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Tom Zé põe dinamite nos pés do século

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Tom Zé põe dinamite nos pés do século

Disco faz releitura competente e ambiciosa da produção brasileira e internacional

Epitácio Pessoa/AE-20/11/00

Tom Zé, com um instrumento eletromecânico criado por ele - CHRISTOPHER DUNN

Especial - O Estado de S.Paulo

Qualquer texto ou obra artística é, segundo Julia Kristeva, um "mosaico de citações" com uma multiplicidade, senão uma infinidade de significados. Não existem fontes nem originalidade absoluta. O artista brinca constantemente com um repertório de signos e significados. Não há nada de novo sob o Sol.

Mas há novas combinações e novos jogos de armar. Porém, na busca de unicidade, o artista ocidental freqüentemente oculta ou minimiza sua dívida dialógica com outras obras. Apesar das lições do pós-estruturalismo, pós-modernismo e outras bossas, continuamos presos a uma tradição autoral com todo seu peso cultural, social e legal que valoriza a "novidade" cheirando a mofo.

Há, portanto, algo paradoxal em Jogos de Armar: Faça Você Mesmo (Trama, 2000), o mais recente trabalho do compositor-cantor Tom Zé: o disco alcança um novo nível de invenção na produção musical por meio da explicitação detalhada de todos os fragmentos sonoros e textuais plagiados que constituem a obra. Ou seja, Tom Zé é sumamente original no seu jeito próprio de articular a impossibilidade de fazer arte original.

Que o diga Hans Joachim Koellreutter, o compositor-maestro-incentivador de vanguarda que vem abalando o cenário da música erudita no Brasil desde os anos 40. Num recente vídeo-documentário feito por Carla Gallo sobre Tom Zé, o consagrado fundador do Grupo Música Viva revelou que havia ficado "arrepiado", sem poder dormir depois de ouvir a composição Toc, um assustador bricolage de sons e ritmos do disco Estudando o Samba (Continental, 1976). Foi esse disco que tanto fascinou o roqueiro vanguardista e produtor norte-americano David Byrne, que depois lançaria para o mercado mundial uma coletânea de material dos anos 70 e mais dois discos de inéditos do cantor-compositor baiano pelo selo Luaka Bop. Naquela composição, Koellreutt er vislumbra uma nova prática musical, "alguma coisa que é prestes a chegar". Com Jogos de Armar parece que chegou de uma vez aquela "coisa".

Nesse disco, Tom Zé retoma finalmente as experiências sonoras com uma série de instrumentos eletromecânicos de invenção própria construídos em 1978.

Essa viagem foi interrompida quando, por engano, o caseiro de um amigo dele usou o material dos instumentos como lenha de fogueira. Cabe lembrar aqui que Tom Zé foi membro do Grupo de Compositores da Bahia, a vanguarda musical ligada à universidade durante os anos 60.

Antes de partir para a viagem tropicalista com o grupo baiano em 1967, ele tinha estudado com Walter Smetak, o compositor-inventor suíço que fabricava instrumentos-esculturas de materiais locais. Anos mais tarde, Tom Zé faria as próprias invenções ligadas à tomada. Ao lado do enceroscópio (feito com enceradeiras, aspiradores e liquidificadores), a serroteria (feita com madeira e PVC), e o buzinório (um conjunto de buzinas acionado por um teclado), destaca-se o Hertzé, o "instromzémento" predileto que tem sido descrito como uma espécie de "sampler primitivo".

Não é bem isso. Um sampler é basicamente um computador que recria digitalmente qualquer som gravado para reciclar citações de forma precisa e planejada. Os produtores e cantores de rap, por exemplo, sampleam gravações antigas para homenagear os grandes papas de funk e soul. O Hertzé, por outro lado, joga com o elemento aleatório-arbitrário da música à maneira do compositor iconoclasta John Cage. Num artigo de 1998, a revista Rolling Stone chamou Tom Zé de "o pai de invenção" que "converte qualquer coisa em música". Talvez seja mais preciso dizer que Tom Zé revela a musicalidade do cotidiano, dos sons que vem da rua, das feiras, das fábricas e dos eletrodomésticos.

Uma ambiciosa releitura da música brasileira e internacional, Jogos de Armar passa pelo choro, xote, baião, desafio, rock, hip-hop, reggae e até gêneros neólogos como o chamegá, um ritmo-colagem de outras danças populares brasileiras. Para os noviços da dança do chamegá (afinal, todos nós), o encarte vem com um desenho de Edu Manzano para ilustrar os passos, tapas e bate-bundas. No disco anterior, Com Defeito de Fabricação (Luaka Bop, 1998), Tom Zé havia anunciado o fim da era dos compositores e o advento da era "plágio-combinadora". Propôs ainda uma estratégia de composição para essa nova era: a estética do arrastão.

