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República: Uma vez você
disse que seu grande sonho era criar uma música que fizesse um bloco sair atrás
dançando: Você acha que está mais próximo disso?
Meu
sonho agora é tocar na rodoviária e nos bordéis. Eu entro na rodoviária para
fazer um daqueles programas que de vez em quando a Rede Globo me leva para fazer
lá, Repórter Por Um Dia,e, de
repente... " O que é isso que está tocando?”, "É sua música...".
Como
a complexidade de seu pensamento pode ser entendida na rodoviária?
Tem
de ser reduzida a uma fisionomia tão fluente que possa tocar na rodoviária. Não
estou fazendo nenhuma música para gente especial. A gente está se
divertindo...
Mas
você se diverte lendo Pierre Vernant.
Mas
eu não faço música só para quem lê Vernant, faço música para qualquer um.
O
que estou dizendo é que a inteligência não é um prazer para todos.
Eu
não sou capaz de defender a tese, mas diria que sim. O que aconteceu no Abril
Pro‑Rock? O que acontece em São Bemardo, São Caetano, na vila não sei
de onde? O povo ficou inteligente ou minha música ficou mais fluente? Eu estou
lutando pela fluência. Eu me divirto quando chego perto dessa fisionomia que a
gente quer.
Mas
você mesmo diz que faz músicas sem tonalidade.
Sim,
mas desculpe, isso é uma coisa para a qual eu não tenho jeito, eu não sou bom
em tonalidade. É porque eu não tenho jeito, não é porque seja especial. Não
quero fazer uma música para ser diferente. Quero ser incluído no meio do povo.
Sou um excluído, um acanhado, tímido, que luta para ser incluído.
Você
não vê mediocridade no que se faz por aí?
Não,
não! Mediocridade do povo? Que frescura é essa?!
E
da classe média?
Vade
retro,
Satanás! Não está aqui quem fala isso! Nunca! Eu sou um artista que tem a
obrigação de conseguir disparar o gatilho da comunicação. Eu não faço música
para eleitos.
Nesse
novo disco você se aproximou mais de seu objetivo?
Tentei
com todo o esforço. Mas só vou saber quando soltar o disco. A gente está com
a maior esperança de que esteja mais perto do popular. E que os intelectuais me
abandonem, me deixem na miséria, que a USP proíba minha entrada.
Há
quem diga que, na verdade, o Napster (programa que permite baixar músicas
da Internet com qualidade de CD)
vai
liberar os artistas dos grilhões das gravadoras. Qual a sua opinião sobre o
assunto?
Há
uma conhecida falta de ética e de respeito profissional. As gravadoras ficam
dispensadas do IPI (Imposto sobre Produtos industrializados) para fazer
um disco que seja barato. E elas vendem um CD por vinte e tantos reais. Todo o
mundo sabe também que a maioria das gravadoras não presta conta direito do que vende.
Você
é a favor de que se deixem músicas na Internet à disposição de todos?
Não
adianta ser a favor nem contra, já estão disponíveis. No Brasil, aliás, isso
não vai ser problema, aqui ninguém vive de direitos autorais. No meu caso, a
Trama me pagou 8%
fielmente
pelos direitos de Defeito de Fabricação. Isso, é claro, é uma coisa
que pesa no meu orçamento. Mas toda a vida foi assim, a gente tem essa impressão
de que estava diante do dilúvio. E, quando passa a crise, toda a sociedade se
reequilibra em alguma posição. Sempre vão precisar de mim para fazer a música.
Não adianta estar disponível se eu deixar de fazer.
Você
teve problemas no passado?
Se
tive problema, nem sei, não quero nem saber. Mas, por exemplo, Juca Chaves,
quando lutou para que os discos fossem numerados, foi expulso de todas as
gravadoras.
Os
discos não são numerados?
Não
são numerados, nunca foram, nem nunca serão. Teve também o caso do Lobão,
que chegou à conclusão de que lucraria mais vendendo seus próprios CDs. É
claro que, quando a pessoa dá um passo desses, há um boicote total para que o
exemplo não prolifere, um jogo pesado para evitar que ela seja bem-sucedida.
Antigamente, tinha escravos e homens livres. Hoje não tem mais homem livre. E,
se um de nós fizer uma coisa que realmente ameace o grande senhor do mundo
civilizado -
quer dizer, sete ou oito grandes empresas -,
essa coisa será calada! Qualquer rebelde vai ser amordaçado.
