IMPRENSA
- Você não entendia o que estava acontecendo?
Tom Zé - Eles me responderam: o negócio do bispo. Fui ver a matéria
e estava escrito o que o bispo disse. Eles achavam que eu tinha inventado. Foi o meu maior
sucesso na imprensa baiana.
IMPRENSA - Você chegou a escrever regularmente para
alguns jornais?
Tom Zé - Quando o tropicalismo fez 25 anos,
foi em 85 eu acho, fiz durante uns 8 meses uma coluna no Caderno 2 do Estadão.
Fui convidado pelo Alberto Villas. Uma vez o Oscar Ulisses, irmão do Osmar Santos - agora
já estamos na imprensa coletiva, me ofereceu emprego num tempo em que eu estava
completamente fora do circuito. Eu ia naquele programa chamado Balancê, e fazia muitas
brincadeiras. E um dia o Oscar Ulisses bolou uma idéia de me colocar como repórter de
campo, eu fazendo uma espécie de conversas com a torcida. Eu não cheguei a fazer, mas
agradeço muito ao Oscar. Foi o único sujeito a me oferecer um emprego na hora do aperto.
Hoje, se pudesse, gostaria de oferecer a ele um emprego na música (risos). Mas episódio
com a imprensa, o mais importante mesmo, foi o dia em que a imprensa me salvou a pele.
IMPRENSA - A pele?
Tom Zé - Exato. Eu fui preso pela polícia
comum. Mas por isso mesmo me inquietava muito.
IMPRENSA - Por que você foi
preso?
Tom Zé - Alguém, algum
amigo ou conhecido, me denunciou. Os policiais chegaram, começaram a vasculhar a casa
inteira e acharam um cotoco de cigarro de maconha. Então fizeram o diabo. Me levaram, mas
eu disse à Neusa, minha mulher, para avisar o Laerte Fernandes, que na época fazia a
primeira página do Jornal da Tarde. Ele falou com o Percival de Souza, repórter
policial, e eu acabei saindo graças a eles.
IMPRENSA - Você tinha medo de
sofrer algum tipo de violência?
Tom Zé - Eu tinha medo de
ter de denunciar alguém para poder sair. Naquele tempo era assim. Você saia com
dinheiro, pagando, ou denunciando alguém. Você imagine o horror de ter de denunciar
alguém, um colega, para se livrar. Tem gente que não suporta isso. Tem gente que prefere
virar Joana D'Arc a acusar alguém. Por felicidade eu não fui posto à prova. Eu não sei
se eu teria coragem ou não. Mas eu fui bem tratado, por causa da intervenção do Laerte
e do Percival, o delegado foi muito gentil, me passou uma reprimenda por causa da maconha,
eu disse que até tinha muito medo de usar por causa da minha asma.
IMPRENSA - O que você acha dos
políticos brasileiros, de modo geral?
Tom Zé - Quando a gente vê
a atuação dos políticos, hoje em dia, verifica que a maioria deles está muito distante
da ética. Eu nasci ouvindo falar em ética. Meu avô, fazendeiro, Pompídeo Santana e
Hermídio Paru D'Arco, outro fazendeiro, eles conversavam com aquela voz grossa de seu
Hermídio, durante as tardes lá em casa e só falavam de ética. Só falavam do
procedimento do homem diante de certas situações. O homem, diante dessas situações,
mantinha o respeito e procedia com humanidade. Esse é o problema principal da autoridade:
é manter o respeito e proceder com humanidade. Eles viviam esse problema no dia-a-dia.
Eles eram autoridades na região, lidavam com o sofrimento de muita gente, gente muito
pobre. Como nós não temos nada no nordeste, um dos valores mais importantes é a
palavra. Lá se fala muito na "palavra de homem". Tudo é na palavra. A palavra
tem um significado enorme. O que significa a palavra dever? O que significa autoridade? O
que significa pai de família? Então todas essas palavras formam o conjunto das nossas
deidades, diante das quais nós nos ajoelhamos.
IMPRENSA - E o presidente
Fernando Henrique Cardoso?
