Tom Zé - Inventor de Sons  
  Tatiana Lima - (Jornal A Tarde - Caderno 2)


Foto : Divulgação ( Liz Nunes )

Com Defeito de Fabricação, novo disco de Tom Zé lançado nos EUA é sucesso na imprensa internacional com jovens músicos norte-americanos e brasileiros e premiado pela crítica paulista

O álbum Com Defeito de Fabricação traz um emblemático texto impresso no disco.

Tom Zé começa assim: "O Terceiro Mundo tem um enorme e crescente população. A maioria dessas pessoas convertidas, por fim, numa espécie de andróide, quase sempre analfabeto, com insuficiente especialização para o trabalho''.

Mais adiante ele diz que os "andróides que se desviam do destino de mão-de-obra barata e passam a produzir cultura apresentam defeitos de fabricação. Dai entende-se por que as 13 faixas de seu disco são intituladas Defeito 1, 2, 3...

Ele vai discorrendo, com bom humor. sobre esses defeitos: O Gene, Curiosidade, Valsar:  Esteticar, Politicar...

No mesmo texto, Tom Zé fala : "podemos concluir que a era do compositor acabou" ( ... ) e que está se inaugurando a era do plagiocombinador".

Porém, no seu álbum.o músico mostra o quanto de invenção pode haver mesmo na repetição decorrente das limitadas sete notas da escala diatônica. Um artista que consegue desdobrar o samba da forma que ele faz, dificilmente pode ter suas canções aprisionadas, ou classificadas, no leque dos gêneros musicais formais. No seu disco há baião, samba, tango... mas estes ritmos se repetem em diferença.

Ele desloca os gêneros e desloca também os instrumentos de suas "funções" habituais. A força dos instrumentos acústicos é potencializada em Com Defeiro..., que não dispensa também os timbres elétricos.

O instrumento acústico, neste disco, não é inserido sobre a base elétrica para simplesmente dar um verniz, como ocorre freqüentemente nos arranjos pop. Os timbres acústicos e elétricos da música de Tom Zé entram numa trama sonora em iguais condições.

Se o caso é plagiocombinar, então Tom Zé começa plagiando a si mesmo. A faixa Defeito 1: Gene retoma os traços genéticos de Escolinha de Robô (gravada por ele em 1970), e Sândalo (de 1972). O Defeito 2: Curiosidade desdobra-se de A Babá (1972) e por aí vai.
Mas. confirmando a sua singularidade, é como se ele mergulhasse num rio, entrando no mesmo ponto, mas nunca sendo banhado pelas mesmas águas.

Tom Zé mostra que continua estudando o samba, ao entoná-lo de maneira impressionante em faixas como o Defeito 3: Politicar. Trabalha a circularidade e o minimalismo em letra e música no mântrico Defeito 4: Em Emerê. que compôs originalmente para o balé do Grupo Corpo. Lança mão de uma furadeira para o arrastão da poesia concreta. O Olho do Lago, composta por Cid Campos e que virou o Defeito 5.

Ele mesmo dá o crédito das referências com as quais dialoga nos seus chamados "arrastões". Arrasta Jorge Luis Borges, Caetano Veloso e Gilberto Gil; Martinho da Vila e o pagode: Tchaikovsky e música medieval; trovas provençais; Ernesto Nazareth, Zequinha de Abreu e a música pós-barroca e renascentista italiana; Flaubert com música caipira; sanfoneiros nordestinos.
E faz um disco delicioso de se ouvir, no qual os efeitos de sua inquietação transculturalista não trazem os defeitos da empolada erudição. Com Defeito... é um disco lúcido e lúdico.

Desde setembro, o baiano, Tom Zé, 62 anos, vem cumprindo uma maratona de entrevistas em periódicos como o The New York Times, as revistas Rolling Stone, Billboard e Spin, entre outros.