Por
quem? Pelo quê?
Não
tenha a menor dúvida, não estou inventando nada aqui. São sete grandes firmas
que mandam no mundo! Não vamos nem conversar mais sobre isso. Não estamos
tratando de nenhuma revolução, não vou virar o mundo pelo avesso. Não tenho
idéias para ameaçá-los.
Se tivesse, estaria correndo perigo.
Mas
suas letras continuam sendo políticas.
Sim,
continuam. Mas eu acuso minhas letras políticas de serem inócuas e inocentes.
Se
não há esperança de mudar alguma coisa, para que fazer letras políticas?
Tento
manter o ser humano vivo na sua parte cerebral. Isso é mais engajado do que a
aparência das minhas letras. A minha teimosia, minha empedernida obsessão de
inventar sempre uma coisa ligeiramente diferente, no que resulta? Estou com 64
anos e, todos os anos, canto para os calouros. A sociedade precisa de várias
coisas. A primeira é a sobrevivência, o alimento. Precisa que as pessoas façam
sexo para nascer crianças. Depois precisa de roupa. Lá, muito remotamente,
precisa de um pouco de rebeldia. A sociedade não vive sem rebeldia. É uma
necessidade mínima, mas existe. Eu atendo a sociedade nessa necessidade de
rebeldia. E quem mais precisa de rebeldia? São as pessoas de 15 a 25 anos.
Outra coisa curiosa: por que é que os jovens dos Estados Unidos vêm me
procurar? O Sean Lennon, o pessoal do Tortoise (banda
de Chicago)... Por
que essas bandas vêm me procurar? Por causa da rebeldia e porque, de certo
modo, eles estão procurando contato com um avô remoto que eu represento.
Represento o avô celta deles, a civilização moçárabe, que foi o povo mais
culto da humanidade, do século 7 até o 16. Portugal e Espanha, de onde eu
advenho, foram educados pelo povo árabe, pelas influências celtas e pelas
influências judaicas. Quando eu nasci, numa espécie de armadilha histórica, não
nasci neste século nem no Ocidente, nasci em algum lugar do mundo que não é
este, que era o Irará da minha infância, onde estava presente a cultura moçárabe,
a cultura celta, a canção árabe. () povo do nordeste da Bahia até hoje dança
a chegança, uma dança para a expulsão dos árabes. Eu nasci num povo
que ficou isolado naquela região do nordeste da Bahia. Ali deixou de ser
alfabetizado, ali deixou de comer proteínas. Passamos quatro séculos sem comer
proteína. Quando se recebe proteína, o cérebro começa a funcionar e se
recorda de que gosta de atividade, de comparar, de observar, de anotar. Tudo
isso sem saber mais o alfabeto. Um povo culto escreve seus livros, bota na
biblioteca e vai ver televisão! Mas nós, nordestinos, analfabetos, não podíamos
botar nossos livros na estante. Então, tínhamos de viver a cultura, de dançar
cultura, de falar cultura e de transmitir cultura oralmente, como a Bíblia
durante séculos, como a Odisséia,
de
Homero.
De
que forma você, um filho da classe média, se inseria nesse universo mítico?
Na
paisagem miserável das catingas, havia segredos esotéricos codificados. Eu
nasci nesse mundo. Antes de entrar no Ocidente, onde entrei por meio do
alfabeto. eu tinha um mundo com uma concepção geral, redonda, no qual tudo era
atendido no ser humano: a necessidade de cultura, a necessidade de trabalho, a
necessidade de diversão. Tinha minha língua, minha visão de universo. E um
dia passei a ter a segunda, no dia em que aprendi
a ler. Depois de alfabetizado, a professora me mandou ler um texto que dizia
assim: 'João levantou‑se". O que já me admirou, aquelas palavras
podiam indicar que uma pessoa fez isso. Que coisa mágica era aquela? 'Pediu à
professora para ir para casa. A professora deu permissão, e ele saiu
andando..." Nossa Senhora! Esses sinais aqui estão dizendo que a pessoa
caminhou, eu estou vendo a pessoa andar aqui nessas letras! Como é possível
isso? É claro que fiquei assombrado, eu, que era um observador: Pensava: “Será
que todo o mundo
aqui
está vendo o que eu estou vendo aqui nesses riscos? Não é possível que esses
riscos digam tudo isso!". E foi assim que eu entrei no mundo ocidental, foi
nesse dia. Fui para casa e passei a tarde pensando: "Será que isso é
mentira?". Duvidei durante muito tempo de que era possível todo o mundo
ter a mesma interpretação daqueles sinais que eu tive.
