TOM ZÉ EM "VAIA DE BÊBADO NÃO VALE"

"Vaia de Bêbado Não Vale"
Autores: Tom Zé e Vicente Barreto

Primeira edição
No dia em que a bossa nova inventou o Brasil
No dia em que a bossa nova pariu o Brasil
Teve que fazer direito....
Teve que fazer Brasil...Bis
Criando a bossa nova em 58
O Brasil foi protagonista
De coisa que jamais aconteceu
Pra toda a humanidade
Seja na moderna história
Seja na história da antiguidade
Por isso, meu nego,
Vaia de bebo não vale......
De bebo vaia não vale...Bis

BOSSA NOVA x TROPICALIA
Por que é que o Tropicalismo está com essa bola toda?
  Não chega a ser sequer um movimento, um movimento estético estruturalmente radical como a Bossa-Nova. Esta, sim, criou realmente um gênero.
  A Bossa-Nova construiu uma melodia característica; estruturou seqüências de acordes; instituiu combinação de dissonâncias numa sintaxe própria; revolveu o samba em suas entranhas; destruiu e refez a forma erigida por Noel e seus pares.
  O Tropicalismo nem constituiu um gênero próprio. Abriu as portas para outras assimilações. Muito bem.
Renovou o texto das canções. Estabeleceu arsenal comparável ao de Satie, ou seja, utilizou a composição
de peças para exercer a atividade crítica. Atividade que foi uma de suas contribuições mais importantes. Tudo muito bem, tudo muito bom. E os braços que o Tropicalismo estendeu ao, ou as colaborações que recebeu do cinema de Glauber, das artes plásticas de Oiticica, do teatro de Zé Celso, dos escritos de Agripino de Paula, sacudiram o Brasil, então de cabeça
vergada sob o AI 5, naquela fase de opressão e terror. Sua aparente alienação e indiferença política podem ser repensados: veja-se a eficácia com que, acelerando a circulação de dados informacionais, levantou a cabeça do País.
  Mas a Bossa-Nova é mais embaixo quero dizer, mais aprofundada.
  Quem tem lato senso para prender a si o nome de movimento artístico é a cuja.
  É notável que este gênero, agora já completados seus quarenta e muitos anos de vida, impressione pouco, no Brasil, estudantes e teóricos musicais.
  Perceptíveis em grandes massas oceânicas e em furacões, a água e o ar são quase invisíveis no cotidiano. Pouco ou nada os percebemos, embora sejam vitais, constituidores.

Essa invisibilidade da Bossa-Nova insere-se numa tendência vigente, já observada por alguns críticos. Tendência que compactua com o entorpecimento da sensibilidade, com o encolhimento da arte como tal. Botando-a no chinelo. Tábula rasa. Ou tabula funda.

Segunda Edição

No dia em que a bossa-nova inventou o Brasil,...........
.............................
Quando aquele ano começou, nas Águas de Março de 58,
O Brasil só exportava matéria prima
Essa tisana.
Isto é o mais baixo grau da
capacidade humana
E o mundo dizia:
Que povinho retardado...........
Que povo mais atrasado....... .........................Tris


Terceira Edição

No dia em que a bossa-nova
inventou o Brasil,..............
............................
A surpresa foi que no fim daquele mesmo ano
Para toda a parte
O Brasil d'O Pato
Com a bossa nova, exportava arte,
O grau mais alto da capacidade
humana
E a Europa, assombrada:
Que povinho audacioso...........
Que povo civilizado.........Tris


Pato ziguepato ziguepato Pato
Pato ziguepato ziguepato Pato


Tratou com desacato o nosso amado Pato
Viva a vaia, seu Augusto,
Viva a vaia, seu João,
Viva a vaia, viva a vaia.
Viva a vaia com Diós, amor,
Porque me soy argentino
Gentino, gentino, gentino.


(Parceiro óbvio; não tenho cacife para anunciá-lo,
portanto corro o risco até
de um processo.)



Clique e Ouça

NO DIA EM QUE A BOSSA NOVA PARIU O BRASIL
título na demo de 1992

A seguir, texto de canção enviada para a Luaka Bop em 1992, como parte da demo do disco "As Ancas da Tradição" (The hips of Tradition). Na escolha final das 17 músicas que compuseram o

disco, a então intitulada "No dia em que a Bossa-Nova pariu o Brasil", cuja letra se lê abaixo, não ficou entre as selecionadas.

Por quê? Eu e David Byrne concordamos: era um tema por demais restrito ao interesse do Brasil.