Tom Zé - O presidente da
República é a falência da utopia universitária. Já tinha falido a utopia comunista,
já tinha falido a utopia não sei que lá, agora faliu a utopia intelectual. Todo dia ele
chega e diz coisas que eu acredito plenamente. Sabendo, claro, que tudo isso que eu
entendi hoje, que eu acreditei hoje, amanhã está errado e que o certo é fazer outra
coisa.
IMPRENSA - Então é mais uma falência da palavra?
Tom Zé - É a
falência do dicionário. Para o nordestino o Aurélio, o Caldas Aulete, são pessoas
muito importantes. O dicionário serve como um guardião do acordo do homem com Deus. Essa
coisa que os judeus praticam no velho testamento.
IMPRENSA - Você é eleitor do
Fernado Henrique?
Tom Zé - Sou. Votei na
primeira vez, durante o governo todo eu acreditei, mas agora está muito confuso para se
acreditar no cara. Já é muito, desculpe, eu não quero denegrir uma pessoa, o Fernando
Henrique, eu quero dizer que eu não posso mais acreditar que ele seja honesto consigo
mesmo. Isso é terrível para mim! Basta dizer que eu não acredito que ele acredite no
que fala. Antônio Carlos Magalhães parece agora que fala mais honestamente, pratica o
que ele fala mais honestamente, é uma coisa mais pura do que Fernando Henrique.
IMPRENSA - Como você vê a
figura de Antônio Carlos Magalhães na Bahia?
Tom Zé - Eu sou contra, sou
da outra política. Existe um decálogo do Antônio Carlos Magalhães que é um decálogo
lindo. Eu li isso numa revista mas infelizmente só lembro de um item. Mas é uma coisa
linda. De uma sabedoria árabe, oriental. Até hoje eu pratico isso. Diz assim: quando vou
na casa de um correligionário, eu não olho na cara dos adultos. Eu olho na cara das
crianças. Criança não mente. Se os pais falam mal de mim eles vão dizer no olhar.
Ha...ha... ! Que filho da mãe, hein? Putar cara vivo!
IMPRENSA - Mas você é contra
ele?
Tom Zé - Dizem que a Bahia,
além daquela fachada de uma terra rica em Eros, em vida, em cors, etc... é o estado que
mais tem tuberculoso, que mais tem analfabeto, que mais tem isso e aquilo...
IMPRENSA - Quem é bom político,
no Brrasil de hoje?
Tom Zé - O Umberto Eco
divide as pessoas em apocalípticos e integrados. Quem ainda pensa em pagar dívidas, quem
ainda pensa em valores que se sustentam em suas bases, esse é um bom político. Eu vejo o
Mário Covas nesse aspecto. Um homem que quer pagar suas dívidas. Covas é um
apocalíptico! É um homem deslocado nesse mundo de meu Deus.
IMPRENSA - Mudando de assunto,
você continua macrobiótico e adepto do tai-chi-chuan?
Tom Zé - Não tenho mais o
rigor de antigamente. Eu não consigo ainda viver sem carne. Ainda. Tenho pecados ainda a
pagar. Eu gosto de comer e como bem. Eu sou magro assim porque, como a gente diz no
nordeste, tenho um organismo mal agradecido. Quanto ao tai-chi, eu, de manhã, faço duas
horas de tai-chi. Faço porque gosto, porque sinto falta. Então se eu marco uma
entrevista com vocês para as 3 horas, ela já começou desde cedo, quando eu tenho que
reservar meu tempo sagrado para o tai-chi. Depois, eu já ensaiei hoje com a minha banda,
já convivi com os meninos, que é outra coisa maravilhosa que eu tenho na vida.
IMPRENSA - É importante para
você essa convivência com os jovens?
Tom Zé - Dizem que quando
Moisés estava para morrer, os políticos do povo judeu procuraram os sábios e disseram:
ele não pode morrer ainda, o povo judeu precisa muito dele. Aí os sábios se reuniram e
chegaram à seguinte conclusão. Tem de botar ele para morar perto de crianças de 12
anos. Porque a energia das crianças vai passar para ele. Tanto que a palavra harém vem
disso. Não vem de ter muitas mulheres para desfrutar. Eu sou um pouco como Moisés.
Procuro conviver muito com a classe universitária. Eu canto quase todo ano na Escola
Logos, na Escola Quarup, canto muito para crianças. Então eu sigo o conselho dos sábios
do povo judeu. Todos os rapazes da banda são crianças junto de mim. Eu estou com 62.