Acredita
que o Nordeste da sua época não era Ocidente?
Nisso
eu não preciso acreditar. Leia O Homem, a segunda parte de Os
Sertões, de
Euclydes da Cunha, abra qualquer página de Guimarães Rosa, de qualquer conto
dele, que você vê que o Nordeste - e por acaso também os Gerais, onde Rosa
viveu, teve a mesma experiência de trabalhar na loja do pai que eu também tive
-era outro mundo. Foi na loja do meu pai que aprendi a falar a língua que se
fala nos livros dele. Na universidade, uma amiga minha, leda Machado, me disse:
"Tom Zé, você anda dizendo que lê Guimarães Rosa? Mentira sua! Você não
lê uma palavra daquele livro, aquilo é coisa de intelectual". Fiquei mudo
e fui para casa me perguntando: "Quer dizer que a língua da minha infância,
do balcão da loja, é a língua de intelectual?". É claro que isso me dá
uma certa riqueza interior da qual tenho muito orgulho.
Essa
sua imagem do sertão medieval lembra muito a idéia dos armoriais (movimento cultural
liderado
por
Ariano Suassuna
que busca as raízes
medievais
da
cultura
do
sertão
nordestino).
Mas
eu sou um apóstata herege e agnóstico, e os armoriais são praticamente presbíteros
religiosos e tratam isso como se fosse o sagrado. Eu uso a armorialidade para
desrespeitar o mundo moderno, não uso para tentar conservar o mundo armorial.
Sou como um louco desvairado que pega uma bomba e sai borrifando todo o mundo de
protema. Eu sou um Dom Quixote borrifando a humanidade de proteína.
Você
lê muito?
Meus
tios queriam fazer os Estados Unidos falir. Por isso, me proibiam, quando criança,
de tomar Coca‑Cola e de ler quadrinhos. Era para tomar o refrigerante de lá
da Bahia, guaraná Fratelli Vita, para não mandar o dinheiro para os Estados
Unidos. E, quanto aos quadrinhos, eles diziam que, quando se vê desenhado, não
se treina a imaginação. Isso está provado que é uma tese errada, mas criou o
hábito da leitura de livros, que não é um hábito ruim também. Sempre vivi
perto de livros. Isso me ajuda a compor. Música não me inspira,
me inspiram outras linguagens O Mikhail Bakhtin descobriu uma coisa que
ele chamava de dialogia ou polifonia, que depois a crítica de arte, escritora e
psicanalista Julia Kristeva, nos anos 60, chamou de intertextualidade, que é a
possibilidade de um conjunto de signos que formam uma linguagem, verbal ou não-verbal,
ser traduzido em outro conjunto de signos. Isso em semiótica se chama tradução
intersemiótica. Eu gosto de trazer uma coisa que foi trabalhada num outro campo
de signo para a música.
Você
passou a beber Coca-Cola depois que saiu da casa de seus tios?
Eu
me lembro do dia em que tomei a primeira Coca-Cola. Foi numa festa em Irará,
era uma novidade; vinham aqueles engradados, não se sabe de onde, e serviam
Coca-Cola a 20 reais, cruzeiros ou o que seja, quente. Eu tomei duas.
Com
essa educação antiamericana, como você entrou em contato com o rock'n'roll,
que é uma influência clara, principalmente nas músicas do início de sua
carreira?
Um
dia, em 1956, matei a aula e entrei no cinema Excelsior, na praça da Sé, em
Salvador. Começou um filme, que eu não sei qual é o nome, no qual Bill Haley
abria cantando Rock Around the Clock. Nossa!, eu chorei naquela
cadeira, estremeci, era uma coisa igual à Fonte da Nação, que eu vi em Irará
quando era criança. Aquele espetáculo das pessoas todas lavando roupas ali
embaixo. Um gramado extenso do lado direito, onde todas as roupas da cidade
estavam estendidas, todas aquelas cores. Os aguadeiros iam lá pegar água. Era
água de beber e cozinhar. E as lavadeiras da cidade lavavam roupa ali embaixo.