Um conceito-chave para entender esses dois discos, o arrastão mostra que cada criação também é um ato de apropriação. No contexto atual de globalização neoliberal, a criação arrastada também pode ser um ato de violência, subversão ou mesmo de resistência. Tal como o disco anterior, Jogos de Armar está repleto de denúncias mordazes de desigualdade social, miséria, fome, exploração sexual, corrupção, e o que ele chama de "globarbarização". Mas como sempre, as críticas de Tom Zé vêm embaladas de humor irreverente. Basta citar um título só: "A chegada de Raul Seixas e Lampião no FMI."

Para Tom Zé, a criação intertextual é quase sempre um ato de "amor/humor", para lembrar o poema de duas palavras de Oswald de Andrade. Seus arrastões de Edu Lobo (Peixe Viva), Jackson do Pandeiro e Gordurinha (Chamegá), Jorge Melo (Desafio), Rossini (O PIB da PIB), e "dos mano da periferia" de São Paulo (Cafuás, Guetos e Santuários) são belas homenagens. Nos anos 70, ele fez uma desconstrução melancólica da bossa nova A Felicidade.

Agora ele mexe fundo com clássicos nordestinos como Asa Branca e Pisa na Fulô. Nem mesmo Tom Zé escapa do próprio arrastão. Seu rock-paródia Jimi Renda-se, de 1970 (que expressou simultaneamente seu amor por, e distância geolingüística-irônica de Jimi Hendrix), e seu jingle dor-de-cotovelo Medo de Mulher, de 1977, ganham aqui novas versões. São auto-arrastões que lembram a releitura rock-tropicalista que Gil submeteu a seu baião-balada Procissão em 1968. A grande canção pop do disco é uma releitura dengosa de Conto de Fraldas, seu baião esquecido de 1984. Se Tom Zé avançou a teoria do arrastão no disco anterior, ele a leva às últimas conseqüências na prática em Jogos de Armar. O subtítulo do disco Faça Você Mesmo não é mera retórica participativa. É um convite para fazer um arrastão do próprio Tom Zé e seus companheiros de viagem.

Fábrica de invenção - Manejando as faixas de um CD auxiliar, um parceiro anônimo, seja amador ou profissional, pode fazer novas versões de todas as canções. Atenção: Não se trata de um CD duplo! Essa cartilha de parceiros é antes uma compilação de módulos ou células musicais que compõem a montagem particular de Tom Zé. Algumas canções incluem letras auxiliares para possíveis parcerias. Daí podemos imaginar futuros arrastões dos arrastões dos arrastões. Nesse disco, Tom Zé armou uma fábrica de invenção, com todo cuidado artesanal, para gerar um hipermosaico de citações.

Que eu saiba, nenhum disco feito para o mercado pop em qualquer lugar do mundo jamais veio com um CD auxiliar com os módulos integrais que compõem as faixas, digamos "originais" (ou melhor, as "14 tentativas-canções realizadas no CD-mãe" como prefere Carlos Rennó). Vivas à gravadora independente Trama que teve a combinação rara de audácia e bom senso de apoiar e bancar esse projeto.

Alô, alô professores de música: esse disco serve para ensinar muitos gêneros e ritmos brasileiros, além de contraponto clássico, serialismo e música dodecafônica. Alô, alô rapeiros, roqueiros e outros artistas pós-modernos do mundo: novo material alucinante para antropofagiar. Alô, alô radialistas FM de Salvador: o arrastão do samba-reggae Chamegá tem tudo para ser um sucesso do verão baiano.

Para nós, simples ouvintes e dançantes: um grande disco de descoberta, humor, prazer, balanço e revolta. Na canção Curiosidade, de 1998, Tom Zé indagou em tom melancólico "quem é que tá botando dinamite na cabeça do século?". Pergunta sem resposta que foi contudo respondida. A canção logo ganhou versões remixadas de vários músicos da vanguarda-pop norteamericana no disco Postmodern Platos (Luaka Bop, 1999). A mais instigante foi a de John McEntire da banda experimental de Chicago Tortoise, que fez uma excursão com Tom Zé nos Estados Unidos no mesmo ano. Em Jogos de Armar Tom Zé vem de novo com outro desafio, esta vez destinado aos parceiros ainda desconhecidos: Quem vai botar dinamite nos pés deste século?

 

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