Nasci em 1936, e els todos são pessoas de, no máximo, 40 anos. Lauro Lellis, baterista,
o Gilberto Assis, contrabaixo, Jarbas Mariz, vocal, percussão e guitarra de 12 cordas,
Cristina Carneiro, que é a musa, teclados, e Marco Prado, guitarra.
IMPRENSA - E a música, quando
você descobriu que era a sua praia?
Tom Zé - Eu tinha uma
pré-disposição, uma sensibilidade muito grande, para a observação. Eu costumo dizer
que minha profissão não é musico. É observador. Um dia um amigo meu, o Renato Martins,
eu já tinha então 17 anos, chegou e me disse que a partir daquele momento não ia mais
tocar flauta. Ele era uma pessoa dessas que vivem surpreendendo a gente. Ele tinha um
violão com ele. Encostou assim e tocou: blam, eu não quero outra vida pescando no rio de
Jereré... E quando a pessoa canta tan, tan, tan, tan,, o violão faz tan, tan, tan,
tan... essa polifonia realmente me fascinou. Me tirou dos compromissos que eu tinha
naquele dia, e era um compromisso com umas moças muito interessante e me tirou de tudo,
me tirou da vida. Esse movimento contrário, o violão fazendo uma coisa, a voz fazendo
outra, me apaixonei por aquele movimento. Eu não sabia nada daquilo. Naturalmente vim a
saber mais tarde. O ajundante do ônibus que levava a gente até Irará me trouxe, de
Feira de Santana, o método do Canhoto e um violão. Aí veio a paixão, e veio também
uma segundo coisa, que eram as deficiências. Eu me tornei um músico inventor, e consegui
alguma importância, exatamente por causa das minhas incapacidades.
IMPRENSA - Explica melhor isso
aí?
Tom Zé - Quando eu passei a
conhecer melhor o violão percebi que era incapaz de acompanhar uma bossa-nova ou de fazer
uma canção bonita para a namorada. Então cheguei a seguinte conclusão: nãoo interessa
o que vou fazer, eu era feio, não era tipicamente branco, nem dominador, e ao mesmo tempo
precisava arranjar alguma coisa para me afirmar como gente. Então eu disse: eu tenho que
prender a atenção das pessoas por três minutos pelo menos. Comecei a fazer música
falando de Irará, o calçamento das ruas, os doidos da cidade, e por aí. Essa música
que fiz sobre os doidos de Irará foi o meu primeiro grande sucesso. A banda de Irará
incluiu a música no seu repertório, o povo todo cantando. E na semana seguinte, o padre
proibiu. Conheci a censura quando criança, logo aos 17 anos. Aí comecei a fazer
canções sobre a vida diária. A tal imprensa cantada.
IMPRENSA - Você já tinha
consciência que ia incomodar?
Tom Zé - No princípio as
pessoas simplesmente se distraiam com aquilo. Como o nordeste tem uma tradição dos
cantadores "reportarem" a vida, então aquilo tinha um respaldo.
IMPRENSA - A primeira influência
tua então são os cantadores?
Tom Zé - Sem dúvida.
A primeira, a segunda, a terceira...
IMPRENSA - De onde vem essa
tradição da musicalidade do nordeste, e especialmente da Bahia?
Tom Zé - A gente pode fazer
duas fotografias disso. Uma instantânea, agora, e outra pegando a canção celta que foi
parar na península ibérica, onde os árabes invadiram e passaram 8 séculos
influenciando e sendo influenciados. Tanto para os árabes quanto para os celtas, fazer
canção era um assunto muito sério. O cantador árabe ou celta podia atingir altos
postos na hierarquia deles, ou outros artesãos, não. Isso pode parecer uma coisa remota,
mas tem uma dança no nordeste chamada "chegança" que descreve a luta e a
expulsão dos mouros. Os mouros foram expulsos da Espanha e de Portugal. Então se você
olhar uma feira nordestina, se observar o meu perfil, aquelas criaturas magras, secas,
aquilo ali é tudo sangue árabe.
IMPRENSA - E a fotografia do
momento?
