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Folha - Você já pode fazer um balanço de sua reentrada no sucesso?
Tom Zé - Falo com muito mais pessoas na rua. A Trama vendeu 40 mil discos
de "Defeito de Fabricação" (98, lançado aqui em 99). A gravadora
tem interesse, qualquer coisa de que necessite ela atende. Eu havia feito o
projeto de um disco de canções, coisas que durante a época do ostracismo fui
obrigado a fazer para voz e violão. No meio disso, ouvi as fitas de um show que
fiz em 78. Mostrei para João Marcello Bôscoli (diretor da Trama e filho de
Elis Regina), ele aceitou mudar os planos.
Folha - O que são esses instrumentos que você inventou?
Tom Zé - O instrumento que mais produz novidade -novidade, não posso dizer
isso...- é o hertzé. Uma vez li uma frase do arquiteto Buckminster Fuller, que
dizia assim: "Não é tempo da posse, é tempo do uso". Não sabia se
ele queria dizer ou eu queria ler que todas as orquestras do mundo podem tocar
para mim -daí a história de que inventei o sampler brasileiro. Era a chamada
orquestra de hertz, depois ficou hertzé.
Quando você está vivo no planeta Terra, você olha e tem 180 graus de céu. O
ouvido humano atinge até 5.000 hertz, mas todos os discos do mundo só chegam a
4.500. É como se naquele outro pedaço do céu fosse proibido ter estrelas.
Passei a me preocupar com essa região. O instrumento é isso. Pego violinos,
gravo no estúdio ou roubo de discos, boto uma ou duas oitavas acima e vou para
aquela região. Não é comestível, não é prazer? Por que jogar fora?
O enceroscópio nasceu de um acaso. Havia uma enceradeira emperrada em casa. Fui
tentar consertar, vi que ela podia fazer ritmo. Peguei outra e tentei fazer o
quebramento igual, ficar defeituosa também. Fizemos um desse em 78, que depois
destruímos por não ter onde guardar. Agora fiz os que já havia desenvolvido,
que já tinha certeza que davam certo, mas espero nos próximos anos vir a
apresentar outros instrumentos.
Vendemos uma casa em 78 para fazer os instrumentos pela primeira vez. Eles iam
entrar no disco "Nave Maria", mas no final não podia botar mais nada,
tinha de acabar porque o estúdio ia fechar.
Eu estava tão confuso na minha vida que isso só tem explicação na
psiquiatria. Como chama aquele negócio que a cabeça racha e você não sabe o
que pensa de lá e de cá? Esquizofrenia. Ser afastado do colo da mãe, um
artista ser afastado do colo do público... Fiquei doente de todo jeito, estive
para morrer três ou quatro vezes. Não tinha doença, era a cabeça que
enrolava. Em 85, não digeria nada. Ficava em pé para enganar Neusa (sua
mulher), para ela pensar que eu estava vivo. Estômago, intestino, nada
funcionava, tudo deteriorado, a pele da mão apodrecendo, alergias. Fui à
macrobiótica, me curei com dez dias de arroz.
Folha - O sucesso é curativo?
Tom Zé - É, sucesso é uma forma de saúde. Eu havia conhecido o colo da mãe
e havia sido subtraído dele, em 73, quando "Todos os Olhos" deixou de
tocar e eu fui sumindo. Um artista é submetido a doses grandes de carícia.
Alguns até só sabem receber carícia, não sabem receber nem crítica. Mas
posso me orgulhar porque mesmo quando não havia nenhuma carícia consegui
trabalhar, reconstruir. É claro que tenho amor por mim e vaidade, mas tenho
também amor pela música.
Folha - Por que tantos palavrões e palavras "proibidas" no disco?
Tom Zé - Antes de o homem se tornar o adulto amorfo, existe a necessidade
da rebeldia. As enceradeiras são xingamentos ao nariz das musas, ao gosto médio
vigente. Quando faço um ritmo arrevesado, estou desrespeitando o velho que é
contido até no jovem brasileiro, que consome sem sensibilidade uma música
porca, velha, morta. A rebeldia está em vários pontos, também na inocência
dos nomes feios e xingamentos.
Folha - Como foi voltar a gravar especialmente para o Brasil?
Tom Zé - Sinto-me muito alegre. Antigamente pensava que podia não ter
dinheiro no fim do mês para pagar o aluguel. Agora penso em música. Levaram-me
para esse substantivo comum formidável, a Trama. Curiosamente vim a me tornar
herdeiro de Elis Regina.
Folha - Um dos pilares da Trama são os filhos de Simonal, Elis e Jair
Rodrigues, mais conservadores segundo a ótica tropicalista. Seria um tipo de
neoconservadorismo?
Tom Zé - Eu os acompanho, assisto, torço, gosto. Mas o rap, a música da
periferia em que a Trama também investe, me atrai um pouco mais, porque é
estranhíssimo para mim. O deles eu conheço. Mas não sei se são continuadores
dos pais. No Brasil, as pessoas que falam que fazem música brasileira fazem
balada americana, não levo isso a sério. Dizem que o samba foi abandonado, não
acredito mais nesses nacionalistas. Os meninos estão se divertindo. Se não sou
radical com o axé, que é a autocomplacência mais evidente, vou ser com os que
estão perto de mim, lutando para começarem suas vidas? Não.

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