Três noites no Sesc com o melhor de Tom Zé
ã Jeferson de Sousa (Estado de São Paulo - Caderno 2 "Show")
O compositor baiano que se tornou sucesso nos Estados Unidos está em São Paulo para uma temporada de hoje a domingo, no Sesc Pompéia, onde mostra canções do próximo disco.
Tom Zé pode se colocar como vítima daquelas ironias que já se tornaram corriqueiras no Brasil. Aos 54 anos (completa 55 em agosto) e 25 de carreira, o compositor baiano estava destinado a amargar em casas de espetáculos não muito maiores do que as notinhas que a imprensa reservaria ao evento. Não fosse os ouvidos mais atentos de um americano, David Byrne, líder dos Talking Heads, que por mera coincidência acabou ouvindo um dos trabalhos de Tom, Estudando o Samba, e empolgado recolocou-o no devido estrelato.
Reconhecido como grande artista pela imprensa internacional após a coletânea The Best of Tom Zé (Massive Hits), que ficou dois meses nos primeiros lugares da parada "Word Music" da Billboard, Tom permitiu aos brasileiros uma reavaliação de seu trabalho - tarefa que tem sido colocada em prática de forma, digamos, "massiva". A prova é o show O Melhor de Tom Zé, que ele apresenta durante três dias no Sesc Pompéia. O espetáculo ocorre quatro meses depois de sua temporada no Ópera Room. Dificilmente o compositor conseguiria espaço para duas temporadas em tão "curto" espaço de tempo, se não fosse seu sucesso nos Estados Unidos.
No show que apresenta de hoje a domingo, Tom Zé estará acompanhado por uma banda de nove integrantes e mostra antigos sucessos (Solidão e Jeitinho Dela e Augusta, Angélica, Consolação), canções da coletânea (Nave Maria, Dói, Um Oh e Um Ah), músicas inéditas (Ano 2000) e composições conhecidas com novos arranjos, com Asa Branca, de Luiz Gonzaga. Ele promete também fazer uma prévia do próximo disco, a ser lançado ainda este ano, que faz parte do contrato de seis anos que o artista assinou com o selo Luaka Bop, de Byrne.
Nascido em Irará, pequena cidade do Recôncavo Baiano, Tom Zé foi um dos mais promissores artistas oriundos do movimento tropicalista, em que trabalhou ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Mutantes, entre outros. O artista chegou a São Paulo no final dos anos 60 e se estabeleceu definitivamente na cidade. Seus ex-commpanheiros conseguiram firmar-se como bem-sucedidos intérpretes e compositores, mas Tom Zé permanceceu como um obscuro e excêntrico artista cultuado por poucos. Isto nunca o incomodou, já que uma de suas frases preferidas é "não sou um homem de lamentações".
Tom Zé é um dos poucos compositores que conseguiram traduzir com visão poética o cotidiano da metrópole em canções como São São Paulo, Meu Amor e Augusta, Angélica, Consolação, esta, uma de suas mais belas canções, que mostra seu olhar aguçado em versos como "Augusta, graças a Deus/ Entre você e a Angélica/ Eu encontrei a Consolação". A ironia contida na frase não surpreende. É o mínimo que se espera de alguém que começou a carreira cantando, num programa chamado Escada para o Sucesso, uma canção intitulada Rampa Para o Fracasso.
| < Anterior | Próximo > |
|---|