Também, porque preferimos as outras canções.
Uma curiosidade: os versos finais daquela eram:

... Tratou com desacato
O nosso tão amado Pato.

No dia em que a Bossa-Nova pariu o Brasil

o nosso céu de anil não ficou mais anil,

nem mesmo o presidente encontrou motivo

pra um ponto facultativo.

Parada não saiu
na rua nem se viu
passeata de  Deus-com-o-Brasil-pra-
Frente.

No dia em que a Bossa-Nova pariu o Brasil
a Cinderela acordou a Bela Adormecida que, mesmo quase fada, ficou puta da
vida,
e tão aborrecida
que fez um espalhafato
e tratou com desacato
o nosso tão amado Pato


EDIÇÃO DE 1o. de JANEIRO DE 1959 Trata-se de um tipo de música ainda segregado no próprio

           EDITORIAL
(Primeira tentativa)
  A Bossa-Nova bateu em mim num dia cinzento de agosto do ano passado. Eu estava no CPC da Bahia, um barracão que ficava nos fundos e no corpo da casa da Escola de Direito.
(CPCs: Centros Populares de Cultura que agregavam as esquerdas estudantis.)
  Bem, eu estava lá no CPC, o rádio de pilha ligado na ZYD8, Rádio Excelsior da Bahia. De repente tocou um samba, uma música estranha, absurda e bela. Um abismo. Uma sensação de que o universo parava para uma fotografia. E o rádio cantava:
"a realidade é que sem   ela
não há paz, não há beleza
é só tristeza"
e alguns diminutivos rutilantes.
Frio na espinha. Faltou-me terra aos pés, como disse meu avô Pompílio ao ver tia Luiza com o namorado na Avenida Sete. Faltou-me gravidade ao peso. E lá ia aquele cantor-ventríloquo -- nome dado a João Gilberto nas reuniões dos produtores da Odeon em 56, sempre que João Araújo, pai de Cazuza, levava alguma fita do então desconhecido.
"Diz-lhe numa prece
que ela regresse"
que me regresse o pulso que latejava na fronte e se confundia com o ritmo da levada do violão. Eu tinha tétano e rubéola.

Perdi a consciência e "sem ela não pode ser". Sem ela não pode ser.
Rasgue e jogue fora. Vou tentar outro.

(Segunda Tentativa)
A Bossa-Nova, para nós, do público, nasceu num dia cinzento de agosto do ano passado, 1958. Nesses quatro meses o gênero apodado de "música de apartamento" ou de canções da turma do barquinho, do sorriso e da flor", a dita BN, como sedutor pacífico, fez o que nenhum grande conquistador conseguiu. Já acumulou mais terras e países do que Alexandre Magno, Dario ou Napoleão, instalou-se em extensões territoriais maiores do que o Império Romano em seu apogeu.

Rasgue e jogue fora.

(Terceira Tentativa)
A Bossa-Nova nasceu num dia.. etc..
É a primeira vez que um país do mundo subdesenvolvido inaugura um arquétipo artístico em sua própria língua e com suas tradições; no caso, o enraizado samba. Espantoso, ainda, é que há quatro meses as muralhas do jazz, civilizado, superior e invencível, apoiado pelo poder de uma grande indústria... há quatro meses o jazz vem abrindo os flancos para receber a influência de um frágil e feminino gênero musical da América do Sul (talvez Buenos Aires).

Brasil neste janeiro de 59. Muitos mestres e professores costumam chamá-lo de: "música sem ritmo, muitas vezes fora do compasso, cantada sem afinação correta, de letras infantis, sem beleza poética. A própria teoria musical nos livros e escolas condena esse gênero sincopado e indefinido, porque uma peça que não termina na cabeça do compasso, no tempo forte, tem terminação feminina."
  O que prova, nos juízos doutos,que a Bossa-Nova é inqualificáveluma vez que pode ser confundida com ou simbolizada pela leveza feminina, ou seja, pela mulher, esse navio negreiro do século 20.

"A um rapaz de família não fica bem cantar esse inhen-inhen-inhen que põe em dúvida sua masculinidade..."

Já chega.


LEITURAS:

"CHEGA DE SAUDADE:A história e as histórias da Bossa Nova"
autor: Ruy Castro
Ed. Cia das Letras

"A CANÇÃO NO TEMPO - VOL. 2 1958/1985"
autores: Jairo Severiano e
Zuza Homem de Mello
Ed. 34

"O BALANÇO DA BOSSA"
autor: Augusto de campos
Ed. Perspectiva