
(Primeira tentativa)
A Bossa-Nova bateu em mim num dia cinzento de agosto do ano passado. Eu estava
no CPC da Bahia, um barracão que ficava nos fundos e no corpo da casa da Escola de
Direito.
(CPCs: Centros Populares de Cultura que agregavam as esquerdas estudantis.)
Bem, eu estava lá no CPC, o rádio de pilha ligado na ZYD8, Rádio Excelsior da
Bahia. De repente tocou um samba, uma música estranha, absurda e bela. Um abismo. Uma
sensação de que o universo parava para uma fotografia. E o rádio cantava:
"a realidade é que sem ela
não há paz, não há beleza
é só tristeza"
e alguns diminutivos rutilantes.
Frio na espinha. Faltou-me terra aos pés, como disse meu avô Pompílio ao ver tia Luiza
com o namorado na Avenida Sete. Faltou-me gravidade ao peso. E lá ia aquele
cantor-ventríloquo -- nome dado a João Gilberto nas reuniões dos produtores da Odeon em
56, sempre que João Araújo, pai de Cazuza, levava alguma fita do então desconhecido.
"Diz-lhe numa prece
que ela regresse"
que me regresse o pulso que latejava na fronte e se confundia com o ritmo da levada do
violão. Eu tinha tétano e rubéola. |
Perdi a
consciência e "sem ela não pode ser". Sem ela não pode ser.
Rasgue e jogue fora. Vou tentar outro.(Segunda Tentativa)
A Bossa-Nova, para nós, do público, nasceu num dia cinzento de agosto do ano
passado, 1958. Nesses quatro meses o gênero apodado de "música de apartamento"
ou de canções da turma do barquinho, do sorriso e da flor", a dita BN, como sedutor
pacífico, fez o que nenhum grande conquistador conseguiu. Já acumulou mais terras e
países do que Alexandre Magno, Dario ou Napoleão, instalou-se em extensões territoriais
maiores do que o Império Romano em seu apogeu.
Rasgue e jogue fora.
(Terceira Tentativa)
A Bossa-Nova nasceu num dia.. etc..
É a primeira vez que um país do mundo subdesenvolvido inaugura um arquétipo artístico
em sua própria língua e com suas tradições; no caso, o enraizado samba. Espantoso,
ainda, é que há quatro meses as muralhas do jazz, civilizado, superior e invencível,
apoiado pelo poder de uma grande indústria... há quatro meses o jazz vem abrindo os
flancos para receber a influência de um frágil e feminino gênero musical da América do
Sul (talvez Buenos Aires). |
Brasil neste
janeiro de 59. Muitos mestres e professores costumam chamá-lo de: "música sem
ritmo, muitas vezes fora do compasso, cantada sem afinação correta, de letras infantis,
sem beleza poética. A própria teoria musical nos livros e escolas condena esse gênero
sincopado e indefinido, porque uma peça que não termina na cabeça do compasso, no tempo
forte, tem terminação feminina."
O que prova, nos juízos doutos,que a Bossa-Nova é inqualificáveluma vez que pode
ser confundida com ou simbolizada pela leveza feminina, ou seja, pela mulher, esse navio
negreiro do século 20."A um rapaz de família não fica bem cantar esse
inhen-inhen-inhen que põe em dúvida sua masculinidade..."
Já chega.
LEITURAS:
"CHEGA DE SAUDADE:A história e as
histórias da Bossa Nova"
autor: Ruy Castro
Ed. Cia das Letras
"A CANÇÃO NO TEMPO - VOL. 2 1958/1985"
autores: Jairo Severiano e
Zuza Homem de Mello
Ed. 34
"O BALANÇO DA BOSSA"
autor: Augusto de campos
Ed. Perspectiva
|