
Música
Relançada obra-prima tropicalista de Tom Zé

Foto: Kiko Ferrite | Valor
Gravado em 68, disco é uma crônica corrosiva da vida na metrópole.
Por Jean-Yves de Neufville, para o Valor, de São Paulo
“Tom Zé”. | Sony Music, R$ 22.
Tom Zé: o cantor e compositor baiano que estreava na grande metrópole usou talento e sua veia ácida para criticar a classe média e seus costumes.
A descoberta de tesouros não é exclusividade das explorações do espaço e do fundo do mar. Sabe- se agora que a MPB também possui seus baús perdidos repletos de gemas, à espera de ser desvendados. Volta e meia, um desses tesouros acaba ressurgindo, como o primeiro disco de Tom Zé, que leva seu nome e foi gravado em 68 no Estúdio Gazeta, em São Paulo. A fita master, dada como perdida, foi encontrada no Recife, na antiga gravadora Rosenblit, pelo escritor, músico e pesquisador Carlos Rennó. “Não se sabia se a master ainda existia porque uma enchente levou metade da fábrica. Por sorte, a gravação estava na parte que sobrou”, conta Tom Zé, em entrevista exclusiva ao Valor.
O lançamento, em edição remasterizada, sob supervisão do cantor, vem reparar um lapso histórico, já que ele constitui um capítulo vital da invasão tropicalista que tomou conta da vida musical do país naquele ano, até ser afastada pela repressão.
Neste primeiro trabalho o músico baiano, recém-chegado de Salvador, faz uma crônica de suas primeiras impressões e experiências de vida nesta metrópole através de 13 canções malucas e críticas, em que o sublime e o grotesco, a tradição e a experimentação se misturam numa gangorra de estilos e ritmos como só o tropicalismo seria capaz de produzir. A produção é de João Araújo e os arranjos são de Damiano Cozzela e Sandino Hohagen, maestros do grupo Música Nova.
A atualidade das gravações salta aos ouvidos. O disco abre com “São, São Paulo”, canção que levou Tom Zé a vencer o IVº Festival de Música Popular Brasileira da TV Record em 68: “São oito milhões de habitantes/Que se agridem cortesmente/Correndo a todo vapor/E amando com todo ódio/Se odeiam com muito amor/São Paulo, quanta dor/São Paulo, meu amor”..., enquanto “2001”, parceria com Rita Lee, classificada em quarto lugar, foi premiada como melhor letra. Há também a gravação original de “Namorinho de Portão”, hoje sucesso na voz de Penélope.
Neste álbum, Tom Zé traz à tona os paradoxos, os conflitos, a agressividade, a sedução e a perplexidade que a cidade suscita. Segundo o cantor, uma canção como “Não Buzine que Estou Paquerando” foi inspirada pela “violência” dessa mensagem encontrada num adesivo, na traseira de um carro. “Meu primeiro contato com São Paulo foi longe de ser um amor à primeira vista”, conta. Tom Zé faz das aberrações do capitalismo seu alvo predileto. Estas, simbolizadas pelas agressões visuais das placas publicitárias são satirizadas em três canções: “Catecismo, Creme Dental e Eu”, “Parque Industrial” e “Sem Entrada e sem Mais Nada”.
Ao contrário de Adoniran Barbosa, que retratava sem maldade seus conterrâneos, Tom Zé, impiedoso, exercita sua verve contra a hipocrisia da classe média em canções como “Namorinho de Portão”, denúncia do conformismo dos jovens que namoram sob o olhar atento e severo dos pais da garota. A letra de “Curso Intensivo de Boas Maneiras”, é um modelo de música engajada: “Primeira lição: deixar de ser pobre/Que é muito feio/Andar alinhado/E não freqüentar, assim, qualquer meio (...)”.
Por fim, a atualidade das músicas é ressaltada pela sua concepção arrojada. Os arranjos orquestrais e rítmicos são repletos de intervenções em que colidem música popular e música contemporânea erudita. “Eu estava inventando um gênero”, estima Tom Zé. O cantor lembra que o júri do programa de Flávio Cavalcanti decretou que “Parque Industrial” “não era música”...
A cada instante ocorre uma surpresa sonora – sinos, buzinas, cacos, comentários, erros, mudanças radicais de andamento, em intervenções que comentam e dramatizam os textos das canções, numa concepção inspirada tanto nas novelas do rádio como nas trilhas do cinema mudo. Há também combinações revolucionárias de estilos, como na genial “Sabor de Burrice” que associa o iê-iê-iê com música sertaneja, em mais uma colisão dos mundos rural e urbano. “Naquela época, não existia nada desse tipo no campo musical”, diz o cantor. E, podemos acrescentar, nem nos dias atuais.
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