Ganhou o principal prêmio musical da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e foi indicado ao Grammy na categoria world music. Motivo? Os efeitos, do novo disco, Fabrication Defect, do selo norte-americano Luaka Bop. O Brasil ainda tem que aguardar o lançamento nacional do álbum em 1999, que terá o título Com Defeito de Fabricação. Mas algumas lojas paulistas estão importando o CD, que pode ser adquirido também através da Internet. Nesta entrevista, por telefone, o iraraense fala do novo disco e do projeto de retomada da construção de seus instrumentos pouco convencionais.
A conversa chegou também a temas como a ética e o estilo da gente simples de Irará. "Puxando por mim e empurrando, sempre esteve o visgo dos sons e imagens da infância, conscientes e inconscientes", revela Tom Zé.

P - Que aproximação você estabelece entre este novo disco, Com Defeito.... e o anterior The Hips of Tradition?

R - Estou sempre querendo repetir a " fonte da nação". Aquelas lavadeiras, o sol claro. o colorido das roupas estendidas o canto fanhoso. Mas o rio corre e suas águas nunca voltam ao mesmo lugar. Toda vez faço uma tentativa e a lua é outra, o verão desinvernou. Tem sempre acordes diferentes para resolver. Quero repetir, mas erro. A minha técnica de composição é também sempre a mesma: o baixo e a guitarra retroagindo na sua história de instrumentos, como se, ainda canhestros, só pudessem fazer percussão - e não melodia e harmonia como podem fazer hoje. Assim voltam atrás e passam para o naipe percussivo, a cozinha. Depois começo com os cavaquinhos, na região bem aguda, fazem um rigoroso contraponto rítmico com esse ostinato do baixo e da guitarra. Só então tento cantar, ou acabar de pôr a came nesta parede, nesta taipa.

P - O que representa a "plagiocombinação", conceito do novo álbum?

R -
Quando falo em copiar estou me referindo ao problema das sete notas da escala diatônica estarem com as combinações esgotadas. Alguém pode me dizer que há também os tons vizinhos e as modulações. Respondo: mesmo assim, desde antes do tempo em que Pitágoras, batendo numa corda, observou que ela soava inteira e soava também pela metade uma oitava acima. depois uma quinta acima, o povo já cantava na escala diatônica - da mesma maneira que o japonês canta na escala diferente dele. Qualquer matemático faz as contas e vê que as coisas já estão se repetindo. Estou me referindo a Bach pegar uma peça de Vivaldi, mudar de tonalidade e assinar seu nome. Me refiro ao século XVIII, quando a palavra autor derivou de autoridade, porque melhor compunha o minueto quem o fazia de forma mais aproximada daquele que era o padrão.

P - A que você atribui o interesse que sua obra desperta em artistas como o grupo mangue beat, pernambucano, Cascabulho. Sean Lennon e os californianos da banda Cake?

R - Talvez ser fora de moda. Ter escolhido o caminho que ninguém escolheu, porque parecia o pior e foi abandonado por quem escolheu o melhor caminho. Ou então é a história do patinho feio... Com o Cake, o John McCrea um dia falou numa revista americana que tinham pessoas que faziam letras inesquecíveis. Falou de Cole Porter, de outros americanos e de mim. O Jornal do Brasil repercutiu isso e trocamos correspondência a partir daí. Quanto à banda Cascabulho, ao Mundo Livre (S.A.) e outras,como não sou de Salvador, sou de lrará, é como se eu fosse um nordestino de estados como Pernambuco ou Sergipe. Por isso. converso, pelo rádio e pela TV, com os meninos de Pernambuco e fico contente quando eles também ganham espaço. Sei que só Salvador sabe fazer a fotossíntese. mas lá em Irará a gente pelo menos fica bronzeado...

P - Bandas como Tortoise e Stereolab e artistas como Sean Lennon e Yuka Honda fizeram um remix do seu álbum. Como está ?