Quando eu vi essa loucura, fiquei ali alumbrado. Aquela luminosidade do
Nordeste, que deixa tudo ser visto com grande clareza. E aquilo tinha som -
"Meu divino São José..." -, aquelas mulheres com aquela voz muito
aguda -'A mulher do cego morreu..." -, e os homens todos cantando junto,
aquelas vozes muito fanhosas. A primeira vez que ouvi Rock
around
the Clock pode se comparar a isso. Essas inaugurações...
Com
o avanço do tempo, a gente ainda passa por essas inaugurações?
Ah, passa.
Qual
foi a inauguração mais recente?
A
mais recente... Nossa, às vezes, quando a gente consegue chegar perto do sonho
que leva para o estúdio... Porque a gente vai para o estúdio com um sonho, com
uma música que está na nossa cabeça, aquilo não existe materialmente, só
existe platonicamente. Quando você chega perto, você sente algo inesquecível.
Você
continua se sentindo o Trotsky do Tropicalismo?
Realmente
eu foi o Trotsky dessa história. Em 1968, eu era tropicalista. Quando fez cinco
anos, em 1973, era quase tropicalista. Quando fez dez anos, em 1978, quase já não
aparecia em nada. Quando fez 15 anos, eu não estava mais, tinha sido varrido de
todas as fotografias.
Quem
era o Stálin?
Ninguém.
Foi a aglutinação natural.
Em
seu novo CD há uma música com Capinan. Depois da Tropicália, vocês
continuaram trabalhando juntos?
Não,
Capinam estava fazendo essa ópera dos 500 anos do descobrimento com Fernando
Cerqueira, que foi meu colega de quarto durante o tempo de Universidade da
Bahia. Eu fiz apenas uma música, chamada Pericéia. Faz parte da ópera. Sempre
encontro com o Capinan, mas não fazemos mais parceria. Nós fizemos uma grande
parceria na nossa... infância, digamos assim, em 1962, no Centro Popular de
Cultura, o CPC. Na época, eu era contratado do CPC como
diretor
musical. Ele também era profissional, praticamente. Quando tinha uma greve, por
exemplo, greve dos bancários, aí o CPC deslocava a mim, a Capinam, para a vigília.
A gente fazia teatrinho de cordel, canções para cantar na rua na hora do
desfile.
Você
era ligado a algum partido?
Nessa época, eu era
apenas contratado do CPC. Mas fui do PC em Irará. A cúpula do PC de Irará era
eu, o delegado Raul Cruz e o dono do jogo do bicho, João Pechincha. Um dia, o
Raul e o João disseram: "Estamos cansados de ver a cara do companheiro Tom
Zé. Queremos ver gente nova”. Eu pensei: "Quem será que não tem
namorada para entrar para o PC? Vou chamar o Aristeu". Então, o Aristeu
entrou para o partido. Depois estoura a revolução, eu já tinha saído do
partido, e não é que Aristeu continuou! Comecei a me arrepender, por que fui
meter esse rapaz nesse bolo?!". Chegava o companheiro Aristeu com folhetos
de passeatas. Que diabo! Naquele tempo tudo era motivo para prender qualquer
pessoa. Que sentimento de culpa! Aquilo já não tinha mais tamanho em meu coração,
até que um dia chegou uma pessoa no restaurante e disse: "Soube do
companheiro Aristeu?". Eu falei: "Foi preso e se f..!". "Não,
traiu o partido e denunciou todo o mundo". Eu falei: "Graças a
Deus!". Anos depois, o PC do B de Vitória do Espírito Santo caiu de
amores por mim, sem mais nem menos. Isso depois de 1975. Eu participei em Vitória
do Espírito Santo da Semana da Albânia. É o caso de perguntar se a Albânia
pode fazer semana em algum lugar, Semana Cultural da Albânia em Vitória do Espírito
Santo. Eu participei, fui cantar e ganhei um dinheirinho. Todos sabem que
transitar no PCB e no PC do B era muito difícil, porque os dois eram os
inimigos mais figadais que se possa imaginar, e eu consegui essa isenção.
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