Tom Zé - É isso que a
gente está vendo. É o folclore imensamente rico, mas rico de uma maneira... Eu vou
contar uma história, que eu explico as coisas melhor contando histórias. O Júlio
Medaglia, maestro, é casado com uma alemã. Então ele diz para a mulher dele:
"Sabina, aqueles países do norte da Europa não têm mais nada. Não têm música
porque não têm folclore". E realmente não têm mais nada. Esgotou. Então eles
foram os maiores músicos do mundo nos séculos XV, XVI, XVII, XVIII, XIX e agora
acabou-se. Realmente eu estava lá outro dia, na Suíça, jantando com o meu empresário,
um jantar num castelo que era restaurante, e numa dessas salas do castelo tinha um
casamento. E os músicos tocavam essas concertinas iguais as do nordeste. aquelas
sanfoninhas de 7 baixos. Eu fui ver o repertório deles. Eles não têm música nenhuma.
Tocavam música mexicana dos anos 60, Babalu e outras bobagens, e só tem uma música
deles. É aquela iourelei-ii, iourelei-ii. Que um brasileiro foi lá nos anos 50 e fez uma
música chamada "Samba em Viena". E só no Maranhão, um rapaz que estuda
música foi lá e registrou 38 maneiras diferentes de improvisar.
IMPRENSA - Como congada, coco,
essas coisas?
Tom Zé - Não. Aí você
está falando em gênero de música. Ele está falando do cantador que improvida sobre um
assunto. Você diz a ele: o tema é a revista IMPRENSA. Eles tem 38 maneiras diferentes de
organizar rimas, de organização rítmica, tudo fórmulas perfeitas, uma coisa altamente
sofisticada. E isso vem do que, essa sofisticação? Isso vem dos cantores medievais, dos
trovadores. Então, no nordeste, aqueles cantadores, mesmo analfabetos, são na realidade
altos intelectuais, capazes de discutir qualquer assunto, e discutem com uma certa lógica
catesiana altamente exigente e meticulosa.
IMPRENSA - E hoje, você não vê
uma distorção, pelo menos na Bahia? O axé-música o que seria? E o tchan?
Tom Zé - Bom, como não sou
teórico eu não posso responder a isso. Mas posso sinalizar como percebo essa coisa. Por
exemplo, o festival de Montreux, na Suíça, era até recentemente um lugar de música
quase que investigativa. Ele foi se popularizando e no último ano quem divertiu a
platéia no festival de Montreux foi o tchan. Então pelo menos o que nós chamamos de
lixo já é tão bem feito quanto o lixo de lá. Antigamente a gente só absorvia o lixo
de lá. Agora nós também mandamos o que a gente chama lixo para lá.
IMPRENSA - Você está chamando o
tchan de lixo?
Tom Zé - Não, veja bem,
não sou eu que estou chamando. Tem gente que chama, eu não. Tem uma coisa aqui no Brasil
que faz com que as coisas todas se misturem. Foi o assentamento das teorias de
Koellreutter, cujas diversas ondas concêntricas que vão se abrindo já chegaram aos
rapazes da música popular. Fui de uma geração educada na universidade, que já botou em
música popular tudo o que aprendeu, faz um tipo de música popular que é mais complexa.
De forma que a música popular recebeu informações sofisticadas. então, nós temos hoje
um grupo de compositores que já recebe hoje, direta ou indiretamente, tendo ou não ido
na escola, uma influência dessa música.
IMPRENSA - Você foi escolhido
como o compositor popular pela Associação Paulista dos Críticos de Arte este ano...
Tom Zé - Fui. Ah, isso foi
muito importante porque agora posso me chamar de compositor. E eu quero pleitear o título
de sambista. Porque o que eu faço é samba e ninguém me chama de sambista! Eu só faço
samba, bicho e baião de vez em quando, e não tenho o direito nem de ser de sambista. Vou
pedir que para o ano eles façam um adendo e digam que eu sou sambista.
IMPRENSA - Mas é um
reconhecimento meio tardio, não é?