R - Estive lá (em Nova lorque) em setembro e ouvi dois ou três remixes. Vi que conservam a voz do cantor e alguma coisa específica do meu estilo de arranjo, como os cavaquinhos. Aproveitam a brincadeira rítmica com o samba e o baião que sempre estou degenerando, ou entortando a batida normal... No caso do Sean Lennon. ele me chamou para participar. Percebi que uma das colaborações que ele fazia era um estudo de timbres. Toquei jornal, furadeira e fiz percussão de saliva. Tudo tentando sortir a prateleira de timbre. Mas é outra música, outro mundo, o estilo deles. É como pensar em Noel Rosa compondo o samba Nave Maria - só para aproveitar a página deste jornal para ficar perto de gente boa.


P - Nos anos 70, você desenvolveu instrumentos musicais a partir de eletro-domésticos e utensílios de trabalho. Planeja retomar?

R - O Grupo Corpo disse que está interessado em me ajudar a reconstruir os instrumentos. Fernando Veloso até brincou e disse: "Se a gente não fizer estas coisas é melhor abrir uma bodega". Paulo e Rodrigo Pederneiras ficaram contentes com a proposta e já estou trabalhando com as fontes da Orquestra de Hertz (um dos instrumentos) e com outros instrumentos. Estou reunindo o material.

P - Você nasceu numa pequena cidade, antes da chegada da luz elétrica. O que preserva da infância pré-gutemberguiana?

R - Nunca abandonei o tipo de mosaico ético que rege o espírito do Recôncavo e do Nordeste. Acho que o Tropicalismo adotou novos desejos, novos objetivos e teve que mudar esta ética. Isso foi importante. útil e necessário, produziu riquezas estéticas e foi para o Brasil como uma montanha de Serra Pelada. Ouro puro. Mas eu estive fora desse postura. Basta ler uma página de Guimarães Rosa para saber a segunda linguagem que tive na minha infância e perceber uma ética e uma estética embutidas ali.

P - Por que fazer música?

R - Um dia o restaurante universitário me mandou um documento cobrando os anos de alimentação que tive, conforme rezava um acordo. No dia em que o recebi fiquei emocionado. Pensei: esses poucos cruzeiros significam minha educação com professores tão bons como Widmer, Koellreutter, Yulo Brandão, Smetak? Mandei pagar com alegria e como se fosse um ato religioso. Desde criança estudei em escolas públicas, com ótimos professores. Penso que tenho um débito com o país, que devo devolver. E minha sala de aula é o disco, grupos que possa reunir e a utopia de ensinar música de uma maneira mais aberta, para que o Brasil continue nessa produção musical que já é um desfrute do planeta. A TARDE, que está fazendo agora esta reportagem é lida por muita gente e acabo tendo uma opinião que influencia. A TARDE é também outra sala de aula. Tenho débitos e os pago com meu disco, minhas atitudes, minhas opiniões. Gosto da transmissão de valores éticos.

P - Que conselho você daria a um artista iniciante?

R - Sei que agora têm meninos e meninas, nessa Bahia tão sacudida pelo terremoto santo da invenção, que estão na encruzilhada, sentindo a estranheza de querer alguma coisa que a escola não ensina, que os pais não estão esperando deles. Esses, os artistas na incubadeira, estão na solidão natural do momento em que vão fazer o seu voto - abandonar o mundo formal dos escritórios, bancos e balcões. Sinto que é preciso ir lá na caverna dessa solidão, onde a gente tartamudeia e não se reconhece na Iíngua vigente. Mas na hora em que uma sílaba se torna som: é o verbo, é o Gênesis. Digo: tenha calma dentro da sua caverna. Segure aí seus pêlos arrepiados, porque é assim mesmo. Sua vida pode ser frutífera, solar, alimentadora das gerações que você vai representar e influenciar. Falo, apesar de parecer idiota, porque nunca fiquei na moda, nunca escolhi ser amigo do rei, nem politicamente correto, nem alfabetizado, nem esnobe. Tudo o que faço corre mesmo o perigo da imbecilidade. Aliás, cada passo na arte é sobre o fio da navalha entre ridículo e o brilhante.