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Defeitos musicais que funcionam

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Defeitos musicais que funcionam

João Ximenes Braga

Correspondente NOVA YORK

David Byrne subiu ao palco do Irving Plaza na noite de anteontem não como cantor, mas como dono do selo Luaka Bop, e disse estar ali para introduzir "a verdadeira ameaça fantasma", numa alusão ao título do novo episódio de "Guerra nas estrelas". Claro, não se pode comparar o sucesso cult de Tom Zé nos EUA ao daquele filme, não de forma quantitativa. Mas, guardadas as devidas proporções, o recente interesse americano pela Tropicália é também um estranho fenômeno de badalação. O suficiente para Tom Zé esgotar os 1.100 ingressos do Irving Plaza; e o Luaka Bop acredita que sua turnê por cinco cidades americanas, que começou terça-feira em Boston e termina dia 27 em Los Angeles, dará um impulso ao CD "Com defeito de fabricação" ("Fabrication defect"), que já vendeu 15 mil cópias nos EUA.

Mas logo depois das primeiras músicas, "Nave Maria" e "Curiosidade", Tom Zé demonstrou que uma comparação cinematográfica mais adequada teria sido com Roberto Benigni na noite do Oscar. Num inglês ralo no limite do incompreensível, em diferentes momentos ele disse à platéia que ia cantar uma música "shortezinha", leu manchetes do "New York Times", falou da Rua Augusta, de Feira de Santana, de Brasília.

Com suas palhaçadas macarrônicas, ele parecia confirmar os estereótipos de primitivismo relacionados ao artista de Terceiro Mundo. Isso, para quem não entendesse a sofisticada ironia por trás de seus defeitos de fabricação.

- Quem diria que eu, vindo do Terceiro Mundo, ia enganar vocês - disse à platéia, com ar maroto. - Brincadeira é a melhor coisa do ser humano, não sou nada intelectual.

Nada intelectual? Difícil crer, parece mais uma frase de efeito do jogo malandro de Tom Zé. Antes do show, disse em entrevista ao GLOBO que não se faz arte sem a tensão "entre o ridículo e o brilhante". E ao falar de "Com defeito de fabricação", esclareceu que não há ingenuidade em suas palhaçadas:

- Meu disco fala que nós somos escravos do Primeiro Mundo, que nos transforma em andróides.

Mas agora Tom Zé é contratado do selo de David Byrne, depois de muito tempo ignorado pelas gravadoras brasileiras. Na entrevista, Tom Zé disse que um artista que não saiba discernir esse tipo de ambigüidade, velho tema da Tropicália, "se ridiculariza e trai seu povo". No show, falou à platéia:

- No Brasil, sou um escravo. Em Brasília, o presidente da República é um escravo. Mas aqui, no palco, sou o chefe.

Poucos pagantes do show aparentavam ter mais de 25 anos, o cenário era composto pela juventude moderninha de downtown Manhattan, naturalmente mais interessada em música fora do mainstream pop que em exotismo puro. E Tom acredita ser compreendido.

- O americano está interessado na sutileza e na cipoada da música brasileira - diz na entrevista. - A música brasileira fornece a comodidade do prazer e o espinho da observação do mundo.

Um exemplo dos sentimentos que ele desperta está na sua relação com os músicos americanos que o acompanham. Em Nova York, depois da abertura de Vinicius Cantuária, foi acompanhado pelo multiinstrumentista brasileiro Jarbas Marins. Mas a banda de apoio propriamente dita era o Tortoise, grupo experimental de Chicago, que basicamente reproduziu os arranjos de Tom Zé.

- Esperava que fosse haver uma troca. Mas eles estavam interessados em fazer uma leitura da linguagem de uma pessoa de um tempo diferente. Seguiam cada passo como se eu fosse um velho mestre. Aos 62 anos, sou avô deles, que têm em torno de 30. Mas quando sou um velho mestre, sou um mestre dos desabusos, de mandar fazer as coisas erradas, que são as que me interessam.

A turnê americana coincidiu com o lançamento de um EP com remixes de "Com defeito de fabricação" feitos por nomes do pop americano. Tom Zé comentou a experiência:

- Eu me ouço, mas me ouço diferente. Não como se eu estivesse lá, é completamente diferente de um disco meu. Mas me encontro com a fúria selvagem da vontade de inventar.

 

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