Tom Zé - Não tem
importância. É que até pouco tempo os brasileiros não compravam a gente. Até 1990 o
publico que comprava isso no Brasil era pequeno. Tanto que precisou o exterior me comprar,
comprar o Marco Antônio Guimarães e outros grupos dessa natureza para o Brasil dizer:
mas venha cá, se os estrangeiros se interessam por que a gente deixa passar? Isso
aconteceu comigo. O David Byrne levou para lá algumas idéias minhas e hoje o Brasil se
interessa.
IMPRENSA - Então você insiste
que o tchan não é lixo...
Tom Zé - Como é que eu
posso chamar de lixo uma coisa se eu devo a ela o fato de o INSS não estar ainda mais
sobrecarregado. Eles são uma coisa importante para o Brasil. Eles são a medicina. Eles
são o que o tai-chi é para a China. A China, com a pobreza toda se aguenta em pé
graças ao tai-chi. E a gente aque graças ao tchan. O nome até se parece.
IMPRENSA - E o apelo ao sexo que
existe no tchan?
Tom Zé - Eu acho que o
sexismo que se vê nesse tipo de música tem um lado lúdico, e mais movimento do corpo do
que sexo. Depois vocês se lembram daquelas canções que eu chamo de
didático-porno-pedagógicas da Rita Lee, aquela coisa de me bota de quatro no ato, e eu
não vejo muita diferença entre essas canções e o tchan. Acho o tchan até mais
inocente. E entre esse tipo de música, que vocês chamam de lixo (eu não chamo de lixo)
e o que está lá na fronteira da música erudita tem todas as gradações que você possa
pensar.
IMPRENSA - Bom, agora nós
precisamos ouvir bastante você sobre a história do tropicalismo. Como é que foi? Quando
você se sentiu parte do movimento?
Tom Zé - Como eu não fazia
música "normal", quando apareci em Salvador, num programa de calouros chamado
"Escada para o Sucesso" - apresentei uma música chamada "Rampa para o
fracasso", e aí já foi um susto. O apresentador, o Nilton Paes, me disse:
"Você está bolindo com o meu programa?". Foi aí que descobri que a sintaxe
que eu usava era entendida. Então um cineasta de lá, Orlando Senna, que já fez cinema
em Cuba, me chamou num set de filmagem de "Beijo no Asfalto"- ele era assistente
de direção, e me disse: "você precisa conhecer o Gil e o Caetano".
IMPRENSA - Naquela época não se
chamava tropicalismo...
Tom Zé - Não chamava nada.
O nosso primeiro show juntos, já com a Gal, a Bethânia, o Caetano chamou o grupo de
"Nós, por exemplo". Foi em 1964, e quando vi o título, tomei um susto: eu
agora fazia parte do mundo. Depois, o tropicalismo abandonou uma coisa que não abandonei.
Foi muito necessário abandonar aquela ética nordestina, e tal, foi muito necessário
assumir aquela coisa do Oswald de Andrade, mas eu não fiz parte de nada disso. Eu estava
ali junto porque estava perto. Mas a mudança da ética foi muito boa. Produziu para o
Brasil muito desenvolvimento em todos os níveis, abriu espaço para circular cultura,
provocou reações, medo, pavor, a sensação de que estávamos inventando. Por exemplo,
um garoto novo que ouvisse aquilo diria: "esse é o meu mundo, não é o mundo de meu
pai, agora eu expulso o mundo de meu pai".
IMPRENSA - E já havia uma
crítica política, um posicionamento político?
Tom Zé - Não, e não era
para ter. É verdade que, como dizia, Augusto Boal, você faz política até quando você
está olhando para a lua. Quanto mais quando você está escolhendo prerrogativas
estéticas digo eu. Então não tinha uma coisa política propriamente, mas havia a
consciência que, dentro daquela idéia nova, havia uma revolução.
IMPRENSA - Mas você não aceitou
essa idéia nova?
Tom Zé - Não, pera aí. Eu
aceitei a revolução. Poxa, eu já era revolucionário desde o início. O que eu não
aceitei, ou o que não adotei foi a mudança posterior. Continuei adotando a ética
setaneja, e prefiro até hoje trabalhar com ela, ao invés de entrar pelo antropofagismo
de Oswald de Andrade.
IMPRENSA - O que você acha da
decisão da governadora do Maranhão, Roseana Sarney, de levar até lá dois caras dos
Estados Unidos, estudiosos de música, para que trabalhem em cima do folclore maranhense,
com uma visão já comercial e oferecer esses estudos a músicos profissionais para que
comercializem e dediquem uma parcela dos lucors obtidos às crianças pobres do estado?
