovando minha participação com a cabeça. Quando acabei e ele subiu ao palco, disse que tinha ficado contente pelo público ter gostado de mim. Então eu não tenho mágoa de nada. Acho importante ter vivido com pessoas que ajudaram a tirar o Brasil da fossa na ditadura. Vamos considerar isso. Não precisa esperar eles morrerem. Vamos dar valor, amigos e inimigos, esses que trabalham febrilmente. Quem tem inimigos como Caetano não precisa ser amigo. Os inimigos dele se reúnem regularmente, cobram um do outro a atividade de militância constante, dizem 'você faz um mês que não manda bomba, está passando para o lado dele seu sem vergonha', ou seja, Caetano é o diabo mais perfeito que existe para ser atacado.

ÉPOCA - Você parece unir, em seu processo criativo, a teorização e o conceito, esse seu apreço aos planejamentos, à uma abertura para o acidente da realização.
Tom Zé Assino embaixo. Mas geralmente faço a teria depois. Primeiro acontece uma coisa. Às vezes, você pode planejar antes, porque sem plano você fica perdido. Mas no geral primeiro acontece alguma coisa e depois eu dou o conceito para me guiar. O redemoinho do acaso e da necessidade ganha um aspecto de protótipo. Tenho de correr risco para me dar bem. Mas nesse sentido não se pode fazer nada sem falar de Hermeto Paschoal e Luiz Tati. Nos tempos pós-históricos, são as coisas desgarradas, passaram pela relatividade e já estão em outra coisa. Hermeto faz essas brincadeiras que eu faço, mas ele faz começando pelo lado oposto, porque é um dos maiores músicos do mundo e, se despreza o musicalmente certo, é porque tem autoridade para isso. E eu desprezo porque não sei fazer. E o Luiz Tati é o que faz teorias, passa por cima, joga fora, só faz músicas com teses. E quero dizer isso mesmo: Luiz Tati é hoje o maior compositor que conheço hoje. Faz a platéia virar torcida.

ÉPOCA - Por que você decidiu ficar em São Paulo em vez de radicar-se no Rio?
Tom Zé Muito simples. Quando mergulhei no ostracismo, em 1973, depois de Todos os Olhos, a população estudantil em São Paulo era muito grande, na capital e no interior, e esses jovens me mantinham na profissão de artista. Ligavam para mim diretamente e eu saia com uma Brasília, ia para os diretórios estudantis, cortando esse Estado umas 40 vezes, de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Os universitários me mantiveram artista. Depois me casei aqui em São Paulo, minha mulher trabalhava aqui, fui me fixando. Eu não tinha condições de sair daqui. Na divisão das despesas, muitas vezes, era ela que pagava mais. Ou eu ficava aqui, ou ficava aqui. O que eu faria no Rio? Nem os universitários de lá tinham intimidade comigo.

ÉPOCA - Mas sua música tem muito mais a ver com a multiplicidade cultural de São Paulo do que com o ambiente musical do Rio.
Tom Zé Isso. São Paulo dá mais corda, tem o ambiente múltiplo. Me sinto paulistano nesse sentido. Tudo aqui é uma linguagem, a roupa, o cumprimento de horários, o trabalho mais devotado, a cidade menos solar. Eu não gostava de Salvador. São Paulo tem o sol que eu consigo suportar. A cidade estimula mais o trabalho, a criação e a concentração. Estimula e permite mais. No Rio, todos vão para casa. Em São Paulo, a gente se interioriza.

 



Copyright © 2003 - Editora Globo S.A. - Termos legais
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Editora Globo S.A.