Tom Zé - Acho um crime. Meu
Deus, se você ouve uma música aqui, você se influencia e não vai pagar ao Maranhão,
ou só talvez dois ou três apegados ao politicamente correto façam isso. Isso significa
roubar tudo o que a criança maranhense tem para depois dar uma esmola a ela. Eles estão
dando o sangue, a seiva, do Maranhão em troca de uma migalha que só aqueles compositores
tolos, metidos a politicamente corretos é que vão pagar. O Maranhão ficou lá exangue.
Se essa montanha de fitas que os americanos levaram de lá fosse tocada nas escolas, e
depois um professor de música selecionasse um punhado de alunos para desenvolverem as
idéias seria muito melhor. Chamassem nos, que fomos alunos do Koellreutter, os
professores da Bahia, essas crianças do Maranhão iam ter alimento, auto-estima... Jesus,
como é que se vende a auto-estima, o sangue de um povo. Realmente...
IMPRENSA - Agora, uma pergunta
talvez embaraçosa. O que você acha da crítica musical?
Tom Zé - Pessoalmente, eu
fui mantido vivo pela acuidade da crítica brasileira. Porque veja bem, em m73, eu era um
compositor já conhecido. E tocado. Aquele ano, o disco "Tom Zé e todos os
Olhos", que tinha um cú na capa - o cú ninguém sabia porque a censura naquele
tempo era brava, era só a idéia do Décio Pignatari de botar um cú fotografado bem de
perto, para poder ninguém acusar a gente de pornografia. Era um cú tão bonito, com uma
bola de gude dentro, que ficou nas vitrines e ninguém percebeu. Mas eu passei fases muito
difíceis. A macrobiótica me tirou do buraco uma vez, o tai-chi me tirou do buraco outra
vez, eu perdi peso, perdi energia, bicho, eu não tinha força para nada.
IMPRENSA - Mas era uma doença?
Tom Zé - Nada disso, tudo
adveio do abandono do colo da mãe, quer dizer, do artista que perde o colo da mãe, que
é o público. Mas eu sobrevivi graças à imprensa. De vez enquanto saia uma crítica ou
um comentário falando o meu nome, alguns perguntando onde é que eu estava.
IMPRENSA - Mas você não buscava
esse afastamento de forma deliberada?
Tom Zé - Taí, eu assino em
baixo. Esse é o meu lado neurótico, lado de querer o fracasso. E quem me salvou, até de
mim mesmo, foi a crítica. O Tarik de Souza foi um dos críticos que me deram força. Uma
vez ele chamou a atenção para um verso que dizia assim: "eu tô te explicando prá
te confundir, e te confundindo prá te esclarecer". Vocês se lembram do que?
Chacrinha, claro. Muito bem, ele botou na revista Veja. Aí, uma semana depois, o
Chacrinha usou a mesma frase no programa dele e mais tarde transformou em refrão
nacional. Eu ouvi, e estava ali preocupado em fazer instrumentos experimentais, duro, na
miséria, e digo: vai ver que a Continental combinou alguma coisa com eles. E nada, eles
tinham usado o meu verso, com uma ligeira adaptação, e nem consultaram a gravadora. O
sentimeno de ódio que eu tive, o sentimeno de lesado, o lampião que eu fui naquele
momento, me salvou também.
IMPRENSA - E hoje, como é o seu
relacionamento com o David Byrne?
Tom Zé - Eu trabalho com
ele com a ética do nordeste. Quando veio o primeiro contrato alguém me disse "está
em inglês, precisa traduzir", eu digo, o David já assinou? Então não precisa, dá
aqui que eu assino. Já fizemos três discos nos Estados Unidos e agora estão editando um
com bandas jovens fazendo remix de músicas minhas. O título é "Post-Modern
Platoes", que me disseram eles que a tradução é Platões pós-modernos. Agora, eu
não sou do tipo que vende um milhão de discos. O primeiro disco eu sei que vendeu 40
mil, 20 mil na América, 20 mil na Europa. Para um baiano de Irará já está muito bom. |